11. Barganha (p.2)
Marina buscou um moletom em sua mala antes de sair de seu quarto. Os pelos eriçados em seu braço eram consequência da temperatura que já começava a baixar. A chuva caía com intensidade do lado de fora, fazendo com que a casa fosse inundada pelo cheiro de terra molhada, que não era tão forte aqui como fora em sua casinha na floresta, na época em que ainda morava com sua Tia Belinda.
Descendo até o andar de baixo, encontrou Jack White na cozinha. Vestia um robe de cetim verde-esmeralda. O tecido fino era bordado por delicados fios dourados que formavam um padrão floral muito interessante, ainda que demasiadamente chamativo. Seu cabelo castanho estava amarrado no topo da cabeça, deixando a mostra as pequenas argolas que possuía por toda a extensão da orelha. O cheiro de café que inundava a cozinha, era proveniente de sua caneca, que ele assoprava para esfriar.
— Ah, Marina, bom dia! — disse ele, indicando a cadeira que ficava do lado oposto ao dele na mesa. Jack cruzou as pernas e Marina notou que ele também usava pantufas de oncinha. — Café?
Ela acenou, puxando a cadeira. A madeira sendo arrastada no chão gerou um som alto e pesado, que ela desejou abafar para não acordar a casa inteira tão cedo. Quando ela se sentou, já havia uma xícara fumegante flutuando em sua frente.
Sem qualquer palavra, ela ergueu suas mãos e a segurou entre elas. Provou o café e sentiu o líquido aquecer seus lábios. Era forte e amargo, e estava muito bom.
— Há quanto tempo está com Diana? — Jack perguntou.
Marina pousou sua xícara sobre a mesa, gerando um pequeno barulho do atrito da porcelana sobre o vidro.
— Pouco mais que um mês — ela respondeu. Uma mecha de cabelo fez cócegas em seu rosto e ela afastou com a mão.
— Tão pouco tempo? — ele franziu as sobrancelhas. — Mas vocês já se conheciam?
— Não — respondeu Marina, querendo se livrar do assunto. — Eu não conhecia ninguém.
— E como chegou até ela?
— É complicado — disse Marina, e se levantou rapidamente. — Eu preciso... — ela tentou inventar uma desculpa — fazer uma... coisa.
— Não precisa fugir — disse Jack, recostando-se na cadeira. Parecia estar fazendo uma pose. — Eu não mordo.
Os lábios dela se separaram sutilmente, formando um minúsculo “o”. Não soube o que responder, e saiu da cozinha. Marina subiu as escadas com pressa, andando até o quarto de Diana.
Ela bateu na porta, e não demorou para ser atendida.
La dentro, Diana usava uma camisola vermelha, e seus cabelos escuros cobriam as costas nuas. De pés no chão, ela andou até a janela e apontou para alguma coisa lá embaixo.
— Eles estão começando a chegar — disse ela, enquanto Marina se aproximava para espiar a mulher esguia de pele negra que descia de um carro. — Ela faz parte da liderança do híbridos, e veio para ver você.
***
— Eita?
Arthur ainda estava confuso. Aquele garoto, Delwen, era de fato noivo de Zac?
— Ele é burro? — Delwen perguntou, mas estava olhando para Miguel.
E Miguel deu de ombros.
— Normalmente sim, mas com o tempo você se acostuma.
Arthur sacudiu a cabeça confuso, tentando retomar o foco.
— Deixa isso pra lá — ele girou o corpo na direção de Miguel. — Eu precisava conversar com você.
— Pode falar.
— Não com ele aqui. — Arthur apontou para Delwen. — Eu nem sei quem ele é, e o assunto é sério.
— Ele é meu noivo, Arthur — disse Zac com segurança. — O que precisa falar?
Arthur hesitou.
— Vá em frente — incentivou Miguel com um suspiro. — O Fadinha já tá sabendo de bastante coisa.
— Seu pai me ligou — ele disse, deixando as palavras transbordarem para fora dele, antes que perdesse a coragem de falar. — Ele pegou Dean, e ameaçou mata-lo caso você não volte para ele.
