5. Delacroix (p.3)

Diana a encarava incrédula.

— Você não se lembra do que os centauros disseram?

Lívia deu de ombros se desculpando, um pouco embaraçada.

— Era muito tarde! Eu... Dormi assim que cheguei... Não sei! Não me lembro de tudo.

Diana largou o lápis sobre o caderno que ela havia conjurado magicamente há alguns instantes. Estavam sentadas na mesa da cozinha, xícaras sujas de café ainda estavam ali sobre a mesa.

A feiticeira apoiou os cotovelos sobre a mesa e deixou a cabeça cair sobre as mãos.

— Me diga que você se lembra de pelo menos alguma coisa — suplicou entre os dedos.

— Espera... — disse Lívia e começou a refletir. — Algo de Anjos se banharem em sangue, eu ter amigos confiáveis e que um dia vou encontrar paz em Alexandria...

— Isso é um desastre! — exclamou Diana e baixou a cabeça sobre a mesa.

— Desculpa — disse Lívia, sentindo-se envergonhada. Apoiou o rosto nas mãos, desanimada. — Eu devia ter prestado mais atenção.

Diana ergueu o rosto novamente.

— Também não precisa ficar assim... — Ela disse. — Olha... pode ser que Arthur se lembre... E se não se lembrar podemos dar um jeito...

— Por que isso é tão importante? — questionou Lívia, retomando a postura.

Diana respirou fundo e recostou-se na cadeira.

— Toda essa confusão foi criada por uma profecia. Por que elas são reais. Um recado das estrelas pode nos avisar de algo terrível, se interpretado corretamente. Isso nos ajudaria muito.

Lívia assentiu.

— Então era realmente importante.

— Era. — Diana passou uma das mãos pelo cabelo. — Mas não se preocupe, vai ficar tudo bem.

Antes que Lívia pudesse responder, um som de batidas ecoou pela casa. Diana apenas estalou os dedos e logo Arthur e Chloé entraram na cozinha.

Arthur deu um beijo em sua cabeça e em seguida sentou se em uma cadeira enquanto Chloé se sentava em outra.

— Algum dos dois quer café? Chá? — ofereceu Diana.

— Não, obrigado — respondeu Arthur.

— Detesto café — disse Chloé. — e duvido que você possa fazer um chá que preste. Então não, obrigada.

Diana revirou os olhos.

— Tudo bem — disse e virou se para a direita, olhando para Arthur. — Lívia não se lembra da profecia. Por favor, me diga que você se lembra.

Arthur balançou a cabeça.

— Não me lembro de nada.

Diana afundou a cabeça nas mãos novamente, decepcionada.

Arthur deu um sorrisinho torto com expressão de satisfação e Lívia lembrou-se de quando o centauro avisou para que ele tomasse cuidado com a feiticeira. E de como ele havia ficado nervoso quando perguntara se ele era apaixonado por ela.

Chloé franziu o cenho.

— E você está feliz? — ela perguntou com o cenho franzido.

— Por que não deveria estar feliz? Não tem problema eu ter esquecido. Não tem problema Lívia ter esquecido também.

Diana levantou a cabeça.

— Como não tem problema? É claro que tem problema! Isso poderia nos ajudar, e não podemos simplesmente procurar os centauros e pedir pra repetir o recado...

— Nem precisamos — disse Arthur soando entretido. Tirou o celular do bolso e o apresentou com um floreio. — Conheçam o celular: Excelente para comunicação e também para gravação de voz dos centauros.

— Eu não acredito! — exclamou Diana aliviada. — Por Merlin!

— Genial! — disse Chloé. — Vamos ouvir então.

Lívia suspirou e relaxou enquanto a culpa por ter esquecido o que o centauro disse se atenuava.

Arthur mexeu em seu celular e logo o aparelho começou tocar. 

"Encontraste bons amigos, Marina Ignis
E neles pode confiar.
Todos nós um dia seremos traídos
E quem não for, trairá.
Muitos são, os que desejam tirar-lhe a vida.
E a eles eu não posso nomear.
Mas digo-lhe que são Anjos Caídos.
Que no Delacroix estão a se banhar.
És filha da agua
E também filha do fogo.
Nossa profecia se refere.
A você e a qualquer outro.
Um dia há de ter paz."
"Dá pra ser mais vago" Era a voz de Arthur.
"Cuidado com a língua, Guardião. Jovem Híbrida, estas são suas respostas, mas Elas te mandaram mais..."

Arthur interrompeu a reprodução e Lívia sentiu-se grata por isso.

— Anjos a se banhar no Delacroix? — questionou Diana. — Isso não faz sentindo.

— Delacroix — refletiu Chloé. — Não é estranho.

— Poderia ser um rio — sugeriu Lívia.

