6. A Biblioteca de Alexandria (p.1)

Arthur e Chloé emergiram do Nilo, o lago que passava por dentro da Biblioteca — nome dado em homenagem ao mesmo Rio Nilo que abastecia a cidade de Alexandria no Egito — e rapidamente buscaram por um banheiro para trocar as roupas molhadas.

O lugar continuava majestoso. O caminho por onde o rio passava era feito de pedra, que resistia melhor à umidade. No meio do salão onde saíram, havia uma ponte que atravessava o rio, e nas paredes de pedra haviam diversas passagens que levavam a outras partes do lugar.

A Biblioteca era a capital de Alexandria. O lugar tinha imensas proporções, que ocupavam o equivalente a uma cidade. E você poderia morar nela, se quisesse, e pagaria muito pouco. O lugar era mantido pelo dinheiro gasto dentro do próprio lugar. E tudo era vendido muito barato, pois não haviam interesses comerciais. O que você paga é apenas contribuição para manter a Biblioteca.

Ali dentro ficavam principalmente o que equivalia a escolas e hospitais. Além, é claro, da vasta coleção de livros que o lugar possuía.

Arthur e Chloé procuraram por um elevador. Devido a grandeza do lugar, a locomoção ali dentro era complicada, e por muitos anos era preciso fazer verdadeiras viagens de um lado da Biblioteca a outro. Ate que alguém teve a grande ideia de colocar elevadores mágicos no lugar. Que ao invés apenas subir e descer, poderiam transportar de uma parte à outra da academia.

Ao entrarem no elevador, Chloé selecionou no moderno painel eletrônico que iriam aos dormitórios. Lá trataram logo de reservar um quarto para passarem a noite, pelo qual pagaram um baixo custo.

Haviam pedido um quarto de casal, onde os dois poderiam ficar juntos e discutir o que quer que encontrassem em suas pesquisas. Receberam suas chaves e foram para o quarto.

O cômodo era simples, de paredes brancas, com um guarda roupas e uma grande cama, ambos feitos de madeira. Os irmãos deixaram suas mochilas e voltaram ao elevador, onde selecionaram dessa vez a opção “Biblioteca”.

— Estava com saudades daqui — comentou Chloé, enquanto esperavam que a porta do elevador se abrisse.

Arthur assentiu.

— Eu também.

A porta do elevador se abriu e do outro lado, esperando para entrar, estava um homem alto e esguio, com cabelos escuros penteados para trás. Sua pele era morena e os olhos eram o que mais chamava atenção. A íris era verde próximo à pupila e se avermelhava próximo às bordas. O rosto era uma máscara fria e vestia-se com um terno preto. As costas eretas davam-lhe uma postura de superioridade.

Arthur sabia quem ele era. Airan Dufenald, representante dos feiticeiros no Conselho.

O Conselho de Alexandria era formado por um representante de cada um dos principais povos que viviam naquelas terras, e em alguns casos, eram recebidos também representantes externos, como por exemplo as bruxas, que viviam na Ilha Nebulosa.

Arthur e Chloé saíram do elevador e Airan passou por eles para entrar como se os irmãos nem estivessem ali.

— É Airan Dufenald, não é? — perguntou Chloé, quando a porta do elevador se fechou. — O representante dos feiticeiros.

Arthur assentiu.

— O que acha que ele está fazendo aqui hoje? — ele perguntou. — Geralmente o Conselho se reúne mensalmente no dia 1º. Fora isso, só quando tem algum problema pra resolver.

Chloé deu de ombros.

— Não sei. Talvez ele tenha vindo fazer uma pesquisa, igual a gente.

Arthur não acreditava muito nisso, mas deu de ombros.

Arthur havia praticamente morado na Biblioteca dos treze aos dezenove anos, época em que estudou para se tornar Guardião da Fauna. — Normalmente era dos doze aos dezoito, mas Arthur atrasou-se um ano, pois aos doze anos foi justamente quando seus pais haviam morrido. O que significava também que ele encerraria seu serviço à Guarda aos trinta e um anos, ao invés dos trinta.

