3. Memórias de Papel (p.1)
— Você está muito quieto.
Diana o olhava, preocupada. Arthur havia chegado em sua casa sem falar muito. Ela o convidou para tomar café da manhã, e ele apenas assentiu. Nesse momento estavam sentados à mesa, Diana tomava café com leite e comia uma fatia de pão enquanto Arthur balançava uma caneca de café, girando o conteúdo dentro.
— Pode ir embora se quiser — disse a feiticeira, ao não receber resposta.
Arthur a olhou espantado, mas logo voltou a atenção para a caneca. Então suspirou.
— Não posso.
— E se eu te disser que vou cumprir minha palavra mesmo se você não cumprir a sua? Vá embora, traga a garota.
Arthur a olhava sem dizer nada.
— Não queria que viesse aqui pra passar o dia namorando uma caneca.
Arthur entortou o canto da boca e então levantou a caneca até a altura do rosto e deu um beijo.
— Eu te amo... Não, eu amo mais... Você quem é linda... Casa comigo? — Arthur deu mais um beijo barulhento na caneca.
Diana riu e bebeu de sua xícara.
— Por que você quis que eu passasse um dia aqui? — perguntou Arthur.
— Você lembra do dia que veio trazer Excalibur pra mim?
— Lembro.
— Eu não estava brincando quando disse que ficaria feliz com sua presença mais vezes por aqui. — Ela deu de ombros. — Não gosto de muitas pessoas. E as pessoas não gostam muito de mim. Nunca tenho companhia, nunca tenho ninguém pra conversar, passar o dia, rir. Eu sinto falta disso. Eu gosto quando você vem aqui, Arthur, mesmo sabendo que você detesta.
— Eu não detesto.
Diana riu.
— Detesta sim, você conta os minutos pra ir embora. Andei pensando, acho que sou intensa demais pra você.
Arthur deu um sorriso torto.
— Talvez você seja mesmo um pouco intensa as vezes.
— Bom, eu tive uma ideia — disse ela satisfeita consigo mesma. — Planejava passar o dia de uma forma mais leve.
Arthur apoiou o rosto na mão, com o cotovelo sobre a mesa.
— Conte-me mais.
Diana apenas riu e balançou sua cabeça.
— Beba seu café, não quero passar o dia inteiro sentada aqui.
Ele bebeu um gole e fez careta, repousou novamente a caneca sobre a mesa e a empurrou pra longe de si.
— O café está frio, não quero mais beber, vamos fazer outra coisa.
Diana revirou os olhos e estalou os dedos. Imediatamente começou a sair vapor de dentro da caneca e a feiticeira, com um movimento de sua mão, fez com que ela voltasse para perto de Arthur.
— Agora está quente. Não sairemos daqui enquanto não beber.
Arthur pegou a caneca, contragosto, e bebeu.
* * *
Chloé usou a chave para abrir o quarto do irmão e encontrou Lívia sentada na cama, imersa em um livro. Pela capa, ela já sabia que havia sido Arthur quem havia dado o livro a garota.
— Oi, sou eu — disse entrando no quarto. — Arthur teve que sair e me pediu...
— Pra tomar conta de mim — interrompeu Lívia, que tinha cara de poucos amigos. — Eu ouvi vocês conversando.
— Então você ouviu quando falamos sobre...
— Diana? Ouvi sim. — Lívia fechou o livro com raiva. — Que droga vocês dois acham que estão fazendo?
Chloé largou-se na cadeira próxima a cama e suspirou.
— Eu nunca concordei com isso, mas Arthur faz o que quer. Quando ele decide alguma coisa, nada faz ele voltar atrás. Com os anos, aprendi que nem vale a pena discutir.
— Ele quer me mandar pra casa dela.
— O que eu considero uma ideia estúpida. Não confio em Diana. Não acho que ela vá te matar, mas feiticeiros não costumam ser boas pessoas.
Lívia abaixou a cabeça e escondeu o rosto com as mãos.
— Não devia ter vindo pra esse lugar.
— Devia sim, Arthur teve razão em te trazer. E pelo que eu conheço do meu irmão, ele nunca te deixaria pra trás.
— Então por que eu não saio daqui e finjo que... Sei lá... Que morava em algum lugar e vim pra cá quando meus pais morreram... Você e Arthur poderiam ser meus primos distantes.
