2. Saudades de Casa (p.3)

Marina acordou de madrugada simplesmente pelo hábito, consultando a hora no celular somente para ter certeza de que não estava atrasada, mas não, eram 2:51, acordou em um bom tempo.

Deitou-se novamente e olhou para o lado, verificando Arthur, que dormia profundamente no colchão ao lado da sua cama. A luz tênue que entrava entre as festas das telhas era suficiente para ver seu rosto tranquilo, de feições suaves. Seus lábios estavam entreabertos e os cabelos muito bagunçados se espalhavam pelo travesseiro.

Em momentos como esse, Marina tinha vontade de toca-lo — Arthur parecia ficar tão vulnerável enquanto dormia.

Ela sentia um grande carinho por ele, da mesma forma como para com Chloé, Miguel e Diana. Havia indignado-se ao saber de tudo o que eles haviam passado quando foram presos por Morselk, e ainda mais pela consciência de que era tudo por ela.

Ambos haviam sido agredidos, mas foi Arthur quem ficou com os piores ferimentos, entre eles, diversos cortes, arranhões, hematomas, uma fratura nas costelas e mais duas quebradas.

Foram necessários alguns dias até que estivesse bem. Mesmo que Chloé e Arthur tivessem poder de cura, não eram capazes de curar ferimentos mais profundos de uma vez só, eles haviam lhe explicado, por isso tiveram que fazer de pouco a pouco.

Diana, que era feiticeira, poderia também ter acelerado o processo, como ela mesma se ofereceu, mas só conseguiu fazer alguma coisa no dia em que chegaram ali, quando Arthur estava sob o efeito de uma droga chamada morfina, mas no dia seguinte, Arthur se recusou a deixar que ela o tocasse. Marina não fazia ideia do que havia acontecido entre eles, mas pelo visto, não era nada bom.

Apesar de Arthur ter demorado um pouco mais para restaurar sua integridade física, ainda assim, depois de alguns dias, tanto ele como a irmã estavam perfeitamente bem, fisicamente, é claro, por que ele estava muito estranho em outros aspectos.

Arthur passou a reclamar de tudo, e quando não estava reclamando, ficava no quarto da irmã assistindo o teto ou contando os dedos. Em um determinado dia, Chloé tentou explicar-lhe o que ela achava que estava acontecendo.

Primeiramente, era nítido que tinha algo errado entre ele e Diana, mas além disso, Chloé imaginava que Arthur estivesse se sentindo preso, e assim como ela, estava preocupado com o que iria acontecer com a família, agora que eles eram fugitivos.

E por último, mas não menos importante, a lua cheia havia chegado, e com isso, deveriam estar saindo de viagem pela Guarda, coisa que eles amavam fazer, mas que tornara-se impossível.

Três batidas na janela despertaram Marina de seus devaneios. Ela levantou se devagar, para não fazer barulho, e andou até a porta da cozinha. Travou os dentes enquanto girava a chave lentamente, e quando a fechadura fez barulho ao destravar, olhou para trás, certificando-se de que ninguém havia acordado.

Abriu um pouco a porta, mas somente o suficiente para que Miguel passasse por ela, e silenciosamente, ambos usaram o banheiro antes de sair de casa.

O vento lá fora estava muito frio, mas Marina havia se vestido com um moletom que Miguel trouxera. Saíram pelo portão, caminhando pela rua estreita em direção ao mar.

Durante os últimos semanas, essa havia se tornado a rotina diária: sair juntos de madrugada e andar escondidos até a praia.

Primeiramente, Miguel pediu permissão a Diana para assumir o treinamento de Marina, e a feiticeira, que nunca tivera muita paciência pra ensinar de qualquer forma, consentiu, e depois disso, não manifestou nenhum interesse em saber se ele realmente a estava ajudado, e muito menos como estava fazendo isso.

Desde então, ele estabeleceu uma rotina, que logo no primeiro dia, lhe deu mais dores musculares do que teve em toda a sua vida. O primeiro item das tarefas diárias era acordar às três da madrugada para sair com Miguel para uma caminhada na beira da praia. E Marina nunca tinha imaginado que andar na areia era algo tão difícil.

Não tinha a menor ideia do quanto andavam, mas era bastante. Miguel era uma pessoa muito bem disposta, e havia selecionado como um marco do caminho que andariam diariamente o ponto em que chegavam a um lugar que tinha um amontoado de pedras na à beira mar, davam meia volta e faziam todo o caminho de volta.

O motivo de saírem tão cedo era algo bem óbvio: nenhum dos outros concordariam.

Marina reclamava o dia inteiro das dores que sentia, apenas para Miguel, que apenas ria e não fazia comentários. De Arthur, Chloé e Diana, escondia qualquer coisa que sentisse, e quando não podia suportar a dor, Miguel surrupiava algum remédio da mochila de Arthur. Isso aliviava, e dava forças pro dia seguinte. Mas isso apenas na primeira semana, agora quase não sentia nada.

— O que acha de irmos correndo hoje? — Miguel sugeriu enquanto passavam debaixo de um velho poste de luz, que estava de pé em uma posição tão torta que chegava a ser preocupante. No alto, podia ver as faíscas que os fios soltavam por conta da exposição à maresia.

— Nem pensar — Marina respondeu veementemente.

Miguel riu.

— Certo, vou te dar mais uma semana de folga, depois nós corremos.

— Folga? — perguntou Marina com uma pontinha de ironia. — Esse tempo todo, pensei que estivéssemos pegando pesado.

— Você é iniciante.

— Quando Diana me treinava, não incluía o treinamento físico — reclamou ela, passando debaixo do segundo poste, esse com a lâmpada queimada. Nesse ponto, a areia do mar já invadia a ruazinha.

— Já tivemos essa conversa antes — censurou ele. — Precisa fortalecer o corpo, se tornar mais resistente. Por ser híbrida, sua energia já é limitada, e fica ainda pior se for fraca fisicamente.

Marina revirou os olhos.

— E blá blá blá, não diga. — Depois de mais alguns passos, já podia ver o mar, e sentir o cheiro dele. Seus ouvidos zumbiam com a força do vento. — Mudando de assunto — ela disse —, como você está? Sabe, depois daquela coisa do seu pai na TV e tal.

Ele balançou a cabeça enquanto ambos começavam a caminhada em um passo apertado.

— Sinto falta dele. Imagino que não deveria, mas ele é meu pai.

— Ninguém pode te culpar por isso. — Marina tropeçou na areia, porém conseguiu manter-se de pé.

— Melhor não conversamos agora — disse Miguel se esquivando do assunto —, ou vai ficar ofegante.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top