3. Memórias de Papel (p.3)

A feiticeira lhe entregou uma taça de vinho, que ele olhou desconfiado. Diana sentou-se ao seu lado no sofá, bebendo um gole da própria taça.

— Tem algum tipo de poção misturada? — perguntou Arthur.

Diana riu maliciosa.

— Quem pode saber?

— Diana...

Ela revirou os olhos.

— Não tem nada dessa vez, apenas vinho. — Diana puxou o rosto de Arthur delicadamente. — Quando vier até mim, vai ser por vontade própria.

Ele sorriu e se desvencilhou das mãos dela.

— E se eu nunca for até você?

— Você vai vir — ela disse, e deu de ombros. — Acredite em mim, eu sei que vai.

Nesse momento, o celular de Arthur começou a tocar em seu bolso. Ele o pegou e a tela mostrava que era sua irmã quem ligava. Olhou para Diana, e ela balançou a cabeça negativamente.

— Sem celular. Hoje você é exclusivamente meu — disse ela, e bebeu um pouco do vinho vagarosamente.

— Mas é minha irmã, pode ter acontecido algo com Lívia...

— Poderia ser o Papa. Não atenda. É uma ordem.

Contrariado, Arthur rejeitou a chamada e largou o aparelho sobre o sofá. Ele bebeu da taça que tinha na mão e não percebeu quando Diana fez surgir um livro nas próprias mãos.

— Pois bem, enquanto cavalgavam juntos pela floresta, Merlin disse para o Rei — leu ela. — "Senhor, o que mais gostaria de possuir, Excalibur ou a bainha que a protege?" Ao que o Rei Arthur respondeu...

— "Preferiria dez mil vezes possuir Excalibur do que sua bainha." — completou Arthur, que conhecia o livro de cor.

Diana sorriu e prosseguiu a leitura.

— "Nisso se engana, meu senhor" disse Merlin ", pois digo-lhe que, embora Excalibur seja tão poderosa que pode partir ao meio tanto uma pena quanto uma barra de ferro, a sua bainha é de tal tipo que aquele que a usar jamais será ferido em batalha, e tampouco perderá uma única gota de sangue. Como prova disso pode recordar-se que, nessa luta com o Rei Pellinore, o senhor não sofreu uma única ferida, nem perdeu sangue algum". Então o Rei Arthur olhou muito contrariado para seu companheiro e disse "Ora, Merlin, afirmo que agora tiraste de mim toda a glória da luta que acabei de travar. Pois que valor pode ter um cavaleiro que combate o inimigo por meio de encantos como esse de que me falas? Isto me faz querer levar esta gloriosa espada de volta àquele lago mágico e jogá-la novamente lá, de onde veio, pois acredito que um cavaleiro deve lutar com sua própria força, e não com a ajuda de magia". "Meu Senhor" disse Merlin ", com certeza tem toda razão em pensar assim. Porém deve ter em mente que não é um cavaleiro andante qualquer, mas sim um Rei, e sua vida não lhe pertence, mas sim ao seu povo. Portanto não tem o direito de colocá-la em perigo, mas deve fazer tudo o que estiver em seu poder para preservá-la. Assim deve ficar com essa espada para que lhe proteja a vida". O Rei Arthur meditou sobre essas palavras por um longo tempo em silêncio e, quando falou, disse o seguinte "Merlin, estás certo no que dizes e, pelo bem de meu povo, guardarei tanto Excalibur, para com ela lutar, quanto sua bainha, para em nome do meu povo proteger minha vida. No entanto, nunca a usarei novamente, a não ser em grandes batalhas". E o Rei Arthur foi fiel ao que disse, pois dali por diante só lutou por diversão com a lança e a cavalo.

— Porque está lendo pra mim? — perguntou Arthur, assim que ela terminou.

— Apenas relembrando essa passagem do livro, mesmo tendo certeza de que você conhece.

Arthur assentiu e nesse instante seu celular começou a tocar novamente. Sabendo que deveria ser algo importante, ele atendeu.

— Ate que enfim! — exclamou Chloé com um tom de urgência do outro lado da linha. — Te liguei um milhão de vezes, por que não me atendeu? Deixa pra lá... Arthur, eu descobri uma...

Mas Arthur não soube o que ela havia descoberto, pois seu celular desapareceu. Levantou os olhos para ver uma Diana enraivecida.

— Eu disse pra não atender — falou ela, pousando a taça de vinho sobre a mesinha de centro.

— E ela tinha algo importante pra me dizer — retrucou Arthur irritado.

— Tinha? Que pena! — disse cheia de ironia e debruçou-se sobre ele, o empurrando de costas no sofá fazendo com que ele deixasse cair a própria taça no chão, que se estilhaçou e espalhou vinho pra todos os lados. — Hoje você faz parte do meu joguinho, vai ter que seguir as regras.

Diana começou mordendo seu lábio inferior, depois beijando sua bochecha, indo em direção ao pescoço, onde mordeu novamente e seguiu beijando até a altura da clavícula. Arthur deixou escapar um suspiro e Diana sentou-se, ainda sobre ele, e o olhou, rindo.

— Você gosta, não é? — perguntou a feiticeira, parecendo satisfeita.

— Sim eu, eu não... gosto — respondeu confuso e abanou a cabeça, tentando encontrar um foco para os próprios pensamentos. — Você disse que não ia fazer isso.

— Sim, eu disse — confirmou, voltando a deitar-se sobre ele, de um jeito que lembrava um gato, e segurando seu rosto firmemente com a mão -, mas eu também disse pra não atender o celular e você me desobedeceu.

