13. O Peso de Mil Mentiras (p.1)
As janelas fechadas não abafavam os sons das sirenes da polícia de Nova York, e a cidade parecia ainda mais barulhenta quando alguém queria não ouvir seus ruídos.
Desde que chegou em casa, Arthur nem se deu ao trabalho de ligar as luzes. Estava deitado na cama, ainda com os sapatos nos pés e olhando para o teto. A única iluminação penetrava através dos vidros da janela, vindo da rua lá fora.
Precisava avisar a Chloé que estava bem, mas mal tinha coragem pra ligar o celular, que dirá digitar uma mensagem. Queria ficar sozinho. Em silêncio. Parado.
No entanto, não conseguia diminuir o volume dentro da própria cabeça, que eram mais altos do que os sons que vinham da rua. Era uma situação confusa, e sua mente dava voltas e voltas, sem parar.
Pensou ter notado um vulto com o canto do olho e levantou a cabeça do colchão, apoiando-se nos cotovelos para olhar em direção à porta.
E ela estava lá, encostada na moldura da porta, os cabelos escuros ondulando ao redor do rosto.
— A porta estava trancada — Arthur falou.
— E eu sou uma feiticeira — respondeu Diana. — Portas fechadas não são o pior problema da minha vida.
Arthur deixou-se cair novamente sobre a cama, voltando a atenção para a lâmpada do teto.
— Devia ir embora.
— Eu quero conversar com você.
— Mas eu não quero — disse ele. — Poderia ir embora, por favor.
— Por que você não quer falar comigo?
— Por que? Você quer saber o motivo? — