5. Delacroix (p.2)

Lívia acordou, tomou um banho e vestiu-se antes de sair do quarto. Apesar da frequente temperatura amena dentro da casa da feiticeira — que Lívia desconfiava que Diana mantivesse a temperatura usando magia — Via-se pelas janelas que o sol estava forte do lado de fora, e provavelmente fazia calor. Baseando-se nisso, Lívia optou por usar um vestido azul das roupas que Diana lhe dera. Apesar de desconfiar que não sairia da casa da feiticeira naquele dia, e nem tão cedo.

Ao chegar na sala, encontrou Diana dormindo, caída no sofá em uma posição certamente desconfortável. Lívia ajoelhou-se lentamente perto dela e a observou de perto.

O cabelo estava um pouco arrepiado, devido ao atrito com o sofá. Ele era ondulado e castanho escuro, que clareava sutilmente ao longo do comprimento. A pele clara destacava os cílios escuros, longos e espessos assim como suas sobrancelhas arqueadas. Os lábios eram grandes — que estavam entreabertos e com seu tradicional batom escarlate, que no momento estava um pouco borrado no canto. — e seu queixo era levemente pontudo. No pescoço, uma fina corrente dourada pendia meio de lado, presa dentro da roupa.

Ela era bonita, pensou Lívia, mas você só conseguia ver a beleza nela quando parava para observar. Apesar do contraste entre a pele e do cabelo, o resto era suave: maçãs do rosto planas, um nariz pequeno...

— AAH! — gritou Diana quando abriu os olhos e deu de cara com Lívia a um palmo de seu rosto.

Assustando-se também — como se tivesse sido flagrada fazendo algo errado — Lívia saltou para trás, caindo com a bunda no chão e batendo as costas na mesa de centro. Ela gemeu com a dor, que pareceu enviar um choque pelo seu corpo.

Diana sentou-se alarmada. Os olhos levemente arregalados. Por um instante, Lívia pensou tê-los visto vermelhos, mas não. Continuavam castanhos.

— Se machucou? — Perguntou Diana preocupada.

Lívia sacudiu a cabeça.

— Só uma batida, já está passando a dor.

Diana passou os dedos pelo cabelo, tirando os do rosto e esfregou os olhos, bocejando.

— Você me assustou — disse a feiticeira. — O que estava fazendo?

— Você também me assustou — retrucou Lívia se levantando do chão, as costas ainda levemente doloridas. — Eu ia te acordar, você dormiu no sofá.

Só agora Diana pareceu constatar que realmente havia dormido ali.

— Oh... — Ela se embaraçou um pouco e passou a mão direita sobre a testa, fechando os olhos. — Eu hum... Estava bastante cansada. Muito cansada... Devo ter... hum... pego no sono aqui mesmo, nem percebi.

— Onde Arthur está?

Diana suspirou.

— Ele foi pra casa.

Lívia arqueou as sobrancelhas.

— Pensei que ele dormiria aqui.

— Eu também — disse Diana e pôs a mão sobre os joelhos. — Mas ele foi pra casa. — Ela deu de ombros. — Talvez quisesse ver a irmã.

— Tudo bem. E então, será que poderíamos tomar café, feiticeira?

Diana fez uma careta, mas sorriu.

— Feiticeira? Preferia que não me chamasse assim.

— Por que não? — Lívia perguntou, sentando-se no sofá.

Ela deu de ombros.

— Eu sei que é exatamente o que eu sou, mas as pessoas costumam me chamar assim com a intenção de ofender, como se ser uma feiticeira me tornasse inferior. Me chamam de feiticeira com um sentido pejorativo. — Ela deu um sorriso torto. Os ombros estavam caídos, o que indicava uma certa tristeza. — Sei que me chamar de Madrinha certamente seria estranho, especialmente considerando que nos conhecemos a dois dias, mas preferia que me chamasse ao menos de Diana.

Lívia assentiu.

— Diana, a feiticeira que é minha madrinha.

Diana inspirou, como se tomasse coragem para falar em seguida:

— Posso te dar um abraço, Marina, minha afilhada?

Lívia fez uma careta.

— Desde que me chame de Lívia e me dê café da manhã, você pode.

* * *

— Arthur?

Ele acordou com a voz da irmã o chamando na porta. Levantou-se sonolento e destrancou a porta esfregando os olhos.

— Bom dia pra você também — disse Chloé. Os cachos loiros estavam presos e ela apoiava a mão na parede. Vestia uma camisa roxa estampada com um martelo. Ela o avaliou dos pés à cabeça. — Pensei que ia para a casa de Diana.

— Que horas são?

Ela tirou o celular do bolso da bermuda.

— Nove e cinquenta e quatro.

Arthur ergueu as sobrancelhas.

— Dormi tanto assim?

— Aparentemente, sim — respondeu Chloé passando por Arthur e entrando no quarto. Arthur a seguiu para dentro, fechando a porta atrás de si. Chloé empurrou com o pé uma pequena pilha de roupas sujas que começava a se acumular ao pé da cama e se sentou. — Arrumar o quarto, jamais, não é mesmo?

Arthur deu de ombros e bocejou.

— Tanto faz — respondeu, abrindo o guarda roupa para procurar roupas antes de ir tomar banho.

— Você vai pra sair hoje? — perguntou Chloé, apoiando as mãos no colchão e se inclinando para trás.

— Não estava pensando em viajar, por causa de Lívia, mas se você vier comigo, eu vou.

Era sábado e Arthur sempre gostou de ir para lugares que não fossem Alexandria nos fins de semana e um dia uma outra guardiã da fauna havia o chamado pra dividir um apartamento no Brooklyn. Ficava em Greenpoint, não era muito grande, mas o suficiente pra passar os fins de semana. A guardiã com quem dividia se chamava Larissa, e ela não gostava de morar em Alexandria, por isso ia para lá. Mas pagava aluguel todos os meses, mesmo que estivesse lá apenas em meses alternados. De alguma forma Larissa soube que Arthur passava os fins de semana fora e ofereceu a ele o apartamento nos meses em que ela estivesse trabalhando, contanto que ele pagasse o aluguel dos meses dele. Arthur concordou imediatamente e já fazia um ano que ele ia pra Nova York. Geralmente sozinho, Chloé não gostava muito de sair com ele.

Como o esperado, a irmã balançou a cabeça negativamente.

— Acho melhor não, desconfio que vamos ter muito trabalho com os enigmas dos centauros.

Arthur suspirou e foi tomar seu banho.

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