— Mentira tem perna curta, Lívia. Não iria muito longe com essa história, ainda mais porque não tem como eu e Arthur termos parentesco com um anjo. Enfim, por hora, o melhor é seguir o plano do meu irmão. Vamos esconder você é depois pesquisar até descobrir sobre seu passado.
Lívia apenas assentiu.
— Trouxe algo pra você comer. E o tênis que eu prometi.
* * *
— Pra onde estamos indo? — perguntou Arthur enquanto subia as escadas, acompanhando a feiticeira.
— Meu quarto — respondeu Diana.
— Seu quarto? — perguntou franzindo o cenho.
— É, sabe, aquele cômodo onde tem uma cama que a gente usa pra dormir.
— Não está na hora de dormir, o que você quer no quarto? — perguntou cauteloso.
Diana parou, virou-se para ele e revirou os olhos.
— Cama não serve só para dormir, você sabe — ela sorriu maliciosamente e em seguida balançou a cabeça —, mas também não vamos pra lá pelo que você está pensando.
— Então pra que?
Ela virou-se e voltou a subir.
— Só acho que vamos ficar mais confortáveis se estivermos deitados conversando — disse Diana. Seu cabelo logo escondia suas costas, mas ele percebeu quando ela deu de ombros. — Só conversando mesmo.
— Tudo bem.
O quarto de Diana era provavelmente o cômodo mais bonito que Arthur viu na casa. Tudo parecia ter cores claras, que variavam entre branco e bege, exceto por uma parede, que tinha um único quadro com a uma pintura onde a imagem era cheia de tinta cor de rosa. Uma outra parede era inteira de vidro, com janelas que iam do chão ao teto, cobertas por finas cortinas brancas.
Mas não teve muito mais tempo pra analisar o lugar pois Diana o puxou pela camisa para perto da cama e o empurrou, fazendo com que caísse de costas.
— E se eu desistisse de pegar leve? — perguntou divertidamente, com as sobrancelhas arqueadas.
— Diana... — disse Arthur sentando-se, mas a feiticeira o interrompeu empurrando-o de volta. Em seguida, ela mesma deixou-se cair ao seu lado e começou a rir.
— Desculpa, não resisti. Adoro as caras que você faz — disse ainda rindo.
— Ah... Então é isso — disse ele ofendido, olhando de lado para a feiticeira. — Sou sua piada particular.
— Não, mas você é uma gracinha — respondeu fazendo beicinho.
Arthur resolveu desviar o assunto.
— Você encantou minha espada? — perguntou ele.
— Sim — ela respondeu, olhando para o teto. — Não querendo ser presunçosa, mas fiz um excelente trabalho.
— Não posso te chamar de presunçosa, quando eu mesmo sou — Arthur brincou.
— Bom, melhor ser presunçoso do que fingir modéstia, que pra mim é apenas mais uma forma de mentir. Sou uma excelente feiticeira e você é lindo. — Diana deu de ombros. — O mundo não deveria nos julgar por sermos tão maravilhosos.
Isso fez Arthur rir alto.
— Como ela ficou?
— Curioso?
— Um pouco.
— Você ainda não cumpriu sua parte do trato — ressaltou ela. — Ainda quero ouvir sobre aquela garrafa de vinho. — ela mordeu o lábio inferior segurando um sorriso.
Arthur corou.
— Bebeu com a tal Lívia, não foi? — perguntou Diana.
— Sim. O que tinha nele?
— Bom, vinho é uma bebida alcoólica...
— Aquilo não foi efeito só do álcool, Diana. O que tinha? — pressionou Arthur.
Diana sorriu.
— Umas gotinhas de uma espécie de poção do amor. Na verdade, não é bem poção do amor, é algo mais para atração sexual...
— Meu Deus, Diana! — disse virando a cabeça para a encarar, incrédulo.
A feiticeira riu alto.
— Você quem insistiu em saber o que tinha. Um feiticeiro me ensinou a preparar há alguns anos. Já me rendeu noites excelentes... Ops. — Ela parou de falar de repente e respirou fundo. — Pegar leve, pra mim, é mais difícil do que você imagina.
Arthur deu de ombros.
— Eu não me importo que você fale essas coisas, desde que não esteja em cima de mim, sinta se a vontade.
Diana virou a cabeça para ele e sorriu.
— Tudo bem. Mas vamos lá! Me conte sobre você, Lívia e os efeitos do vinho.
Arthur respirou fundo e contou.
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