4. Escrito nas Estrelas (p.1)

Lívia olhou para Chloé com os olhos arregalados. Ela havia se recusado a contar o motivo para estar tão irritada, apenas a arrastou por um longo caminho até a casa da tal feiticeira. Lívia jamais imaginaria que Chloé achasse que Diana fosse sua mãe.

Ela a observava. Não achava que parecia a sua mãe, mas certamente era a moça que a visitou quando criança. Apenas com cabelos mais longos do que naquela época.

— Você é mãe dela? — perguntou Arthur, buscando apoio no sofá a suas costas e se escorando nele.

— Não seja estúpida, garota, não sou a mãe dela — falou a feiticeira ignorando Arthur, e Lívia suspirou de alívio. — Mas em uma coisa você está certa. Ela é híbrida.

— Como você sabe? — Arthur perguntou.

— Que eu não sou mãe dela? — perguntou Diana ironicamente. — Acredite, eu sei.

— Não isso — falou Arthur revirando os olhos. — Quero dizer, sobre ser híbrida.

— Espera — disse Lívia, falando pela primeira vez desde que chegou a casa da feiticeira. — O que significa essa coisa de eu ser híbrida?

— Eu acho melhor dormirmos e ter essa conversa amanhã, que tal? — sugeriu Diana.

— Quero discutir isso agora! — protestou Chloé.

— E eu quero discutir amanhã. Temos um impasse. Quando um não quer, dois não brigam — respondeu a feiticeira com desdém. — Vocês podem dormir aqui, já está tarde. Vamos, eu mostro seus quartos.

Lívia olhou para Chloé, que apenas assentiu, então as duas foram levadas pela feiticeira até dois quartos, um ao lado do outro e deixadas sozinhas lá.

O quarto de Lívia era grande, mas apenas com uma cama e um guarda roupa, sem qualquer objeto de decoração. Um interruptor perto da porta permitiu que ela apagasse a luz e se deitasse na cama, olhando para o teto no escuro até que o sono a levasse.

Mas não demorou muito até que acordasse espantada, sendo sacudida pelos ombros por Chloé.

— O que...

— Shiiiii... — Chloé sibilou com um dedo em frente aos lábios. — Precisamos conversar — falou baixo. — Acho que te devo uma explicação do que aconteceu.

Lívia ergueu o corpo e encostou-se na cabeceira, dando espaço para Chloé se sentar.

— Você acha que ela é minha mãe? — perguntou Lívia, mantendo a voz baixa.

Chloé deu de ombros.

— Sinceramente, eu não sei. Não confio nela. Teremos que esperar ate amanhã pra saber o que ela vai dizer, mas eu acredito em uma coisa que ela disse.

— No que?

— Sobre você ser híbrida. Faz todo o sentido.

— O que significa?

— Cruzamento de duas espécies. Você deve ser parte Anjo de Água, e parte de outra coisa. Talvez Diana saiba.

— Mas por que isso faz sentido?

Chloé suspirou e fez uma careta.

— A maioria dos híbridos não é bem vinda em Alexandria, Lívia.

* * *

— Venha, vamos pra cama? — falou Diana, ao voltar para a sala, puxando suavemente a mão de Arthur, que continuava recostado no sofá, sem reação.

Ele a olhou inexpressivo.

— Como assim?

Diana revirou os olhos.

— Cama, Arthur. Dormir.

— Onde eu vou dormir? — Perguntou meio apatetado.

— Comigo, venha.

Arthur aceitou ser guiado até o quarto da feiticeira, e deitou se sobre a cama com ela, um pouco inconsciente dos próprios movimentos.

— Você está bem? — perguntou Diana preocupada. Ela estava deitada de lado, olhando para Arthur enquanto ele apenas encarava o teto.

— Você é mãe dela?

Diana apoiou o cotovelo na cama e segurou a cabeça com a mão.

— Já disse que não. Não sou a mãe dela.

— Então como você a conhece?

Diana suspirou.

