15. Um Preço Alto (p.1)

Chloé mordeu sua fatia de bolo de chocolate. Estava nervosa e tinha o péssimo hábito de curar o nervosismo com comida. Bebeu um pouco de seu refrigerante e observou de maneira pensativa as bolhas que se dançavam dentro do copo. Tendo Marina descoberto sobre seu namoro, tomou a decisão de que o melhor seria contar tudo de uma vez.

O problema era o frio na barriga que isso causava.

Tinha plena certeza de que isso era da conta dela, e de mais ninguém. Sabia também que nenhuma pessoa tinha o direito de julga-la por sua sexualidade, mas e se estivesse decepcionando sua família? Seus amigos?

E se depois disso, nada fosse como antes?

Chloé abocanhou mais um pedaço de seu bolo. Açúcar não a ajudava a tomar decisões, mas certamente a deixava mais satisfeita ao fazer isso.

A casa estava estranhamente silenciosa naquela noite e por conta disso, conseguiu ouvir o som dos saltos de Diana estalando contra o piso antes mesmo que a feiticeira a encontrasse na cozinha.

— Preciso que arrume suas coisas rapidamente — falou ela sem delongas, e sussurrou em seguida: — Temo que seja necessário fugir daqui ao fim da reunião.

Chloé engasgou com farelo de bolo e tossiu.

— O quê? — perguntou ela, forçando o ar de volta para dentro dos pulmões. — Por quê?

— Apenas faça o que estou dizendo.

— Onde está Arthur? Você falou com ele?

Diana vacilou, e mudou o peso do corpo de um pé para o outro.

— Ele não está aqui — disse Diana, e Chloé arregalou os olhos em surpresa. — Vamos encontrá-lo depois.

— Mas e Miguel? Zac?

— Chloé — Diana repetiu pacientemente. — Apenas arrume todas as suas coisas rápido e esteja por perto da sala de reuniões.

A contragosto, Chloé concordou, e enfiou toda a sua fatia de bolo de chocolate dentro da boca antes de sair correndo para o quarto.

***

Diana sentou-se em sua cadeira assim que Marina já estava acomodada no assento ao seu lado.

Ajeitou a postura olhou ao redor, observando as outras pessoas sentadas à mesa. Tamela Okorie, a líder africana, se inclinava levemente para o lado para conversar com um homem grande e branco, cuja cabeça sustentava um par de chifres negros, que brotavam por entre os fios de cabelo cor de cobre. Era novo entre o grupo de híbridos, mas Diana havia visto Jack chama-lo de George MacMhata, o líder europeu. Do outro lado, o líder asiático — um homem moreno, cujo cabelo escondia apenas parcialmente suas orelhas pontudas — distraía-se em seu celular, alheio a tudo ao seu redor, seu nome era Herman Tedjo, e a julgar por um encontro em que haviam tido em outra ocasião, a feiticeira não simpatizava com ele.

— Que horas são? — Diana viu Jack murmurar para Bernardo, sentado ao seu lado.

— 8:05 — informou o garoto, que desde que Diana chegara, não havia desgrudado os olhos do próprio celular. — Kylie Crowe está atrasada.

— Que grosseiro — disse Diana, observando o lugar vago bem à sua frente na mesa. — Ela está deixando todos nós aqui esperando.

— Diana — disse Jack —, por favor, seja um pouco mais condescendente.

A feiticeira forçou um sorriso, apenas para parecer agradável.

Ao seu lado, a forma como Marina não parava de apertar os dedos das mãos deixava transparecer seu nervosismo, o que fez Diana se arrepender de não dar-lhe uma poção calmante antes da reunião.

Quando a porta se escancarou, uma mulher afobada passou por ela. Parecia ter por volta de trinta anos. Tinha uma pele escamosa e os cabelos louro-dourado espalhavam-se sobre os ombros. Os olhos claros pareciam ostentar uma certa frieza que fez Diana ter a predisposição de não gostar dela.

— Eu sinto muito pelo atraso — desculpou-se ela, ocupando o último assento vago à mesa e pendurando sua bolsa nas costas da cadeira.

