14. A Poção do Oblívio (p.4)

Marina se observou o próprio reflexo no espelho — Ou melhor: fitou uma versão da Diana ruiva, alta e com sardas.

Os cabelos cor de cobre caiam-lhe sobre os ombros em grandes ondas e a boca vermelha fazia a composição perfeita com eles, tendo os olhos como a cor fria contrastante, destacando-se. Um vestido preto decotado dava uma bela visão de seu colo, e o colar de água-marinha brilhava pouco abaixo de sua garganta.

Não entendia bem a necessidade que Diana via em tudo isso, entretanto, não podia discordar de que gostava da imagem que o espelho do guarda-roupa lhe dava.

Ainda que a garota sedutora e de ares misteriosos do espelho não fosse quem ela era de fato, Marina desejou que Miguel pudesse vê-la assim.

Sentiu o frescor do álcool tocando sua pele quando Diana deu algumas borrifadas de seu perfume nela. Era um cheiro doce, que embora fosse marca registrada da feiticeira, causava a Marina um pouco de enjôo. Estavam sozinhas no quarto, já que Chloé dissera que precisava de um chá e saíra há alguns minutos.

— Como você e Arthur começaram... você sabe... — Marina se embolou um pouco ao falar. — A ficar juntos.

Diana olhou para ela com uma das sobrancelhas erguida.

— Eu o conheço desde criança — disse ela. — Eu apenas precisei me aproximar dele quando já era mais velho. Mas por que a pergunta?

Marina engoliu em seco e sentiu o rosto arder.

— Eu... — tentou falar, mas o restante da frase saiu como um murmúrio: — Acho que gosto de Miguel.

Diana pareceu um pouco desapontada.

— Isso é um problema. — Ela suspirou. — Eu não contava com isso.

— O quê? Por quê?

— Eu não posso contar agora. — A feiticeira a segurou pelos ombros enquanto falava. — Te prometo que assim que estivermos fora dessa maldita reunião, eu te direi tudo o que precisa saber, mas por enquanto, não posso arriscar que você esteja emocionalmente abalada.

Marina estremeceu.

— Tem uma coisa ruim acontecendo, não tem?

— Não se preocupe com isso. — Diana ficou na ponta dos pés para beijar sua testa carinhosamente. — Nada que não possamos resolver depois.

— Você tem certeza disso? — perguntou Marina, insegura.

— Absoluta. — disse ela. — Agora preciso que me espere aqui, tenho que falar com Chloé antes da reunião.

***

Arthur acordou com alguém sacudindo seu ombro. Havia sentando-se no lado da cama que não havia sido ocupado por Miguel, recostando o corpo contra os travesseiros macios. Nem viu quando pegou no sono, entretanto, não era de se estranhar, considerado o quão pouco ele havia dormido na noite anterior.

Ele ajeitou o corpo para ver quem o chamava, e deu de cara com uma mulher que quase não reconheceu ser Narcisa.

Arthur franziu o cenho ao encara-la.

— Mas o que...?

— O que achou do disfarce? — questionou ela.

Seus cabelos antes louros e curtos, agora eram negros e desciam completamente lisos até sua cintura, além de cobrir a testa com uma franja reta. Os olhos azuis passaram a ser castanhos por detrás da armação quadrada de um óculos. Podia notar algo diferente até mesmo na forma de seu rosto. Suas roupas também não haviam escapado da mudança: uma calça jeans clara, larga e muito rasgada, combinada a uma blusa de tricô em um tom de rosa pálido.

— Usou magia pra fazer isso?

Narcisa riu.

— Não — respondeu ela. — Uma peruca, maquiagem e lentes de contato fazem milagres. Eu tenho que poupar minha magia.

— Fica bonita assim — elogiou Arthur.

— Está na hora de irmos — ela avisou. — Quero chegar alguns minutos antes e dar uma olhada na área, só por segurança.

