4. Jack White (p.2)

Quando Marina acordou, e ao olhar para o lado, viu que Arthur não estava mais no quarto. Consultou o celular e viu que eram 2:40 ainda. Levantou-se e chegando na cozinha percebeu que a porta estava levemente aberta, então saiu, imaginando onde ele poderia ter indo.

Cruzou os braços, se protegendo do frio. O vento fez os pelos do seu braço se arrepiarem. Apenas olhando ao redor, conseguiu encontrar Arthur.

Não estava escondido, pelo contrário, chamava atenção. Estava andando descalço sobre os muros, com os braços abertos para manter o equilíbrio. O vento assoprava sua roupa e seus cabelos, e a cada vez que vinha uma rajada mais forte, Marina tinha medo que ele se desequilibrasse, porém, apesar de bambear em alguns momentos, ele não caiu. E ao chegar no fim do muro que cercava o terreno ao lado da casa, ele apenas mudou de direção, subindo em um muro um pouco mais alto, de uma outra casa.

A impressão que dava era de que estava se divertindo com isso, que estava feliz em passear como um gato sobre os muros da vizinhança. Não que alguém fosse reclamar, já que pelo que explicaram para ela, a maioria das pessoas só ia para aquele lugar durante o verão, e ia embora depois do carnaval, que seria, pelo que Marina entendeu, uma grande festa na rua.

Sendo assim, a maioria das casas estava desocupada, e não tinha ninguém pra ver quando um rapaz brincou em suas propriedades.

Arthur virou-se para voltar, e então a viu. Marina agora estava próxima do muro de casa, mas não ousava imita-lo, sabendo que a queda seria certeira. Ele caminhou de volta, um pé atrás do outro, andando com cuidado e mantendo-se firme.

— Já está na hora? — ele perguntou, se agachando e sentando no muro, próximo a ela.

— Ainda não — respondeu Marina balançando a cabeça. — Por que acordou tão cedo?

— Eu não dormi.

Ela ergueu as sobrancelhas, mas ele justificou antes que ela dissesse alguma coisa:

— Fiquei me sentindo estranhamente ansioso por sair hoje. Depois de algumas horas eu simplesmente levantei e saí andando pra passar o tempo.

E enquanto ele falava, Miguel apareceu do lado de fora da casa, e Marina se virou para olhá-lo. Tinha cara de poucos amigos.

— Estão prontos? — ele perguntou.

Arthur assentiu, no entanto Marina negou.

— Devia se aprontar então — sugeriu Miguel, e ela sabia que ele já devia estar se irritando, então preferiu não discutir, e voltou para dentro de casa.

***

Zac estava parado em frente estabelecimento chamado “Café com Tequila”, e pensou, com uma careta estampada no rosto, que eram duas coisas muito ruins para se misturar.

Entrou pela porta da frente, como um simples cliente. Apesar do nome esquisito, por dentro, Café com Tequila era uma cafeteria comum. Exceto, é claro, pela menina sentada sobre o balcão, com as botas sobre ele, apoiada na parede mexendo no celular. A garota não deveria ter mais do que dezesseis anos, e vestia-se completamente de preto. A pele era extremamente pálida, e as maçãs do rosto rosadas. O cabelo era de um loiro tão claro, que chegava a ser praticamente branco. Tinha um corte bem curtinho, como o de um menino, e deixava a mostra orelhas pontudas, que se elevavam na diagonal, em direção a parte alta detrás da cabeça.

Ela notou sua presença e tirou um  dos fones de ouvido, olhando em seguida para ele, com olhos tão claros que eram quase transparentes. E, como se para provar que a cor dos seus cabelos não era artificial, seus cílios e suas sobrancelhas tinham o mesmo tom esbranquiçado.

— Posso ajudar? — ela perguntou, mas mais parecia perguntar como ele ousava incomodar.

— Estou procurando por Jack White.

Ela franziu as sobrancelhas por um segundo, mas apenas escorregou para o lado de dentro do balcão gritando:

— PAI! — Ela entrou por uma porta e Zac não ouviu mais o que ela disse.

Não demorou pra ela voltar, acompanhada de um garoto mais alto que ela, mas com características físicas idênticas. Jovem demais pra ser seu pai.

— Você não é Jack White, é? — Zac perguntou, só pra ter certeza.

— Não, sou Bernardo White. — Ele estendeu a mão e Zac a apertou educadamente. — Meu pai está ocupado. Ele tem alguns negócios importantes pra tratar no momento, mas você pode falar comigo.

— Não sei se você pode me ajudar — retrucou Zac e enfiou as mãos nos bolsos da calça.

— Me diga do que se trata — insistiu Bernardo, e se apoiou em um banco perto do balcão.

— Me disseram que se eu quisesse ter alguma chance de encontrar Arthur Paeon, deveria procurar Jack White.

— E por que ajudaríamos você? — Bernardo especulou.

Essa era a parte em que Zac não conseguia pensar em como oferecer uma moeda de troca, pois não havia de fato uma moeda de troca. Zac não tinha nada a oferecer.

