7. Um Novo Aliado (p.2)

Arthur acordou com a luz do sol que entrava da janela de seu quarto. Tinha preferido voltar pra casa depois do jantar. O calor era grande e dormiu com a janela aberta, o que resultou em muita luz logo pela manhã.

Trocou-se e foi para baixo tomar café da manhã, mas ainda era cedo e não havia muita gente no refeitório. Acordar tarde parecia uma lei para a maioria dos Guardiões.

Assim que terminou, resolveu ir até o quarto da irmã, que logo abriu a porta para ele entrar.

E mal ele entrou e já foi atingido pelo forte cheiro de ervas. Era assim toda manhã, Chloé odiava café, mas adorava chás e era excelente em manipular todo tipo de ervas, tanto que ela havia dado um jeito de instalar um pequeno fogão dentro do próprio quarto, e o guarda roupas era repleto de suas ervas e temperos — enquanto as roupas ficavam em um baú no pé da cama.

Um bule com água fervendo chiava no fogão, enquanto Chloé esmagava folhas em um pilão. Estava com os cabelos amarrados e usava um lenço amarelo para segurar os fios, a roupa era apenas uma camisa grande demais que ela usava para dormir.

Arthur ia se sentar na cama, mas percebeu que ela ja estava ocupada por Miguel.

— Você aqui de novo? — perguntou Arthur, e se sentou sobre o baú de roupas.

— Certamente — ele respondeu. — Você sequestrou Chloé durante todo o fim de semana.

— Meninos — interrompeu Chloé —, ainda é de manha, não estraguem meu dia tão cedo. Alguém quer chá? Está quase pronto.

— Eu não faria uma desfeita dessas — respondeu Miguel.

— Acabei de tomar café — disse Arthur e recebeu uma careta de Chloé como resposta, enquanto ela servia o chá em uma xícara para o namorado. — Sabe o que eu reparei? — comentou Arthur.

— Ninguém quer saber — respondeu Miguel e Arthur se sentiu triunfante quando viu a irmã fazer cara feia para ele também.

— Nunca vi vocês se beijarem. — disse Arthur sem dar a mínima para o cunhado. — São um casal muito discreto.

Chloé fez uma pausa no ato de servir o próprio chá, mas Miguel tinha uma resposta na ponta da língua.

— Deve ser porque a gente não tem a obrigação de dar showzinho pra você — disse ele e bebericou o chá quente. — Você e sua feiticeira não são tão discretos, não é?

Arthur ficou um pouco desconcertado.

— O que?

— Esta todo mundo vendo, Arthur — disse Miguel e riu. — Você não sai da casa dela. Foi pra lá ontem a noite, não foi?

Chloé parecia chocada enquanto seu chá esfriava intocado.

— Esta tomando conta da minha vida agora? — perguntou Arthur tentando soar sarcástico. — Não sabia que eu te interessava tanto assim.

Miguel deu de ombros.

— Não me interessa. Apenas ouço falar. — Ele bebeu mais do chá. — Só tenho uma curiosidade.

— Qual? — perguntou Arthur enquanto o outro levantava, deixava a xicara sobre a mesa, dava um beijo no rosto de Chloé e se dirigia ate a porta.

— Se você prefere a morena ou a ruiva — respondeu e saiu pela porta sem mais nenhuma palavra.

* * *

— Diana, qual a sua pedra? — perguntou Lívia enquanto aceitava a caneca de café que a madrinha lhe oferecia.

— Minha pedra?

— Sim — anuiu Lívia e levantou o livro que Arthur tinha lhe dado, aberto na parte em que falava sobre os feiticeiros. — Aqui diz que cada feiticeiro retira energia de uma pedra, que precisa ser mantida em contato com a pele.

— De onde tirou esse livro? — perguntou ela rindo e puxando a fina corrente dourada que usava no pescoço de dentro da roupa.

— Arthur me deu.

— Aqui está — disse ela e exibiu o longo colar que tinha um pingente vermelho em forma de gota. Era uma pedra grande, do tamanho de uma colher sem o cabo. — Um rubi. Uso o tempo inteiro e como você deve ter lido, não consigo canalizar energia sem ele. Traduzindo, fico sem mágica.

Lívia assentiu.