Arthur olhou para Miguel, que não havia acordado em nenhum momento, e ainda dormia tranquilamente.

— Acorde, Miguel — Narcisa ordenou, sem se dar ao trabalho de chegar perto dele.

O garoto abriu os olhos imediatamente. A expressão de confusão voltou a tomar conta de seu rosto. Miguel sentou-se um pouco alarmado, direcionando-se para Arthur ao falar:

— O que você está fazendo aqui? — Ele olhou em volta. — Que lugar é esse?

— Pare de fazer perguntas, Miguel — disse Narcisa.

Miguel se calou.

— Você tem que parar de ficar dando ordens a ele! — Arthur reclamou.

A feiticeira revirou os olhos e empurrou os óculos sobre a ponte do nariz.

— Ele está confuso e vai continuar. Não importa o que você diga, Miguel vai esquecer em minutos.

— Por quanto tempo ele vai ficar assim? — Arthur perguntou, preocupado.

— Por um dia ou dois, no máximo. Só até o corpo se livrar da poção — respondeu ela. — Está pronto para sair?

Arthur deixou a cama para buscar suas coisas largadas em um canto. Colocou primeiro a espada nas costas, atravessando a correia da bainha na diagonal sobre seu peito, em seguida pôs a mochila, que apesar de tudo o que tinha dentro, quase não pesava em seus ombros.

— Pronto — anunciou ele, ficando parado de frente para ela, com os polegares enfiados em cada alça de sua mochila.

— Miguel, venha até aqui — ordenou ela, e Arthur o viu obedecer prontamente. — Você também, Arthur, chegue mais perto.

Miguel também havia trazido uma mochila com suas coisas, e Narcisa o ajudou a colocar nas costas.

— Se segurem em mim e deem as mãos — disse ela, e Arthur e Miguel passaram os braços ao redor da cintura da feiticeira, enquanto seguravam-se um ao outro também. — Isso vai ser rápido, mas não podem soltar de jeito nenhum.

Arthur sentiu a peruca de Narcisa fazer cócegas em seu braço quando a feiticeira agitou suas mãos no ar, fazendo brilhar a luz azul de sua magia entre eles. E então, no mesmo instante em que eles estavam naquele quarto, já não estavam mais. Arthur teve seu corpo esmagado e esticado em uma sensação incompreensível. Todo o ar abandonou seus pulmões e um zumbido terrível explodiu dentro de seus ouvidos. Se prendeu com toda a força a Miguel e Narcisa, enquanto cerrava os dentes duramente.

Apenas dois segundos depois de começar, simplesmente acabou, e eles já podiam sentir o chão firme sob seus pés e ouvir o som de algumas pessoas conversando por perto.

— Subam, vão ter uma visão melhor. — Narcisa indicou o piso superior apenas com um movimento dos olhos. — Eu vou estar por perto vigiando, mas quanto menos eu me expor, melhor pra mim.

Arthur assentiu e saiu dali, guiando Miguel pelo braço, que o seguia sem resistência.

A parte superior da estação King's Cross oferecia uma visão privilegiada do térreo, onde algumas pessoas transitavam. Também deixava Arthur e Miguel muito expostos, o que o fez raciocinar se teria sido de fato uma boa ideia estar ali, especificamente.

Perdeu um breve momento observando o teto que cobria a estação, cuja estrutura formava um padrão de triângulos que causava-lhe uma sutil vertigem. Muito provavelmente por culpa do sono e cansaço mental acumulados nos últimos dias.

Aproximou-se da mureta de proteção feita de vidro e espiou lá embaixo. Teve um breve vislumbre de Narcisa em seu disfarce, arrastando uma mala e se misturando perfeitamente aos humanos que por ali passavam.

Podia sentir a presença de Miguel ao seu lado esquerdo sem precisar se virar para olhar, e seu coração saltou violentamente dentro do peito quando, do seu lado direito, pode perceber que havia mais alguém que certamente não estava ali antes.

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