— Afinal, quem é você? — perguntou Bernardo, não tendo recebido uma resposta para a pergunta anterior.

Zac inspirou o ar antes de falar.

— Isac Miller, Antigo Guardião da Fauna, melhor amigo de Arthur Paeon.

Bernardo pareceu o medir dos pés a cabeça, tentando decifrar o que poderia ganhar com um acordo, mas, pelo seu olhar, não estava encontrando nada de interessante, por mais que se esforçasse.

— Bárbara — ele falou olhando pra irmã. Esse devia ser o nome dela —, serve um café pra ele enquanto eu falo com papai.

E Bárbara lançou um olhar irritado para ele por um minuto, que nem chegou a ver.

Quando Bernardo saiu para procurar o pai, a irmã simplesmente subiu no balcão outra vez.

— Você não quer café, né? — ela perguntou, franzindo o cenho de forma ameaçadora e já esperando uma negação. Zac sacudiu a cabeça. — Melhor assim.

Bárbara o ignorou completamente quando pôs de volta seus fones de ouvido e voltou a mexer no celular como se ele nem estivesse ali.

Zac puxou uma cadeira em uma mesa e se sentou, tamborilando os dedos no tampo, de forma inquieta. Por sorte, não demorou para que Bernardo estivesse de volta, acompanhado por mais alguém.

Ele se sentou à mesa, próximo a Zac, enquanto o outro homem se sentou de frente para ele. E se aquele realmente era Jack White, então Zac jamais teria imaginando.

Ao contrário dos filhos, tinha pele morena, e os olhos de formato amendoado eram castanhos. Os cabelos escuros ondulavam até a altura dos ombros, e ele usava uma camisa com tantas cores e formas, que Zac quase ficou tonto. Era difícil imagina-lo como um grande líder, apesar de que ele não sabia como esperava que Jack fosse.

— Então — ele disse —, soube que anda me procurando.

— Eu... — Zac pigarreou quando sua voz saiu estranha. — Eu vim de Nova York, me disseram que você é a única pessoa que poderia me ajudar a encontrar Arthur Paeon.

— Eu não sei onde está Arthur Paeon — respondeu Jack prontamente, mas algo em seu olhar ostentava uma malícia que lhe dizia que tinha mais alguma coisa por trás daquela simples afirmação.

— Mas você sabe quem ele é — Zac arriscou afirmar.

— Sim, eu sei quem ele é. — Jack rolou os olhos, como se aquilo fosse estúpido. — Eu não me tornei líder americano dos híbridos deixando informações preciosas passarem despercebidas. E não se preocupe, também sei quem você é.

— Como...? — Zac espantou-se.

— Isac Miller, amigo do tal Arthur Paeon, desaparecido na Cornualha há dois anos, dado como morto, mas que, pelo menos pra mim, parece bem vivo. — Jack tirou o celular do bolso e leu alguma coisa, estreitando os olhos. — Nascido em 17 de março de 1994 — ele baixou os olhos para olhá-lo pedindo confirmação —, correto?

Zac anuiu pasmado.

— Ainda bem. — Jack guardou o celular outra vez. — Ou eu ficaria bastante chateado — ele deu ênfase na palavra ao dize-la — com o rapaz que me deu as informações.

Zac precisava admitir, aquilo era ameaçador. Não conseguia adivinhar o que Jack sabia ou não da sua vida, e isso quase causava um certo medo. Então se lembrou da mensagem de Delwen, dizendo que não deveria ter medo.

— Você é um homem bastante importante — disse Zac, e sentia o olhar duro de Bernardo sobre si, apesar do garoto não se manifestar na presença do pai. — Seu filho me disse que estava ocupado, e se está gastando seu tempo comigo, é por que tem algum interesse em mim, mesmo que eu não saiba qual é.

Jack deu um sorriso satisfeito e cruzou os braços, recostando-se na cadeira.

— Muito bem — ele disse. — Agora me responda apenas isso: o que me faria acreditar que eu e você somos amigos, e não inimigos?

— Tem um bando de Anjos querendo matar meu melhor amigo, e se soubessem que estou vivo, provavelmente iam querer me matar também — Zac respondeu. — Se estamos contra o mesmo grupo, então acho que isso nos faria, se não amigos, no mínimo aliados.

Jack voltou a sorrir.

— Gostei. — Ele bateu palmas. — Eu tenho uma proposta para você.

— Proposta? — Zac questionou.

— Bernardo disse que eu estava ocupado, não é? — Jack perguntou. — Bom, estava me preparando para uma viagem. Proponho que você vá comigo.

— O que? — Zac ergueu as sobrancelhas.

— Viajar comigo. Não é uma lua de mel, é trabalho. Preciso pegar uma coisa, e não confio em você pra te deixar sozinho perto dos meus filhos — ele disse, e Zac viu Bernardo se indignar com o comentário pelo canto do olho.

Não precisou pensar, se era isso o que ele queria, não custaria nada.

— Aceito.



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