10. Feridas Abertas (p.1)

— Então você agora trabalha pra Rainha das Fadas? — perguntou Miguel, assim que Zac terminou seu relato.

— Tecnicamente, sim — respondeu ele, que estava sentado na cama ao lado de Delwen. — E quando tudo terminar, eu vou embora.

Miguel cruzou os braços e andou de um lado para o outro pensativo.

— Quando souberem que César tem filhos híbridos, vai ser um verdadeiro escândalo — disse ele. — Mas eu acho que Jack vai querer abafar a informação, para proteger os filhos.

— Eu não tinha pensado por esse lado — murmurou Zac com uma careta.

— Então vocês tem que espalhar essa história para mais gente do que esse tal Jack — intrometeu-se Delwen.

— Estamos hospedados na casa dele — disse Miguel. — Ele pode considerar isso como traição, e prender Marina e nos expulsar daqui. Seria arriscado demais.

— E isso vai expor Bernardo, Bárbara e Bianca — disse Zac, pensando na furada em que havia se metido. — E eles são meus amigos.

— Quanto a isso — disse Delwen. — Acho que você não tem escolha.

— Concordo com o fadinha — disse Miguel, e recebeu um olhar raivoso de Delwen, mas que ignorou completamente. — Seja qual for a maneira como as pessoas saibam disso, eles vão ser expostos. Mas é por um bem maior. Desmascarar um líder dos anjos vai enfraquecer a influência política deles.

— Mas voltando ao ponto principal — disse Zac. — Se não podemos contar para Jack, que é a única pessoa que conhecemos que está disposto a enfrentar os anjos, para quem vamos contar?

Miguel se sentou sobre sua cama. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e uniu as mãos sob o queixo.

-— Preciso de um tempo para pensar sobre isso.

— Não demore tanto — alertou Delwen se levantando e caminhando até a janela. - A Rainha Aine não tem tanta paciência.

Dito isso, ele se jogou para o lado de fora, e quando Zac se aproximou para espiar, ele já não estava mais lá.

***

Diana pediu a Marina que a levasse até o seu quarto, e ao chegar lá, tratou de usar um pouco de sua recém recuperada magia. Uma espécie de feitiço foi lançado sobre as paredes, chão e teto, que brilharam em vermelho por um segundo, mas logo retornaram às suas cores normais.

— Ninguém pode nos ouvir agora — disse Diana.

— Você tem ideia do que Jack pretende? — perguntou Marina, sentando-se sobre a própria cama.

— Até certo ponto — respondeu a feiticeira. — Sabemos que ele vai convidar os outros representantes dos híbridos que estão espalhados pelo mundo. Ele sabe que com você do lado dele, vai ter apoio no que quiser, só não sabemos qual o plano dele.

— E qual o nosso plano no caso dos planos dele não serem bons para nós?

— Nesse caso, que é bastante provável, vamos embora o mais rápido possível — respondeu Diana. — Mantenha-se alerta, pode ser a qualquer momento.

***

Chloé empurrou a porta do quarto e entrou devagarinho. Arthur, que estava quase cochilando, abriu os olhos e se ajeitou na cama.

— Achei que devia te entregar isso — disse ela, se sentando na beira da cama, com uma das pernas dobradas apoiada sobre o colchão, e a outra pendurada. Ela estendia-lhe um celular. — Não me pergunte como seu celular foi parar com Jack, mas ele o consertou.

Arthur pegou o dispositivo em sua mão admirado e o ligou. Era o mesmo que antes, inclusive o papel de parede de uma foto que havia tirado de Marina e Chloé. Lembrava-se da ruiva, na época chamada de Lívia, impressionar-se com a capacidade do aparelho em capturar imagens.

— Obrigado — disse ele. — Nunca imaginei que um dia o teria de volta.

— Não seria o primeiro celular perdido. — Ela deu de ombros. — Você não é exatamente cuidadoso com as suas coisas.

Ele riu.

— É pra isso que eu tenho você. — Seu sorriso murchou enquanto ele batia o celular contra a palma da mão. Ele fez uma careta e olhou pra irmã. — Cada dia que passa, parece que nossas vidas se tornam mais complicadas. Como quando você não sabe brincar de cama de gato, e toda vez que tenta desfazer o nó, embola um pouco mais.

Chloé assentia enquanto ele falava.

— Parece que viramos bonequinhos em um jogo de Diana, Jack e Morselk — disse ela.

— Acha que tem alguma maneira de sairmos disso?

— Eu espero que sim — disse ela se levantando. — Por hora, acho que deveríamos descer para jantar com os White. Incrivelmente, eles são legais, e eu estou definitivamente com fome.

Arthur assentiu e aceitou ajuda dela para se levantar.

***

Marina estava sentada sobre sua cama, com a cabeça segurada pelas mãos quando, após três batidas rápidas na porta, Miguel entrou.

— Ei! — disse ele, se abaixando no chão perto dela. — Está tudo bem?

Ela se aproximou do ouvido dele e sussurrou:

— Diana disse que pode ser que tenhamos que fugir daqui.

— Por quê? — sussurrou ele de volta, tentando disfarçar o arrepio que ela havia lhe causado.

Marina tentou explicar aos sussurros sobre a conversa com Jack e Diana. Miguel tinha uma expressão pensativa enquanto ela falava.

— Você pode me avisar quando marcar essa reunião dos híbridos? — ele perguntou, ainda aos sussurros.

— Claro — respondeu ela. — Mas por quê?

— Confia em mim, você vai saber na hora certa.

— Tudo bem. Mas você concorda que talvez a gente precise fugir?

— Acho que poderíamos sair daqui agora mesmo — respondeu ele. — Mas algo me diz que vai ser melhor esperar por essa reunião. Confie em mim.

— Eu confio.

Ele a abraçou sem pedir licença, e Marina se permitiu aproveitar o aconchego dos braços dele por um momento, entretanto, não tardou a sentir-se culpada por isso, e o afastou, mesmo sem vontade.

— Não há nada de errado nisso — disse Miguel, antes que ela pudesse falar alguma coisa. — Algum dia você vai saber que não existe nenhum problema que nos impeça de ficar juntos.

— Mas Chloé...

— Nem ela — interrompeu ele, e se levantou do chão e saiu do quarto sem mais uma palavra.

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