9. O Mar (p.1)

Quando Arthur acordou no dia seguinte. Ficou confuso por um minuto por dormir fora de casa. Depois se lembrou que dormiu com Diana, mas ao esticar o braço para toca-la, notou que estava sozinho na cama.

Olhou para o lado e lá estava ela, sentada em frente a penteadeira, escovando os cabelos distraidamente, olhando para o nada. Já estava vestida, e pelo espelho, Arthur podia ver seu batom vermelho como sangue, que coloria os lábios.

— Bom dia — disse ele com a voz um pouco rouca.

Diana pareceu nem ouvir. Não respondeu, não olhou para ele, apenas permaneceu passando a escova lentamente pelos cabelos, da raiz ate as pontas, repetitivamente.

Arthur levantou parcialmente o corpo, apoiando-se nos cotovelos.

— Diana? — ele chamou franzindo o cenho. — Aconteceu alguma coisa?

— Não — respondeu ela secamente e continuou penteando os cabelos.

— Você está sentindo alguma coisa? — Arthur perguntou preocupado. — Sabe, sobre o acidente na sua sala de magia.

— Não — disse ela novamente.

Arthur se sentou. Estava confuso e começando a se sentir mal.

— Eu fiz alguma coisa errada?

Diana girou na cadeira para olha-lo nos olhos pela primeira vez naquele dia.

— Fez. E eu também. Fizemos algo que não devíamos.

Arthur franziu o cenho.

— O que? Como assim? Não me diga que isso tem alguma coisa haver com Lívia.

— É claro que tem! — disse ela batendo a escova com força na penteadeira. Ele desviou o olhar e suspirou irritado.

— Lívia não da a mínima pra mim, já te disse. — rebateu ele.

— É claro que ela não diria se gostasse de você! — disse ela se levantando.

— E o que você quer que eu faça? quer que eu vá ao quarto dela e a acorde dizendo: "Bom dia, quer namorar comigo?" — disse ele exasperado, mas ela não expressou reação, como se ela esperasse que ele fosse fazer exatamente o que disse.

Diante disso, ele esticou o braço e a puxou para perto pela mão.

— Diana...

Ele a beijou na altura da barriga e seguiu até a boca, ficando de joelhos na cama para isso. Diana era tão pequena que isso fazia com que ficassem praticamente da mesma altura.

Ela cedeu por um momento, retribuindo o beijo dele, mas depois parou, o afastando dela com as mãos.

— Você devia ir embora — disse ela, e deu as costas para ele, voltando a se sentar de frente para a penteadeira. — Ou pode ficar se quiser ver Lívia, mas não aqui.

Arthur não insistiu, sabia que não ia adiantar nada. Vestiu-se e a deixou sozinha, sem nem saber o que sentir.

Desceu as escadas e pensou em ir embora, mas algo fez ele ficar. Queria ver Lívia, e nem sabia quando iria ter coragem de voltar a casa de Diana.

Ele espiou pela janela da sala, ainda estava escuro. Olhou a hora no celular e ainda não eram nem quatro horas. Lívia devia estar dormindo.

Decidiu esperar um pouco no quarto que ficava ao lado dela. Pegou sua mochila, que havia abandonado na sala desde o dia anterior, e foi pra lá.

Jogou sua mochila na cama, e impulsivamente socou a parede.

A dor pareceu se espalhar pelo braço como um choque elétrico.

Sentou-se na cama examinando as juntas dos dedos machucadas, que estavam vermelhas e começando a sangrar. Doía, e de alguma forma Arthur estava satisfeito com isso. A dor física era mais fácil de entender do que a dor que ele estava sentindo por dentro, mas, infelizmente, uma não amenizava a outra.

Um minuto depois a porta se abriu, e Lívia entrava por ela, ainda usando roupas de dormir e parecendo surpresa por vê-lo ali.

Arthur só precisou de meio segundo para tomar uma decisão. Ia fazer o que Diana queria, e descobrir se ela estava certa ou não.

* * *

Lívia estava andando por um lugar pedregoso, onde o único verde que se via era no limo sobre as rochas. Até o chão parecia repleto de pedrinhas menores, que machucavam seus pés descalços enquanto andava.

Estava seguindo um menino, mas não sabia nada sobre ele, nem conseguia ver seu rosto. Em determinado momento, ele parou e virou-se em sua direção, no entanto, ainda assim, não pôde reconhecê-lo.

— Quem é você? — ele perguntou, mas não estava sendo petulante, seu tom era pacífico.

— Lívia Hervon — ela respondeu.

Mas ele balançou a cabeça.

— Não. Quem é você?

— Marina Ignis — disse ela, e se surpreendeu com a naturalidade com que as palavras saiam da própria boca.

E o menino pareceu feliz com a resposta.

— Marina — repetiu ele, imprimindo carinho em cada sílaba. — É um nome lindo, combina com você.

— Obrigada. Qual o seu...

Lívia acordou assustada nesse momento, com o som de uma batida forte, que parecia vir da parede. Havia sido um som abafado, mas ela tinha certeza de que ouviu.

Ou teria imaginado?

Não conseguiria dormir de novo sem saber o que havia sido aquilo, então levantou-se da cama para olhar.

No corredor do lado de fora parecia tudo normal, mas a porta do quarto ao lado do dela estava entreaberta, então Lívia passou por ela para dentro.

Ficou surpresa em ver Arthur, que parecia consternado, enquanto analisava as costas da própria mão, que Lívia teve a impressão de que estava machucada. Porém em um segundo ele já tinha levantado o rosto para ela, e parecia sorrir levemente. Notou que ele passou a outra mão suavemente pela machucada, e em um instante, a pele estava curada.

— Eu ouvi um barulho...

Ele apenas balançou a cabeça.

— Não foi nada. Estava dormindo? — ele perguntou.

— Estava — confirmou ela, indo se sentar ao lado dele na cama, que estava perfeitamente arrumada, indicando que ele não tinha dormido ali. — E tendo um sonho estranho.

— Sonho estranho?

Ela assentiu.

— Algo sobre muitas pedras, mas não me lembro de muita coisa agora — disse ela sinceramente.

Arthur pareceu refletir por um minuto antes de falar.

— Lívia, você conhece o mar?

— Não — respondeu franzindo o cenho, se sentindo um pouco surpresa com a mudança repentina no assunto.

— Gostaria?

— É claro que sim! Mas não é como se eu tivesse permissão pra sair.

Arthur deu um sorriso nocivo que não combinava com ele.

Alguma coisa estava errada, mas a perspectiva de sair de casa era tentadora. Não suportava mais estar presa, era terrível, daria tudo para sair dali, pelo menos por alguns minutos.

E ainda mais com a oferta que Arthur estava fazendo. Algo que ela sempre imaginara como seria, que ela sempre quis conhecer.

— Bom, acho que Diana não vai sair do quarto tão cedo hoje — disse ele. E Lívia se conteve para não perguntar como ele sabia disso. — Acho que poderíamos ir e voltar sem que ela sentisse sua falta.

O rosto dela se iluminou com um sorriso.

— E o que estamos esperando?

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