Ela o beijou suavemente de início e então aprofundou o beijo. Arthur sentiu vontade de puxá-la ainda mais perto e a segurou pela cintura e inverteu as posições, sem se desvencilhar do beijo. Agora era ela quem estava de costas no sofá enquanto ele pressionava o próprio corpo contra o de Diana, com uma espécie de urgência.

Arthur imitou a feiticeira, mordendo seu lábio e então a beijando até seu pescoço até que sentiu a risada de Diana em sua nuca. Isso o trouxe de volta a realidade. Ela estava brincando com ele e conseguindo o que queria.

Arthur afastou-se subitamente, indo parar na ponta do sofá.

Diana sentou-se também, ainda rindo e limpando o batom borrado com um lenço que Arthur não fazia ideia de onde tinha vindo. Os cabelos estavam desarrumados e o vestido amarrotado.

— Porque parou? — perguntou ela rindo. — Agora que estava começando a ficar divertido.

— Porque está fazendo isso? — perguntou Arthur e enterrou o rosto nas mãos.

Ele não recebeu resposta e então levantou o rosto para ver Diana de pé na sua frente oferecendo a mão para ele. Ele pegou em sua mão e foi puxado do sofá. Sem uma palavra, a feiticeira o guiou até um quarto escuro, ainda o segurando pela mão. Quando Diana estalou os dedos, o lugar foi iluminado por uma luz tênue.

— Algumas coisas aqui são sensíveis à luz — explicou Diana.

Apesar da luminosidade precária, ele conseguiu ver caldeirões espalhados por todo o lugar, fervendo. Uma bancada repleta de frascos de diferentes tamanhos e formatos, com conteúdos estranhos. Uma seção de facas era pendurada na parede, bem próximo uma quantidade de utensílios que Arthur jamais havia visto, e que não tinha ideia de pra que serviam. Prateleiras cheias do que Arthur deduziu que fossem ingredientes para poções. E mais e mais coisas espalhadas por todos os cantos.

— Sala de poções? — Perguntou Arthur.

— Sala de Magia é um nome mais adequado — corrigiu a feiticeira, e sorriu, caminhando suavemente pela sala, parando próxima a uma mesa coberta por um tecido de cor clara. — Maravilhosa, não acha?

— Não faz muito meu estilo — disse Arthur.

— E isso? — perguntou puxando o tecido da mesa e mostrando o que havia por baixo. — Faz seu estilo?

Sobre a mesa estava a lâmina dourada, que Arthur havia trazido para a feiticeira um mês antes. Agora com um rubi no punho e a inscrição "Excalibur". Ao lado dela, uma bainha, mas não a original de sua espada, mas uma outra, mais bonita inclusive, mais bonita do que a espada até.

— Espero que não se importe — disse Diana. — Eu tinha essa bainha e achei que você fosse gostar. Adaptei também, pra prender nas costas ao invés da cintura. Você gostou?

— Lógico que sim — confirmou Arthur, encantado.

Ele iria pegar a espada na mão para examinar quando ouviu-se o barulho amplificado de batidas insistentes na porta ecoar nas paredes. Diana apressou-se para fora do quarto, e Arthur a seguiu, mas a esperou na sala, enquanto ela atendia a porta.

Em poucos instantes, Chloé invadia a casa, e para o desespero de Arthur, acompanhada por Lívia.

— Onde está meu irmão? — Exigiu Chloé irritada e então o percebeu observando a cena, atônito — Ah... Você está aí. Por que não atende o telefone? Te liguei um milhão de vezes e na única vez em que me atendeu, você desligou na minha cara.

— Eu não deixei ele atender — intrometeu-se Diana — O que estão fazendo na minha casa?

Arthur olhou para Lívia. Ela encarava Diana de forma fixa enquanto a feiticeira parecia fingir que nem via a garota.

— Ah, que bom que você perguntou — respondeu Chloé sarcasticamente. — Hoje eu descobri uma coisa que achei uma coincidência incrível. Imagine você, que Lívia, quando criança, foi visitada por uma moça chamada Louise que conseguia manipular água! — Chloé relatava gesticulando, tentando irritar Diana. Mas não conseguia, Diana a olhava com a mesma indiferença de sempre. — Logo imaginei que fosse um anjo de água e que deveria ser mãe dela ou ao menos algum parente. Visitei meus pais e aproveitei pra perguntar se eles já conheceram algum anjo de água com o nome Louise. — Ela se virou para o irmão. — Consegue adivinhar o que eles disseram, Arthur?

Arthur balançou a cabeça, não estava entendendo metade do que Chloé dizia. Olhou para Lívia, que continuava olhando fixamente para Diana.

— Minha mãe me disse que conheceu uma feiticeira, há muitos anos, que era amiga do seu pai, que se chamava Louise Agnes — falou Chloé, ainda direcionada a Arthur. — Logo imaginei que um feiticeiro conseguiria facilmente manipular água para impressionar uma criança. Sendo assim, imaginei que a tal Louise amiga do seu pai deveria ser a mesma que visitou Lívia quando criança. Então perguntei pra minha mãe se ela sabia o que havia acontecido com Louise e sabe o que ela me disse? — perguntou Chloé e virou se de volta para Diana. — Ela me disse que ainda mora em Alexandria, mas que mudou de nome, agora se chama Diana Branwen. Você é a mãe dela, não é? Teve um filho com um anjo de água e, sendo assim, Lívia é híbrida e sua filha. Metade Anjo de Água e metade feiticeira.

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