8. Fantasmas do Passado (p.1)

Arthur voltou à casa de Diana no dia seguinte de manhã, dessa vez sem Chloé, nem Miguel.

Não que não tivesse gostado do dia anterior. Por mais improvável que parecesse, passar a tarde com Lívia, Chloé e Miguel havia sido agradável. Mesmo que tenha sido estanho o fato de Arthur e Lívia terem continuado fingindo estar namorando.

Seria difícil explicar suas idas frequentes à casa da feiticeira se não fosse por Lívia. A não ser que Arthur dissesse que estava namorando com Diana. O que seria ainda mais estranho, já que a situação com ela atualmente era extremamente complicada.

Não que Lívia também tivesse dado alguma opção quando o surpreendeu com um beijo assim que abriu a porta.

E hoje foi novamente ela quem o recebeu. Aparentemente, ela havia resolvido manter-se bem arrumada e maquiada, trocando apenas o vestido por uma blusa verde e jeans, e o batom vermelho por um roxo da cor de uvas maduras.

Ela o convidou para entrar e informou que Diana ainda estava dormindo.

— Eu estava tentando fazer um café — disse Lívia encaminhando-se para a cozinha seguida por Arthur. — Vi Diana fazer num tipo de máquina, mas não sei usar aquilo, então estou fervendo água pra tentar fazer café num daqueles coadores de papel da máquina de café.

Arthur riu enquanto entravam pela porta da cozinha.

— Você já conseguiu fazer café assim antes? — Ele perguntou.

Ela balançou a cabeça.

— Nunca, mas hoje estava realmente querendo um pouco de café e Diana ainda não acordou. Acho que ela estava preparando alguma coisa naquela sala de poções ontem a noite.

— Ela sempre faz coisas lá? — perguntou Arthur curioso.

— Sim — respondeu Lívia verificando a agua na chaleira. — Mas eu nunca pergunto o que ela faz especificamente.

Arthur aproximou-se do fogão e o desligou.

— Deixa que eu preparo café na cafeteira.

— Ah, cafeteira. Já li em livros, mas não relacionei o nome com a máquina de café. Que burra.

Arthur riu e começou a preparar o café, explicando para Lívia como usar a cafeteira ao mesmo tempo.

Eles arrumaram xícaras e biscoitos na dispensa de Diana para o café da manhã e sentaram-se à mesa conversando.

— Miguel é ate legal, mas pela propaganda que você e Diana fazem dos anjos eu pensei que ele fosse mais bonito — comentou Lívia assoprando o café para esfriar antes de beber e perceber que ainda estava quente demais. — Esperava que fosse desconcertantemente lindo, pra ser mais especifica. Não que ele seja feio, mas não tem exatamente uma beleza impressionante.

Arthur balançou a mão num gesto de desdém.

— Não precisa minimizar. Ele é ridículo. — Ele bebeu um gole do chá, que queimou a língua, mas ainda assim empinou o nariz e disse: — Eu sou lindo.

Lívia riu. Ela tinha uma risada bonita que de alguma forma sempre o impressionava.

— Você é muito presunçoso — apontou ela. — Me surpreende que não passe horas na frente do espelho tentando acentuar a própria beleza.

— Acusa-me de narcisismo? — ele brincou tentando parecer ofendido. — Quando já se nasce bonito, não é preciso perder horas na frente do espelho.

— De onde vem essa briga de vocês dois? — perguntou ela antes de dar uma mordida em um biscoito, desviando o assunto.

— Você não viu como ele é?

— Meio mal humorado?

— Meio? — Arthur riu. — Eu diria inteiro. Ele é assim o tempo todo. E na verdade eu nem o descreveria assim. Arrogante e preconceituoso definem melhor a personalidade dele. Não sei como Chloé o suporta.

— Não precisa exagerar. Sinceramente, ele não é tão ruim. Só parece cultivar um amor por você idêntico ao que você tem por ele.

— Eu tenho certeza disso — disse Arthur ao mesmo tempo em que Diana entrava bocejando na cozinha, ainda de camisola, exibindo mais do que Arthur estava esperando ver tão cedo. Ele desviou o olhar.

— Bom dia — disse ela e olhou para Arthur. — Você por aqui tão cedo. Caiu da cama?

— Não é tão cedo assim — respondeu ele exibindo o celular, que tinha a hora visível na tela.

Diana deu de ombros e dirigiu-se para a maquina de café, onde serviu para si mesma, fazendo também uma caixa de leite aparecer no ar e misturando na xícara. Assim como apareceu, o leite desapareceu novamente em seguida.

— Sobre o que estavam falando? — perguntou ela sentando-se em uma cadeira desocupada próxima a eles.

— Sobre como Miguel é adorável — respondeu Arthur irônico.

— Não se esqueça do que falei com você — disse Ela antes de beber da própria xícara. — Ele pode ser útil.

— Útil? — disse Lívia confusa.

Diana assentiu e uma mecha de cabelo se desprendeu de sua trança, que ela colocou atrás da orelha.

— Ele é uma pessoa muito bem informada. Além de ser filho de um dos representantes dos Anjos. É melhor ter ele por perto como aliado. Tenha sempre seus inimigos ao alcance da visão.

— Pensei que tivesse dito que Miguel não é um inimigo — disse Arthur.

— E não é — confirmou Diana recostando-se na cadeira. — Mas o pai dele é, com certeza. Morselk já foi um bom homem, e era contra caçar Marina e Alice, ao contrario dos outros Anjos, incluindo o representante dos Anjos de Terra da época. Ate que durante uma viagem com a mulher e o filho, enquanto eu tentava esconder as duas e ele tentava manter sua família longe da confusão, sua mulher foi morta, e ele voltou um ano depois só com o filho. Morselk estava completamente diferente, e havia se revoltado e se tornado um Anjo como todos os outros. A essa altura, Alice já estava morta, e Marina escondida com Bella, mas Morselk insistia que deveriam encontrar o bebê e mata-lo antes que se tornasse um problema.

— E o que causou a mudança brusca de opinião? — perguntou Lívia.

— A morte da mulher, com certeza — respondeu Diana. — Aconteceu alguma coisa que fez com que ele passasse a odiar híbridos. Tanto que quando o antigo representante dos Anjos de Terra morreu, ele foi indicado para assumir seu lugar.

— Você sempre as ajudou não é? — disse Arthur. — Ninguém nunca soube que era você quem ajudava as duas? Imagino que muita gente iria te querer morta se soubesse.

Diana balançou a cabeça.

— As poucas pessoas que sabiam estão mortas agora. — Ela suspirou. — Eu preciso contar como Alice morreu.

— Achei que não estivesse pronta pra falar sobre isso — disse Lívia.

Diana suspirou. Ela parecia cansada, como se todos os seus anos de idade a tivessem atingido naquele momento.

— Eu nunca vou estar preparada pra relembrar a morte de uma das pessoas que mais amei na vida. Mas vou enfrentar isso, por favor, apenas me ouçam.

Os dois assentiram e a escutaram com atenção enquanto Diana contava sua história.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top