— Eu nunca contei isso pra ninguém. E queria falar com você primeiro. Por isso mandei que elas fossem dormir.

— Confia em mim? — perguntou Arthur, virando-se para ela.

Diana assentiu.

— Então me conte o que sabe sobre Lívia.

— Contarei — disse ela, deitando-se de barriga pra cima.

* * *

Lívia é Chloé estavam sentadas lado a lado no sofá. Era de manhã e Diana pediu que a esperassem ali. Ninguém havia visto Arthur desde que acordaram e quando Chloé questionou a Diana sobre onde estava seu irmão, ela apenas respondeu que havia saído.

Lívia observou que Diana andava de um cômodo a outro da casa sem parar, mal olhava para as meninas na sala.

Chloé suspirou ao seu lado e enterrou o rosto nas mãos.

— Ela já está me irritando — disse Chloé entre os dedos.

Lívia não disse nada, apenas mordeu o lábio e entrelaçou os dedos de uma mão na outra. Sentia-se nervosa, alguma coisa lhe dizia que todo esse suspense não deveria ser pra uma boa notícia.

Chloé também havia explicado um pouco sobre os híbridos para ela na noite anterior.

Os híbridos eram repudiados e não conseguiam ter uma vida em Alexandria. Muitos eram mortos por terem "sangue sujo". Alguns poucos eram aceitos, mas só podiam trabalhar em cargos que ninguém mais queria. Lívia estava preocupada com o que iria acontecer com ela mesma dali pra frente.

A porta da frente se abriu e Arthur entrou. Trazia sua mochila e havia trocado de roupas. O cabelo estava úmido, o que significava que ele devia ter acabado de tomar banho.

— Onde está Diana? — perguntou Arthur.

— Aqui — respondeu a feiticeira, entrando na sala. — Só estava esperando por você.

Arthur assentiu e sentou-se também no sofá, tirando a mochila das costas e pondo sobre o colo.

— Hoje a meia-noite — informou ele à Diana, que apenas assentiu, deixando Lívia sem entender.

— Certo — disse ela e conjurou uma cadeira na frente dos três, onde sentou-se elegantemente. — Deixem-me falar de forma continua, não me interrompam, guardem as perguntas para o final, está bem?

Lívia e Chloé assentiram, Arthur apenas apoiou o braço nas costas do sofá.

Diana respirou fundo.

— Lívia, pra você que não sabe, nós acreditamos em profecias e no que dizem as estrelas. Nossa cultura é fortemente influenciada pelos centauros, que são quem leem e interpretam o céu. Até mesmo nossos nomes são escolhidos por eles.

"Mas os centauros não são os únicos a poder criar profecias. Além deles, também existe um grupo chamado As Profetisas. Bruxas e Bruxos que se dedicam a arte da predição. Vivem em um lugar chamado Ilha Nebulosa. Não gostam de centauros, dizem que essa história de escrito nas estrelas é baboseira e se recusam a usar o nome que as estrelas lhe dão. Mas certa vez, há cento e quarenta e três anos, tanto os centauros quanto as Profetisas trouxeram ao Conselho uma profecia com as mesmas exatas palavras: O filho do fogo e da água vai ser catalisador de uma revolução.

"Isso foi inédito e iniciou um debate terrível: O que fazer com os híbridos de fogo e água? Não é difícil de adivinhar. Eles foram caçados e mortos. Iniciou-se uma guerra, todos os híbridos contra os anjos, que eram quem mais queriam que a profecia se cumprisse.

"Os híbridos estavam em menor número, mas receberam apoio de outros povos que já estavam insatisfeitos com os anjos. Foi terrível, mas não posso dizer muito mais que isso, pois fui embora. Não iria tomar parte na guerra, nenhum feiticeiro tomou. Nos não costumamos participar desse tipo de coisa, escolher lados.

