12. Véspera (p.2)

— Vocês enlouqueceram? — Diana se exaltou, andando descalça de um lado para o outro dentro do quarto, enquanto Arthur permanecia sentado na cama, apertando os dedos com nervosismo. — Acha mesmo que Morselk vai fazer essa barganha numa boa, e cada um vai pra sua casa em seguida?

— Narcisa vai conosco — Arthur disse, tentando fazer a situação parecer menos arriscada.

Diana não pareceu mais calma.

— Por que não veio falar comigo?

Ele a encarou com o cenho franzido.

— Da última vez que eu tentei, você, Chloé, Marina... As três disseram que era só um pesadelo, e não era! Morselk me ligou.

A feiticeira passou as mãos pelo cabelo, exasperada.

— Infantil! Inconsequente! — ela disse, com os olhos fechados, tentando conter a própria raiva.

— Idiota? — ele sugeriu, já adivinhando qual seria a próxima ofensa.

O travesseiro que estava sobre a cama voou para a mão da feiticeira, e ela o acertou no rosto, como uma forma de agredi-lo, ainda que sem machucar.

— Arthur, você não tem um pingo de juízo! — Diana o encarou com as mãos na cintura e o tronco levemente inclinado em sua direção. — Você acha que eu não ia acreditar se me dissesse que Morselk te ligou, só porque eu não acreditei que uma droga de sonho tinha sido real?

Arthur fez uma careta. Ela tinha razão.

— Desculpa.

— E Miguel — indagou Diana —, não vai abrir a boca e contar algo sobre nós para o pai?

— Ele quer que Narcisa apague a memória dele antes.

Ela suspirou.

— Ao menos um de vocês usa a cabeça pra pensar.

— Eu também não queria te falar porque pensei que poderia tentar impedir — confessou Arthur.

— E eu gostaria — disse ela. — Mas vai adiantar? É seu irmão, Arthur, eu sei que você vai dar um jeito de escapar e fazer uma besteira ainda maior.

— Então você concorda que eu devo ir? — Arthur arqueou as sobrancelhas, surpreso.

— Não, mas não vou fazer nada pra impedir. — Ela sentou-se ao lado dele, e uma de suas mãos tocou o ombro dele gentilmente. — Eu só preciso conversar com Narcisa antes. Gostaria de ir junto, mas nesse caso eu teria que deixar Marina aqui sozinha na reunião. E eu não confio em Jack perto dela.

— Eu também não gosto dele.

— O seu caso é ciúme, não conta.

— Claro que conta! — exclamou ele, olhando torto para ela.

Diana revirou os olhos, e em seguida apoiou a cabeça em seu braço.

— Leve a Excalibur e a bainha — disse ela. — Vou me sentir melhor.

— Aliás — Arthur se virou de frente para ela —, o que tem nelas? Narcisa queria que eu desse elas como pagamento por nos ajudar.

— Você não deu, não é?

— Não. Miguel convenceu ela com um papo esquisito — respondeu ele. — Mas o que tem de tão importante nelas?

Ela balançou a cabeça. Estava claro que não queria dizer.

— Arthur, eu não...

— Eu posso tentar adivinhar? — ele disse. — Quando você me deu a espada e a bainha, leu um trecho do livro Rei Arthur e Os Cavaleiros da Távola Redonda pra mim. O trecho em que Merlin contava para o Rei Arthur que a bainha poderia protegê-lo em uma batalha, de modo que ele não poderia ser ferido. Você não só enfeitiçou a espada, você enfeitiçou a bainha também. Foi isso que me salvou daquele feitiço.

Diana deu um sorriso torto, e Arthur não percebeu que havia algo de errado em sua expressão.

— Isso, você acertou — disse ela, e afastou uma mecha de cabelo que caía sobre os olhos dele. — Use-a, e vou saber que está protegido.

***

Zac precisou sair do quarto para comer. Não era como se pudesse passar o dia inteiro de barriga vazia. Esquentou comida no micro-ondas e depois, sorrateiramente, contrabandeou parte dela e mais algumas frutas para Delwen.

Esperou que a sala estivesse vazia para passar de fininho, em direção novamente ao quarto. Acabou encontrando Miguel encostado na parede com a cabeça baixa. Os braços estavam cruzados sobre o peito, e ele o olhou com uma cara não muito boa.

— Eu tranquei porque... — tentou se justificar, imaginando que ele estaria irritado.

Mas a voz dele foi calma e desanimada quando apenas disse.

— Só abre a porta, Zac.

Ele assentiu, e tirou a chave do bolso da calça. Abriu a porta para Miguel entrar primeiro, e enquanto ele voltava a tranca-la, o outro apenas se jogou de bruços na cama, enfiando a cara no travesseiro.

— Não conseguiram convencer Narcisa? — Ele perguntou, indo se sentar próximo ao noivo. Delwen estava esparramado em sua cama, dormindo. Seus cabelos se espalhavam pelos travesseiros, e as cobertas se embolavam nas pernas da fada. Zac pôs uma das mãos delicadamente sobre a curva de suas costas nuas, deslizando os dedos suavemente na linha de sua coluna.

Miguel virou apenas o rosto na direção dele, e enfiou ambas as mãos debaixo do travesseiro. Algo parecia errado com ele.

— Não, deu tudo certo com ela. Narcisa vai nos levar até lá e... — ele fez uma pausa e suspirou — apagar a minha memória.

— O quê?

Miguel encolheu os ombros.

— Não se preocupe com isso — disse ele. — Eu descobri quando vai ser a reunião dos líderes dos híbridos. Amanhã, às oito da noite, justamente quando eu Arthur vamos estar saindo daqui pra encontrar meu pai.

Zac praguejou. Se algo desse errado, estariam todos separados e sem contato uns com os outros.

Miguel se sentou na cama. Apesar de um pouco abatido, ele assumiu uma expressão determinada em seu rosto.

— Não fica nervoso, nem sofrendo por antecedência. Você acha que isso também não está mexendo comigo? — Ele balançou a cabeça. — O importante é manter a cabeça fria e pensar com calma antes de agir. Se desesperar não vai ajudar em nada, só atrapalhar.

Zac assentiu. Quando aceitou a proposta de Aine, fez isso porque era o necessário para ficar com Delwen. Não ia desistir ou estragar tudo logo agora, ainda mais considerando que ela poderia descontar a raiva no garoto fada, como uma espécie de vingança.

— Vai dar certo — disse ele. — Tem que dar.

Miguel deu um sorrisinho forçado.

— É uma pena que não vamos estar aqui depois pra saber se tudo vai correr bem. .

Zac olhou de lado para Delwen, ainda dormindo tranquilamente. Não tinha dúvidas de que, ao menos para eles dois, toda essa confusão valeria a pena.

Era Miguel quem sairia perdendo nessa história.

Zac virou-se na intenção de dizer algo para ele, mas o Anjo de Terra havia voltado a esconder o rosto no travesseiro, então decidiu que seria melhor dar algum tempo a ele.

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