3. Memórias de Papel (p.2)

Lívia tomou um banho. Além do tênis e do café da manhã, Chloé havia trazido também mais algumas roupas. Ela agora usava uma camiseta vermelha e um jeans basicamente igual ao anterior, mas ambos quase lhe serviam perfeitamente. Ao voltar para o quarto, Chloé estava sentada na cama com a mochila de Arthur sobre o colo e uma garrafa de vinho vazia na mão.

— Arthur não leva bebidas quando viaja — comentou Chloé, mostrando-lhe a garrafa. — Não sei por que levou dessa vez. Ahh... — Ela sorriu. — Por favor, não conte que andei mexendo nas coisas dele.

Lívia não comentou sobre o vinho, apenas assentiu e sentou-se na cama ao lado de Chloé.

— Você está bem? — ela perguntou.

— Acho que sim.

Chloé cutucou o braço dela.

— Você gosta do meu irmão?

— Gosto, ele é legal, quando não está irritado — respondeu Lívia.

Chloé riu.

— Não assim, quero dizer apaixonada. Você está?

Lívia virou o corpo inteiro de frente para Chloé.

— Eu não sei o que é estar apaixonada. Nunca me apaixonei. Não sei o que é isso, mas nós livros dizem que é algo extraordinário. — Ela parou e pensou antes de prosseguir. — Bom, não acho que o sentimento é mais como simpatia.

Chloé a olhava com as sobrancelhas arqueadas.

— Uau... Você exemplifica muito bem a expressão "bicho do mato". Já conversou com um ser humano antes de mim e de Arthur ou só lê livros mesmo?

Lívia deu de ombros.

— Eu vivia sozinha com Tia Belinda. O máximo que eu chegava perto de outras pessoas era quando alguém passeava próximo da nossa casa. Eu observava de longe. A única pessoa, fora minha tia, que conversou comigo antes de eu conhecer Arthur, foi uma moça, chamada Louise, que apareceu na minha casa certa vez. Mas eu nunca mais a vi. Ela tinha poderes, igual a mim.

— Poderes? O que ela fazia? — questionou Chloé com interesse.

— Fez aparecer água flutuando sobre a mão dela. Lembro de ter ficado admirada. Mas como eu disse, eu nunca mais a vi.

Chloé bateu o dedo indicador repetidamente sobre a boca, pensativa.

— Isso é interessante.

— O que é interessante? — perguntou Lívia, franzindo o cenho.

Chloé deu um largo sorriso.

— Talvez tenhamos uma primeira pista sobre seu passado.

* * *

— Só isso? — Diana perguntou, com as sobrancelhas arqueadas. Arthur já estava tão vermelho quanto um tomate. A feiticeira havia o obrigado a descrever detalhadamente o que aconteceu com ele e Lívia. — Devia ter colocado um pouco mais de poção no vinho, o efeito foi muito fraco.

— A gente não pode mudar de assunto? Já te contei o que aconteceu — disse Arthur escondendo o rosto com as mãos.

A feiticeira virou de lado e deu um beijo de leve em seu braço.

— Tudo bem. — Ela se levantou e quando ele tirou a mão do rosto, viu que ela tinha as duas mãos estendidas pra ele. — Vêm, vamos fazer outra coisa.

Ele segurou as mãos dela e foi puxado pra fora da cama. Diana o levou para ou outro cômodo. Um quarto amplo, muito bem iluminado e sem qualquer mobília. Era uma confusão de telas, papéis, tintas e pincéis espalhados de forma desordenada.

— Bem vindo ao meu estúdio de arte.

Arthur ficou impressionado.

— Você tem um estúdio de arte?

— Tenho — respondeu dando de ombros.

— Não consigo imagina você fazendo alguma coisa sem usar — Arthur estalou os dedos — mágica.

Diana riu.

— Eu não disse que não uso mágica — disse e lhe deu uma piscadela —, mas eu gosto de desenhar e pintar.

Arthur começou a analisar algumas das telas. Várias delas repetiam uma mesma imagem. Uma mulher, sentada em uma cama com um bebê no colo. A mulher tinha pele clara e cabelos escuros muito longos, que caiam feito uma cortina sobre seus ombros. Olhava para o bebê, de forma que não era possível ver seu rosto com clareza.

— É você? — perguntou Arthur de frente a uma tela que mostrava uma visão ampla do quarto, onde haviam muitas cortinas cor de rosa e um berço ao lado da cama.

Diana sacudiu a cabeça.

— Não pinto nem desenho a mim mesma.

— Então quem é?

— Uma amiga que foi muito importante na minha vida — ela disse e deu de ombros. — Deixa isso pra lá, vamos desenhar.

Diana foi em direção a uma mesinha baixa e sentou-se no chão, pondo as pernas para baixo do móvel. Arthur a imitou e olhou para Diana fazendo careta.