"Passei quinze anos em Londres, apenas ouvindo boatos a respeito do que acontecia. Quando soube do fim da guerra, eu voltei. Sempre adorei Alexandria, apesar de tudo. Ao chegar aqui, me coloquei a par dos recentes acontecimentos. Haviam sido decretado que os híbridos deveriam deixar Alexandria, os únicos permitidos seriam os que fossem meio anjos e meio silfo, ondina, salamandra ou gnomo.

"Nem todo mundo estava feliz com isso, e vez ou outra eles voltavam a brigar. Houveram guerras, revoltas e inúmeros debates, e sempre que as coisas começavam a ficar complicadas, eu viajava até tudo voltar ao normal. No final, a profecia estava fazendo o prometido: transformando de pouco a pouco o governo e as leis em Alexandria, e eles não estavam vendo isso. A profecia não dizia que o filho do fogo e da água iria causar uma revolução. A profecia dizia que o filho do fogo e da água iria apenas acelerar uma revolução que era inevitável.

"Pois bem, quase cem anos se passaram até que conheci uma garotinha muito esperta. Nunca me dei bem com anjos, mas ela era apenas uma criança. Tinha só dez anos, mas era extremamente inteligente e adorava conversar comigo. Os pais dela também não eram os piores anjos que conheci. Tinham a mente mais aberta do que os outros, e sua filha herdou isso também. Seu nome era Alice, um Anjo de Agua, e como todos os Anjos, ela era absolutamente linda quando criança, e ficou ainda mais quando cresceu. Tinha cabelos castanhos escuros como ébano, e olhos profundamente azuis, assim como você, Lívia. Ela se tornou minha amiga, uma amiga de verdade, que eu amava mais do que tudo. Sabia que um dia a perderia, como sempre acontece quando você ama a um mortal, mas ainda assim, foi a melhor amiga que eu tive na vida.

Um dia ela arrumou um namorado, que eu nunca apoiei. Como já devem adivinhar, um anjo de fogo. Mas os dois se amavam, e por isso seguiam com o namoro, mesmo que escondido. Ele a fazia feliz, como eu poderia ir contra isso?

"Um dia ela me procurou. Estava radiante e não se continha de felicidade quando me contou que estava grávida. Surtei de preocupação, tentava protegê-la a todo custo e ela só me dizia que eu não precisava me preocupar. Meses depois, o bebê nasceu. Era uma menina. Ruiva, como o pai, e com os olhos azuis da cor do mar, como a mãe. Foi levada aos Centauros, que lhe disseram seu nome. Marina Ignis, parecia não haver um nome mais adequado.

"Alice sempre me surpreendeu, com suas atitudes e suas ideias criativas, capazes de resolver qualquer problema, mas nunca me surpreendi tanto quanto quando ela me convidou pra ser madrinha de seu bebê.

"Imagine só, uma feiticeira, quem iria querer alguém como eu como madrinha de uma criança? Mas ela quis. Eu hesitei um pouco, de início, mas logo me apeguei a pequena Marina no tempo em que tivemos que viver as três juntas, escondidas.

"De alguma forma, eu não sabia como, começou a correr o boato sobre uma criança que se encaixava na profecia. Logo, estavam todos atrás de nós e da nossa pequena Marina. E eu fiz tudo o que pude pra proteger minha afilhada."

Enquanto contava sua história, Diana parecia desconcertada e tinha um semblante de tristeza. Apertava os nós dos dedos e evitava olhar para os outros. Ainda assim ela prosseguiu.

— Mas não consegui proteger a Alice... Um homem... — ela fez uma pequena pausa e suspirou — muito ruim, ele era muito ruim. Ele a matou. Então eu peguei o bebê e levei para Belinda Milicent — Lívia respirou fundo com a citação do nome de sua falecida tia —, uma humana que eu tinha certeza que cuidaria e protegeria Marina. Escolhemos um novo nome pra ela, e eu arrumei um lugar para as duas ficarem. Um lugar fortemente protegido por magia, que manteve minha Marina viva por todos esses anos.

Diana olhou diretamente nos olhos de Lívia, que estava atônita, e tentou dar um sorriso encorajador.

— Minha pequena.

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