— A referência é essa — disse Arthur —, como se fosse um rio, mas Delacroix é o nome de um pintor famoso.

— Sim. Eugène Delacroix — confirmou Diana. — O mais importante representante do Romantismo Francês. Fez pinturas belíssimas, é claro. Tenho uma réplica no meu estúdio de arte.

Diana olhou para Arthur e deu um pequeno sorriso. Rápido, mas Lívia percebeu. Não sabia se Arthur havia percebido, mas se viu, ele ignorou.

— Mas Delacroix tem que ser um rio — disse Chloé. — Não dá pra se banhar num pintor.

Diana revirou os olhos de impaciência.

— Pode ser uma metáfora — disse a feiticeira. — Certamente é algum tipo de enigma. Arthur, pode reproduzir de novo, pra eu copiar?

Arthur assentiu e reproduziu o áudio novamente, e pelo menos outras três vezes até que Diana copiasse.

— Certo — disse ela batendo com a ponta do lápis no caderno. — Vejamos. "Encontraste bons amigos, Marina Ignis e neles pode confiar". Acho que você concorda que essa parte claramente se refere a Arthur e Chloé, certo Lívia?

Lívia assentiu, fazendo com que Chloé sorrisse embaraçada e Arthur corasse levemente.

— Próxima parte — continuou Diana. — "Todos nós um dia seremos traídos e quem não for, trairá" — ela pareceu confusa. — Que pergunta você fez pra receber essa resposta?

Lívia sentiu o sangue subir às bochechas, mas Arthur respondeu por ela.

— Ela perguntou se seria traída. Mas foi uma pergunta vaga, então recebeu uma resposta ainda mais vaga.

— Entendo... — disse Diana um pouco desanimada. — Imagino que estivesse pensando em mim quando fez essa pergunta. O que é justo, já que certamente ainda não dei motivos pra merecer sua confiança, mas espero que com o tempo passe a ter fé em mim...

— Não pode cobrar isso dela. — disse Chloé — Nem eu confio em você...

— Chloé... — alertou Arthur. — Sem estresse.

— Deixa — falou Diana. — Ela tem razão, mas como eu disse, eu sei que ainda não dei motivos pra ter confiança em mim.

— Pra mim já deu motivos suficientes — disse Arthur, mas não soava muito convicto das próprias palavras.

Chloé revirou os olhos.

— Certamente, mas vamos deixar isso pra lá por enquanto. Prossiga, feiticeira.

Diana olhou feio antes de continuar.

— "Muitos são, os que desejam tirar-lhe a vida, e a eles eu não posso nomear, mas digo-lhe que são Anjos Caídos, que no Delacroix estão a se banhar." Acho que todos concordamos que essa é a parte mais complicada e provavelmente a mais importante também, certo?

Os outros assentiram em concordância antes de Diana continuar.

— Vamos ter que fazer muitas pesquisas sobre esse trecho. Próximo: "És filha da agua e também filha do fogo. Nossa profecia se refere a você e a qualquer outro."  Nenhuma grande informação nisso, apenas a confirmação de que a profecia pode se referir a Lívia. "Um dia há de ter paz." Qual foi a pergunta?

— Se um dia eu iria ter paz — respondeu Lívia.

— Novamente, uma pergunta vaga que recebeu uma resposta ainda mais vaga. Ter paz pode significar tranquilidade, mas também pode significar morte.

— Diana! — censurou Arthur.

— Ela está certa — confirmou Chloé. — Precisamos ser realistas e pensar em todas as possibilidades.

— Agora você concorda com ela? — resmungou Arthur.

— Odeio concordar, mas a feiticeira está certa.

— Obrigada, eu acho — disse Diana.

— Poderia não chama-la de feiticeira? — pediu Lívia a Chloé. Todos as olharam surpresos. Lívia corou levemente e falou baixo em seguida: — O nome dela é Diana.

— Não precisa disso, Lívia, mas obrigada — disse Diana.

Chloé suspirou.

— Está certo — disse ela. — Somos um time agora. Vou chamar a feiticeira pelo nome. — Ela virou-se para Diana e ergueu a mão direita. — Trégua, Diana Branwen.

Diana repetiu o gesto.

— Trégua, Chloé Não-sei-seu-sobrenome.

Chloé suspirou e balançou a cabeça.

— Meu sobrenome é Chloé, meu nome é Jade Chloé — informou Ela.

— Você usa seu sobrenome como nome? — perguntou Diana.

— Algum problema? — perguntou Chloé.

— E então, o que nós fazemos agora? — perguntou Lívia para interromper a discussão.

— Você fica com Diana — respondeu Arthur. — E nós — ele gesticulou com o dedo indicador apontando para si mesmo e para Chloé. — vamos à Biblioteca fazer pesquisas sobre Eugène Delacroix.

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