— Eu não sei desenhar.

— Tem coisas que você não precisa saber — ela disse movimentando os dedos e gerando uma luz vermelha entre eles por cerca de um segundo. A mesinha, antes vazia, agora tinha sobre ela muitas tintas, pincéis, lápis, papéis e quaisquer outras coisas que alguém pudesse querer para desenhar. Ao lado da mesa, apareceu também uma caixa feita de madeira. — Você não precisa desenhar para agradar as pessoas. Desenhe pra agradar a você mesmo.

— E se meus desenhos não agradarem a mim.

Diana deu de ombros, pegou um papel e um lápis, que começou a arrastar sobre a folha branca de forma tão natural, como se fizesse isso o tempo inteiro.

— Então não desenhe.

Arthur pegou um lápis e uma folha de papel para si e também começou a desenhar, mas não dá forma caprichada de Diana, mas apenas os seus rabiscos. O bom e velho desenho de uma casa com uma árvore ao lado.

— De que cor você gosta? — perguntou Diana fazendo uma pausa em seu desenho.

— Verde. Adoro verde.

Diana revirou os olhos e sorriu.

— Não diga! Como eu não adivinhei?

Isso o fez rir também.

— Deve ser porque eu sou uma pessoa imprevisível.

— Tenho certeza de que é por isso.

Arthur havia terminado seu desenho, e resolveu começar a pintar justamente pelo verde. Abriu um pote de tinta e não conseguiu reprimir uma careta assim que o cheiro alcançou seu nariz.

— Essa tinta tem cheiro muito forte.

Diana mordeu o lábio pra segurar o riso.

— Quer que eu use magia pra você não ter mais que sentir o cheiro dela?

Arthur estendeu o pote de tinta verde.

— Seria ótimo.

Diana estalou os dedos e Arthur engasgou. A feiticeira fez aparecer um pregador de roupas em seu nariz que ele imediatamente arrancou e começou a rir.

— Não acredito que você fez isso!

Diana deu de ombros. Ela ria também. Um sorriso que iluminava todo o rosto.

— Se tivesse continuado com isso no nariz, não sentiria mais o cheiro. Ahh... Se vai usar tinta, recomendaria que usasse um avental, ou vai manchar toda a roupa. Tenho alguns, se quiser.

Arthur tampou a tinta.

— Não estou tão afim assim de pintar.

Diana balançou a cabeça e voltou a desenhar. Arthur observou seu desenho de cabeça para baixo.

Era ele mesmo, desenhando, ali, naquele mesmo quarto.

— Você estava me desenhando?

— Algum problema?

— Não, eu só... Deixa pra lá. — Arthur olhou para a caixa de madeira ao lado da mesa. — O que tem na caixa?

— Alguns dos meus desenhos — respondeu sem olha-lo.

— Posso ver?

Diana assentiu.

Arthur puxou a caixa para perto de si e a abriu. Nela havia uma pilha de desenhos. Tirou as pernas para fora da mesa e as folhas de dentro da caixa e pôs sobre o colo. Começou a olhar um por um, devolvendo à caixa os que já havia visto. Eram todos desenhos a lápis, sem nenhuma cor. Repetidamente, havia o desenho da mãe e do bebê, mas também haviam outros desenhos. O primeiro que lhe chamou a atenção foi o de um homem de cabelos que iam até os ombros, usando uma camisa florida que Arthur tinha certeza que se houvessem cores no desenho, seria mais colorida do que um arco-íris.

— Esse é Jack, foi o namorado mais engraçado que eu já tive — disse Diana quando notou Arthur observando o desenho. Aparentemente, ela havia terminado de desenha-lo. — Terminei com ele durante uma viajem ao Taiti. Estava muito calor. Calor me deixa irritada. E digamos que Jack estava particularmente irritante em um dia bastante quente.

Arthur riu e passou mais alguns desenhos.

— Nunca te vi irritada.

— Nem queira.

Ele parou por mais um momento em um outro desenho. Uma mulher dessa vez. Com cabelos volumosos e ondulados que terminavam nos ombros, os olhos claros e um sorriso lindíssimo. O corpo era repleto de curvas e usava um vestido apertado na cintura e com um decote bastante profundo.

— Ela é linda, não é? — perguntou Diana. Estava debruçada sobre a mesa, com o rosto apoiado nas mãos, apenas o observando.

Arthur assentiu.

— Quem é ela?

— Cissa, uma feiticeira, como eu. Foi minha melhor amiga por séculos.

— O que aconteceu com ela?

— Brigamos. Tinha ido a Londres, pra casa dela, passar um tempo quando ela resolveu me contar que era apaixonada por mim.

Arthur ficou surpreso.

— Apaixonada por você?