— Aqui diz também que você pode reconhecer um feiticeiro porque os olhos são sempre da mesma cor da pedra que usam. Mas seus olhos sao castanhos.

— Na verdade não são — respondeu e fechou os olhos, quando os abriu novamente, sua iris havia mudado do castanho para o vermelho, como os olhos de um vampiro. -Só acho que olhos vermelhos chamam atenção demais. Não gosto, então uso magia pra mudar de cor. Não da pra confiar nisso pra determinar se uma pessoa é feiticeira ou não. — Diana piscou novamente e os olhos mudaram da estranha cor vermelha de volta para o castanho. — E olha só pra você, a joia que usa no pescoço é da cor exata dos seus olhos. Qualquer um poderia dizer que é uma feiticeira se apenas se baseasse nisso.

— É uma boa ideia.

— O que?

— Você poderia fingir que sua sua filha, ou sua aprendiz, sei lá.

Diana refletiu por um minuto.

— Só em caso de necessidade, minha menina, seria muito fácil a pessoa perceber que você não tem poderes. Mas se alguém descobrir sobre você, podemos dizer que você é minha filha, sim.

Lívia bebeu o resto do café e se levantou levando o livro.

— Vou estudar um pouco mais no meu quarto.

* * *

— Ai meu Deus — disse Chloé pausadamente. — Arthur, eu juro que não disse nada pra ele sobre Lívia.

Arthur continuava chocado.

— Como ele descobriu?

— A gente precisa explicar a situação pra ele.

— Nem pensar! Daqui a pouco vai ter tanta gente sabendo sobre isso que não vai ser mais um segredo.

— Arthur! Ele esta pensando que ela é só uma namorada qualquer que você tem, ele pode acabar contando pra alguém.

— Fofoqueiro — resmungou Arthur. — Tudo bem. Você sabe pra onde ele estava indo?

— Mais ou menos. Antes de você chegar ele tinha dito que só iria esperar o chá e iria sair pra correr.

Arthur ergueu as sobrancelhas.

— E a gente vai literalmente sair correndo atrás dele?

— Claro que não, Arthur. Mas ele deve voltar pra casa pra treinar, ele faz isso toda manha.

Arthur fez careta e passou a mão pelos cabelos os jogando para trás.

— Seu namorado deve ser maluco. Parece que está se preparando pra uma guerra.

— E eu acho que está, Arthur — disse Chloé arrancando a camisa pela cabeça e ficando apenas de calcinha e sutiã. Arthur desviou o olhar.

— Preferia não assistir um striptease da minha irmã.

— Estou no meu quarto — rebateu ela. — É só você olhar pro outro lado.

— Ok, então enquanto você termina de trocar de roupa eu vou buscar minha mochila e Excalibur no quarto — disse ele se levantando ainda sem olha-la.

— Você e essa espada, não sei pra que você precisa de uma arma.

Arthur ignorou o comentário.

— Já volto.

Ele correu ate o quarto e logo estava de volta com suas coisas. Chloé já estava esperando na porta do quarto e juntos desceram as escadas.

Arthur nunca tinha estado na casa de Miguel e se surpreendeu com o tamanho. Era uma verdadeira mansão. Arthur assobiou enquanto contornavam a casa indo para os fundos.

— Seja lá com que os pais dele trabalham, certamente paga bem.

Chloé olhou confusa para o irmão.

— Você não sabe de quem ele é filho? — ela perguntou e Arthur sacudiu a cabeça negando. — Miguel é o filho de Morselk.

— Morselk? O representante dos Anjos de Terra do conselho. — Arthur arqueou as sobrancelhas em surpresa.

— Conhece outra pessoa com esse nome? É ele mesmo. Miguel mora aqui com o pai, como você deve saber, Morselk perdeu a esposa durante uma viajem e nunca explicou pra ninguém o que aconteceu com ela.

— E Miguel nunca te contou o que aconteceu com a mãe.

Ela sacudiu a cabeça.

— Nunca.

Arthur viu mais a frente onde havia um largo campo de treinamento, que aparentemente pertencia a Miguel.

— Então estamos invadindo uma propriedade de um dos representantes do conselho?

— Não, estou apenas vindo ate a casa do meu namorado para fazer uma visita.

— Morselk não parece do tipo que ficaria feliz em saber que o único filho namora uma Guardiã da Fauna.