— Muito bem — disse Jack. Estava falando em inglês, para que os outros híbridos compreendessem. — Como devem imaginar, esta é Marina Ignis. — Ele indicou a garota com um gesto, e Diana percebeu quando ela estremeceu ao seu lado. — E esta é Diana Branwen — dessa vez, ele referia-se à feiticeira —, sua madrinha e atual responsável.

Diana apenas inclinou sua cabeça levemente. Marina, ao seu lado, a olhava confusa. Decerto não entendera uma palavra sequer dita por Jack.

— Ela não parece uma guerreira — disse Kylie. — Eu não seguiria um exército guiado por essa pirralha.

— Até porque essa pirralha não vai pra guerra nenhuma. — Diana apoiou os cotovelos sobre a mesa, de forma ameaçadora.

— Sabemos bem disso — disse Jack, enquanto arrancava o celular da mão de Bernardo, recebendo um olhar irritado do filho. — Jamais cogitamos essa possibilidade.

— Mas pelo rumo da conversa, suponho que vocês planejem um ataque — disse Diana, voltando a se recostar em sua cadeira. Não falava inglês há tanto tempo que quase havia se esquecido o quão confortável era conversar em sua língua materna.

— Sempre foi a intenção. Sabe o quão difícil é se adaptar ao mundo humano quando se tem isso? — George apontou para os chifres escuros que brotavam em sua cabeça. — Não é justo que sejamos mantidos fora do único lugar onde a aparência física não importa.

— Além disso — disse Herman, com seu sotaque de vogais agudas —, não podemos aproveitar nossos poderes por aqui sem correr o risco de chamar atenção. Vivemos feito ratos, escondidos e sendo perseguidos pelos anjos que não se contentam apenas em nos manter longe de Alexandria, então tentam nos aniquilar aqui também.

— Não acham que uma guerra deveria ser a última opção — disse Diana. — Tentativas de acordos deveriam ser feitas antes.

— Apesar de concordar com você — disse Tamela —, os Anjos jamais concordariam em um acordo onde eles não ganham qualquer vantagem.

— Acontece que os anjos não são os donos de Alexandria — Diana falou, batendo as unhas da mão esquerda sobre a mesa enquanto falava. — Todas as decisões são tomadas pelo Conselho.

— Mas você sabe bem, feiticeira, que os Anjos, junto com seus apoiadores, são maiorias no Conselho — disse Kylie, com um leve tom de arrogância em sua voz.

George apoiou as mãos sobre a mesa antes de falar:

— O fato é que queremos sua garotinha apenas como o rosto da revolução. Não há qualquer intenção de envolve-la diretamente com o confronto.

— Claro, vão transforma-la em um alvo — disse Diana. — Como se Marina não fosse perseguida o suficiente pelo simples fato de estar viva.

— Precisamos dela — disse Jack. — Sem ela, mal sabemos quantos híbridos vão aceitar se arriscar nessa guerra, mas se Marina estiver do nosso lado, todos saberão que estaremos seguindo a profecia. O destino estará ao nosso lado.

Diana suspirou. Sabia perfeitamente que não conseguiria simplesmente se recusar a permitir a participação de Marina sem gerar confusão. Eles iriam tentar tomar a garota a qualquer custo, sabia disso antes mesmo de entrar naquela reunião.

— Tudo bem, mas terei algumas condições — ela disse, sabendo que se concordasse muito facilmente, eles desconfiariam. — Precisam ter algum esquema para mantê-la segura.

— Isso é claro — disse Jack. — Tanto por ela, quanto por nós mesmos, é essencial que Marina permaneça viva.

— Também não abro mão de participar de todas as decisões que a envolvam.

Kylie riu com deboche.

— E você por acaso é líder de quê? — perguntou. — Você não decide nada, feiticeira.

Diana manteve seu rosto plácido, ainda que desejasse fazê-la pagar pela afronta.

Estava a ponto de responder quando foi interrompida pela porta da sala de reuniões se escancarando e batendo com força contra a parede, causando um estrondo que fez com que todos olhassem imediatamente, tentando descobrir o que acontecia, e com as mãos já buscando por armas.

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