Diana deu de ombros.

— Expliquei da melhor forma possível que eu não tenho interesse em mulheres, mas ela não entendeu. Jurou que se eu não ficasse com ela, destruiria todos os meus relacionamentos.

— E ela destruiu?

— Alguns. No geral, ela só se importava quando eu tinha um relacionamento com alguém imortal. Ela sabe que os mortais um dia vão morrer de qualquer forma.

Arthur olhou o desenho por mais um momento e então o próximo desenho o surpreendeu.

— Meu pai? — perguntou, olhando para Diana com as sobrancelhas arqueadas e ela apenas sorriu.

— Seu pai — confirmou ela. — Ele foi meu amigo também. E ele era tão lindo quanto você. Na verdade, vocês são muito parecidos fisicamente. Mas você é muito teimoso, e pelo que eu me lembro, essa era uma característica da sua mãe.

Arthur continuou olhando o desenho. Era uma imagem perfeita. Fazia tantos anos que não via seu pai. Não tinha muitas fotos e as que tinha evitava olhar. E Diana tinha razão, ele era mesmo parecido com o pai.

— Sente saudades dele? — Diana perguntou.

Arthur assentiu.

— Pode me dar o desenho por um minuto?

Arthur entregou o desenho. Ela pôs sobre a mesa e colocou uma outra folha em branco sobre o desenho. Começou a passear suavemente os dedos sobre o papel e onde a folha era tocada, revelava a imagem do desenho de baixo. Quando terminou, ergueu o desenho de cima, que começou imediatamente a queimar. Em poucos instantes, o papel inteiro foi consumido, não deixando nem mesmo cinzas para trás.

— Fiz uma cópia pra você. Mandei pro seu quarto. Quando voltar pra casa, vai encontrar.

— Obrigado — disse Arthur, e Diana lhe devolveu o desenho, que ele colocou na pilha de desenhos que já tinha visto. — Você desenha muito bem.

— Poderia dizer o mesmo — disse indicando o desenho que Arthur havia feito. — Mas estaria mentindo.

Arthur riu e voltou a ver os desenhos. Eram homens, mulheres, algumas crianças e aquela imagem repetida da mulher com o bebê.

— Você só desenha pessoas?

— Geralmente sim. Tenho medo de que com o tempo esqueça da imagem das pessoas que eu amei. E antigamente não haviam máquinas fotográficas. Esse era o único jeito de eternizar uma imagem. Apenas nunca perdi o hábito.

Arthur parou em mais um desenho, esse com três pessoas juntas. Uma mulher de meia idade, vestida elegantemente, um rapaz bastante bonito, Alto com ombros largos e uma outra mulher, mais jovem que a primeira, mas com uma semelhança evidente.

Arthur ergueu a folha, exibindo-a para Diana.

— Quem são?

— Minha mãe e meus irmãos.

— Feiticeiros?

— Humanos. Todos.

Arthur a olhou interrogativo.

— Hoje em dia não é mais tão comum — explicou ela —, mas antigamente as espécies mágicas conviviam muito com humanos. E se casavam, tinham filhos. Não sei se você sabe disso, mas os humanos tem sangue puro. Se tiver filhos com eles, não vão nascer híbridos. Mas podem herdar magia, ou não. Meu pai era feiticeiro e se casou com uma humana. Eu nasci feiticeira e minha irmã, humana. Meu pai foi morto e minha mãe se casou novamente. Com um humano dessa vez. E teve um filho humano.

Arthur assentiu, indicando que havia entendido a história e pegou o próximo desenho. Um outro rapaz, e esse tinha traços que lembravam Diana.

— Esse é seu pai? — perguntou indicando o desenho.

Ela sacudiu a cabeça.

— Esse é meu filho.

— Você teve um filho? — perguntou surpreso.

— Tive. Humano. Morreu há muitos e muitos anos. Agora já chega. — Ela estalou os dedos e todos os papéis voaram do colo de Arthur para a caixa.

Ela pegou o desenho que havia feito de Arthur que estava sobre a mesa e o estendeu para o garoto.

— Guarde esse na caixa também, por favor. E vamos almoçar, estou morta de fome.

* * *

Na hora do almoço, Chloé apareceu no quarto lhe trazendo o que comer e dizendo que ia visitar os pais. Lívia apenas assentiu. Comeu sozinha no quarto. Tentou arrumar as coisas de Arthur que estavam fora do lugar, deitou-se e dormiu.

A tarde passou sem que ela nem ao menos percebesse. Quando acordou, foi para dar de cara com uma Chloé claramente nervosa. Mexendo de forma brusca em um celular semelhante ao que Arthur possuía. Andava de um lado pro outro, sem parar.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Lívia quando acordou.

— Aquela vaca! — foi apenas o que disse.

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