Sem contar ainda no tempo da alfabetização, quando era criança, que passava meses aqui.

E mesmo em todo o tempo em que viveu no lugar, mal via os representantes, especialmente o dos feiticeiros, que sempre foram muito reservados. A ideia de que Airan estivesse ali fazendo uma pesquisa parecia um pouco remota, mas Arthur deixou pra lá para observar a biblioteca.

O lugar continuava o mesmo desde a primeira vez que o pai o levara até ali, quando criança. Uma infinidade de estantes, que iam até o teto, cheias de livros com capas de todas as cores.

A iluminação provinha de luzes espalhadas pela sala e também de um grande vitral com a representação da Aurora. Símbolo de uma mente iluminada, trazer a luz. Logo abaixo do vitral havia a inscrição em latim que era lema da Biblioteca:

“Scientia Potentia Est” — Saber é Poder.

Essa área era o salão principal da biblioteca, mas apenas uma parcela dos livros estava ali. A biblioteca ia muito além daquela sala, tendo ao menos um exemplar de cada livro publicado em cada lugar no mundo. Incluindo muitos livros que nem mesmo poderiam ser encontrados em qualquer outro lugar, livros que desapareceram da história da humanidade, mas continuavam conservados ali.

Procurar entre todos esses livros seria cansativo e levaria uma eternidade, mas, mais uma vez, a biblioteca havia usado uma invenção dos humanos.

Arthur e Chloé foram diretamente para a sala de informática e sentaram-se os dois juntos em frente a um computador. Arthur sempre havia adorado essa coisa de estar sempre à frente do seu tempo. Desde antes da biblioteca ser movida para a ilha, a Biblioteca sempre valorizou o conhecimento, o desenvolvimento, o estudo e a sabedoria. Como no lema, saber é poder.

Chloé, que sempre foi melhor com computadores e aparelhos eletrônicos, ligou o computador e digitou uma pesquisa por “Eugène Delacroix”. Na tela foi exibido uma curta descrição do pintor, algumas obras e uma enorme lista de livros a localização deles na biblioteca. Chloé salvou a lista em um arquivo PDF e conectou o celular via USB, para o qual transferiu o arquivo.

— Pronto — disse ela exibindo a tela para Arthur. Era uma miniatura da mesma tela do computador. — Vamos lá?

Os dois foram atrás de alguns dos livros da lista, levaram cerca de uma hora pra reunir os selecionados, em seguida pegaram uma mesa na sala de leitura e passaram horas analisando as páginas.

—Isso é inútil! — disse Chloé em certo momento, fazendo outras pessoas que estavam por ali olharem na direção dos dois os censurando pelo barulho. Havia uma mulher próxima a uma janela, muito bonita, cabelos vermelhos e jeito de quem tinha algo mal cheiroso debaixo do nariz. Anjo de Fogo. Em outra parte um garoto de rosto fino e anguloso, longos cabelos azuis e orelhas pontudas, concentrado em um livro. Elfo, adivinhou Arthur. Um pouco mais distante, estava um grupo de adolescentes que já haviam esquecido de Chloé e voltado a conversar aos sussurros. Não existiam características físicas que os definisse, mas Arthur podia apostar que eram a próxima geração de Guardiões da Fauna.

— Fala baixo — sussurrou Arthur. — Não podemos conversar aqui.

Chloé suspirou e voltou a folhear um livro.

Arthur observou o grupinho, lembrando da época que ele próprio se reunia com os amigos nessa sala e conversava aos sussurros. Mal percebeu quando uma das meninas do grupo, que tinha longos cabelos loiros, ao notar que estavam sendo observados, o olhou e sorriu.

Arthur retribuiu o sorriso e algo pesado atingiu seu ombro.

— Aai! — disse esfregando o ombro. Chloé havia lhe dado um soco. — Por que fez isso?

— Para de flertar — disse Chloé, mas não parecia brava. — Anda, olha esse livro aqui.

Arthur riu e ergueu as palmas das mãos em sinal de rendição, aceitando o livro que a irmã oferecia.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top