— E não sabe mesmo — admitiu Chloé. — Ele acha que somos amigos, e quanto a isso ele não se importa muito, desde que eu não fale com ele, ele simplesmente me ignora.

— Nossa, que sogro! — disse Arthur ao chegarem ao centro do campo.

— Ele é amargurado desde a morte da esposa, Arthur. Eu imagino que tenha sido algo terrível.

— Não que me interesse. Enquanto Miguel se manter longe da minha vida, pra mim a dele tanto faz.

— A recíproca é verdadeira — disse a voz de Miguel às costas deles. Arthur virou-se rapidamente para ver um Miguel suado e ofegante, e ainda assim com cem por cento da sua arrogância.

— Jura? — ironizou Arthur. — Então como sabe sobre a ruiva e sobre eu ter estado na casa de Diana ontem?

Miguel avaliou Arthur antes de responder.

— Proponho um duelo, como os antigos cavaleiros que você tanto ama.

— O que? — perguntou Arthur, sinceramente confuso, enquanto Miguel caminhava ate uma pilha de espadas e pegava uma a esmo.

— Me mostre o que sabe fazer com sua espada — desafiou ele com um sorriso endiabrado. — O duelo acaba quando um de nós for desarmado ou com um sinal de sangue.

— Isso é realmente necessário? — perguntou Chloé — A gente não veio brigar com você, Miguel.

— Agora não, Chloé, você também mentiu pra mim — respondeu Miguel sem tirar os olhos de Arthur, que permanecia imóvel.

Chloé se calou.

— Vamos lá, Arthur — encorajou o outro. — Não quero te matar, só quero um pouco de diversão.

— Você ganha diversão, mas o que eu ganho com isso? — perguntou Arthur.

— A resposta pra sua pergunta — respondeu Miguel, e abanou a espada com a mão esquerda. — Vamos lá! Eu não tenho o dia todo. Deixa de ser molenga.

Arthur assentiu hesitante e desembainhou a espada da bainha presa às costas. Tirou também a mochila jogou para o lado enquanto Miguel apenas passou a espada da mão esquerda para a direita.

— Ataque você primeiro — sugeriu Miguel.

E Arthur investiu desajeitado contra o outro, que defendeu-se com uma mão nas costas e sem dar um passo sequer. Arthur tentou novamente e Miguel girou a espada, torcendo Excalibur e o braço de Arthur junto, o que quase o fez derruba-la.

— Você é patético, Arthur — disse Miguel e atacou em direção ao braço esquerdo do outro, mas Arthur desviou sem nem saber como tinha feito aquilo.

Mas Miguel não deu tempo para pensar e investiu contra ele novamente, e dessa vez Arthur conseguiu bloqueá-lo com Excalibur. Miguel tentou girar a espada novamente, mas se atrapalhou e a ponta afiada de Excalibur tocou seu pulso somente o suficiente para abrir um fino corte, mas foi o suficiente para Arthur largar sua espada e agarrar o pulso do outro, que continuava em posição de combate.
— Desculpa! — disse Arthur
— Seu idiota! — exclamou Miguel se desvencilhando dele. — Pra que uma espada se vai joga-la no chão pra curar seu inimigo cada vez que ele se arranhar?

— Sinal de sangue, Miguel — disse Chloé, que esteve calada apenas assistindo até agora. Ela se aproximou do namorado e pegou o pulso arranhado e dessa vez ele permitiu ser curado. — Arthur venceu.

De repente, Miguel começou a rir.

— A maior vergonha da minha vida! — exclamou ele ainda rindo. — Certo então, disse que contaria como descobri e vou contar.

Arthur apanhou Excalibur do chão e a embainhou novamente.

— Estamos ouvindo — disse Arthur cruzando os braços.

— Eu vi quando você chegou com a ruiva. Saíram do lago os dois juntos, de madrugada. Eu corro de manha cedo e a tarde. Saí mais tarde hoje só por causa da sua irmã — ele afagou o braço de Chloé distraidamente. — Ontem também vi você indo sozinho ate a casa da feiticeira.

— Mas como sabe que Lívia esta lá com Diana?

— Lívia? É esse o nome dela? — Miguel riu novamente. — Digamos que eu posso ter ouvido uma ex-namorada elfa sua dizer palavras nada lisonjeiras sobre você e a filha da feiticeira.

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