12. Véspera (p.3)

Já era madrugada quando Diana se mexeu e acordou. Ela estava deitada na cama, de costas para Arthur, que a observava pela tênue luz que entrava pela janela. Ela se virou na direção dele, puxando a coberta por cima dos ombros. Assim que pôs os olhos sobre o garoto, uma de suas sobrancelhas se ergueu.

— Pensei que estivesse dormindo.

Arthur sacudiu a cabeça em negação, virando-se de barriga para cima e encarando o teto. Sua mente não parava de formular possibilidades sobre o que aconteceria no dia seguinte.

Diana tocou seu braço carinhosamente, fazendo movimentos circulares com as pontas dos dedos.

— Por que não dorme, Arthur?
Ele respirou fundo e fechou os olhos com força, vendo manchas coloridas surgirem em sua visão.

— Eu não consigo.

— Por que não? — Diana perguntou. Ela agora havia apoiado o cotovelo na cama e a cabeça em uma de suas mãos. O rubi que a feiticeira usava no pescoço escapara de seu decote e encontrava-se sobre o lençol, preso a ela por uma fina correntinha dourada.

— Eu estou com medo — confessou.

A represa de sentimentos presos em seu peito pareceu romper-se em uma enorme onda de emoções. Era uma pressão tão grande, que quase não conseguia respirar ou abrir a boca, e se tentasse, provavelmente começaria a chorar.

Diana sentou-se, apoiando as costas na cabeceira da cama. Ela estendeu-lhe os braços, e Arthur se acomodou entre eles, apoiando a cabeça em seu ombro esquerdo. Suas mãos rodearam o corpo da feiticeira, mantendo um contato próximo entre eles.

— O que está te preocupando? — ela perguntou. Seus dedos deslizavam entre os cabelos dele, desembaraçando os fios delicadamente.

— Eu não quero que Morselk entre na minha cabeça outra vez. Eu não quero ver meu irmão mais novo preso na casa daquele... — sua voz ficou presa na garganta e ele tentou respirar devagar para se controlar. Usou um dos punhos da camisa de mangas compridas para enxugar os olhos, tentando conter as lágrimas que estavam a ponto de escorrer em seu rosto. — Ele é só uma criança.

— Não precisa se preocupar, as coisas vão dar certo.

Arthur a apertou ainda mais, ao ponto de que teve medo de estar machucando-a, todavia, como ela mesma não reclamou, ele também não afrouxou seu abraço.

— Tudo tem dado errado nos últimos tempos, Diana. Eu e Chloé estamos fora da Guarda, não podemos voltar para Alexandria, nenhum lugar onde vamos parece ser seguro o suficiente para Marina estar, Morselk está louco pra me ver morto, Dean foi sequestrado, e agora... — sua voz falhou um pouco — na melhor das hipóteses, ele vai devolver meu irmão, mas vai levar Miguel com ele.

A esse ponto, as lágrimas escorriam por suas bochechas, seguindo um estreito caminho até seu queixo, onde pingavam sobre Diana, molhando sua camisola.

— Ei! — ela o afastou ligeiramente e segurou seu rosto entre as mãos. Os polegares enxugaram-lhe as maçãs do rosto, e ela o beijou rapidamente. — Calma, ok? Eu vou conversar com Narcisa amanhã, ela vai cuidar de vocês. E se for possível, nós vamos trazer ele de volta.

Arthur sacudiu a cabeça.

— Não dá. Depois que Narcisa apagar a memória dele, ele não vai mais se lembrar de nada do que aconteceu.

— Não é assim, Arthur — disse Diana, tirando-lhe o cabelo que caía sobre a testa. — Sempre resta um fragmento de memória, alguma coisa que é forte demais pra ser apagada.

— E se não restar?

Diana o olhou pensativa por um minuto, e então deu um sorriso torto.

— E se você deixasse algum tipo de lembrete para ele. Algo que, quando vocês se encontrarem novamente, você possa contar para ele as coisas que aconteceram e provar o que diz.

Quando Arthur conseguiu entender do que ela estava falando, uma ideia fez com que um sorriso surgisse em seu rosto. Uma pequena esperança para solucionar ao menos um de seus problemas. Ele secou novamente o rosto com os punhos da camisa, e beijou Diana, esquecendo, ao menos por hora, as complicações e problemas que o dia seguinte traria consigo.

***

Miguel atravessou a porta da cozinha, já sentindo o cheiro de erva doce que impregnava o ar. Chloé estava de pé próxima á pia, usando uma calça de moletom, uma camiseta larga e com meias nos pés. Ela coava o chá quente, que levantava vapor no ar frio.

— Bom dia — disse ele, chegando perto e dando-lhe um beijo na bochecha.

Chloé riu e colocou atrás da orelha um cachinho loiro que havia se desprendido de seu coque.

— Bom dia — respondeu. — Chá?

Miguel assentiu e apoiou-se de costas no mármore frio da pia, bocejando. Não dormira bem durante a noite, o resultado foi que ainda estava com sono pela manhã.

— Conseguiu o que eu pedi?

Ela o olhou torto, da mesma maneira como tinha olhado quando ele fez o pedido. Seus olhos castanhos pareciam claros sob a luz do sol que entrava pelo basculante da cozinha. Ela terminou de coar o chá e jogou a peneira dentro da pia. Uma de suas mãos foi até o bolso da calça e tirou de lá um tecido verde e macio.

— Eu queria saber pra que você precisa disso — ela disse, entregando-lhe a blusa. — Eu não sou de mexer nas coisas dos outros. — Ela faz uma pausa. — A não ser nas coisas do Arthur, nas dele eu não me importo.

Miguel deslizou o polegar sobre o a peça, sentindo a textura acetinada do mesmo. Já tinha visto Marina usar aquela blusa algumas vezes.

— Se ela perguntar, pode falar que fui eu — ele disse, enrolando a blusa em sua mão esquerda.

— Por que você está estranho? — Chloé lhe ofereceu uma caneca com chá quente. — Vocês dois brigaram?

— Sim — ele respondeu e bebericou o chá, sentindo o líquido queimar a ponta de sua língua, mas ainda assim aproveitando o sabor doce e suave, característico da erva doce. O vapor subia até seu rosto, úmido e morno. — A gente brigou ontem.

Não era o único motivo pelo qual estava chateado, no entanto, não estava mentindo. Às vezes, era melhor omitir algumas coisas. Não sabia como Chloé reagiria se soubesse o que estavam planejando para aquela noite. Caso descobrisse que seu pai estava com Dean, provavelmente insistiria em ir com eles, e ela não ajudaria em nada, apenas se colocaria em perigo.

— Sou eu que estou estragando tudo, não é?

— Não — ele negou rapidamente. — Fui eu quem comecei essa história, e agora não vou cobrar nada. Você tem todo o tempo que precisar.

— Não é justo com vocês.

Ele esfregou seu braço carinhosamente.

— Não se preocupe, não precisa pensar nisso. Você merece ser feliz.

Ela o olhou apreensiva.

— Você também.

Miguel ofereceu-lhe um sorriso torto.

— Eu fico feliz desde que vocês duas também estejam.

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