Miguel segurou a cabeça com as mãos, com a frustração estampada em seu rosto. Pelo menos meia dúzia de palavrões fora pronunciada por ele.
— Quem é o pai dele? — Delwen perguntou para Zac ao seu lado.
— O líder dos Anjos de Terra — Zac sussurrou em resposta.
— Meu pai não tem limites — lamentou Miguel, com as mãos na cintura e balançando a cabeça negativamente. Ele fechou os olhos e inspirou antes de praguejar mais uma vez. — O que mais ele disse?
— Ele marcou um encontro amanhã, meia-noite, na estação King’s Cross em Londres.
Miguel cobriu o rosto com as mãos, derrotado, e sentou-se sobre a cama.
— Não acredito que vou ser forçado a voltar para casa.
Arthur também não desejava que ele fosse embora com Morselk, mas não podia negar que estava aliviado por saber que teria seu irmãozinho de volta.
***
Diana fez questão de arrumar Marina. Escolheu um vestido verde-pântano até os joelhos, que tinha um profundo decote e uma faixa de tecido que marcava sua cintura. Uma jaqueta jeans foi colocada por cima apenas com o intuito de protegê-la do frio.
Seus cabelos ruivos foram cuidadosamente trançados e presos em um coque no topo da cabeça. Tivera também que usar um batom vinho, e o perfume de Diana. Mas Marina não entendia o motivo daquilo.
— Quero que esteja apresentável — respondeu a feiticeira, quando a garota perguntou, enquanto ela própria alinhava as próprias roupas e conferia sua aparência no espelho.
Seus dentes batiam incontrolavelmente, então ela apertou sua jaqueta contra o corpo, ainda que desconfiasse de que aquilo se tratava mais de nervosismo do que frio.
— Não se preocupe, não tem motivos pra ter medo — disse Diana. — Não vai acontecer nada, pelo menos não agora. E eu vou estar com você.
Elas desceram as escadas lado a lado.
— Jack vai tentar agrada-los de qualquer maneira — informou a feiticeira, enquanto puxava as mangas longas da blusa vermelha que usava para exibir um pouco dos pulsos. A malha canelada se ajustava bem às formas sutis de seu corpo, e terminava em uma gola alta, no pescoço, dando um aspecto sofisticado. — Entre no jogo deles, tente parecer agradável. Se faça de tola, e estará acima de qualquer suspeita.
Marina assentiu e descendo os dois últimos degraus, respirou fundo e atravessou a sala de estar para alcançar a entrada da cafeteria de Jack, com Diana logo atrás.
Bárbara estava atenta. Com os cotovelos apoiados sobre o balcão, examinava minuciosamente as pessoas a sua frente. A mulher que Marina viu descer do carro estava sentada em uma cadeira, com um dos braços sobre a mesa, e o outro gesticulando enquanto ela falava. Jack estava sentado próximo a ela, seu robe havia sido substituído por um terno rosa-bebê, e seus cabelos ondulavam soltos sobre seus ombros.
— Oh, here she is! — disse Jack ao vê-la. — Tamela, this is Marina Ignis.
Marina não entendeu uma só palavra do que ele disse, mas a mulher a olhou e sorriu. Seus olhos eram de um tom de verde brilhante nada natural, e os dentes afiados como os de um gato.
— Nice to meet you, Marina — disse ela, estendendo-lhe a mão. — I am Tamela Okorie, african leader of hybrids.
Marina estava a ponto de entrar em pânico, sem saber o que dizer, quando Diana se intrometeu:
— She doesn’t speak English. I'm Diana Branwen, responsible for her. You can talk with me.
— Oh! — A mulher soltou a mão de Marina um pouco envergonhada. — I'm sorry. Please, sit down, the others are coming.
— Of Course — Diana respondeu para ela, em seguida se virou para Marina. — Ela se apresentou como Tamela Okorie, líder africana dos híbridos, e nos convidou para sentar e esperar os outros.
Marina assentiu, e elas se juntaram aos líderes híbridos à mesa.
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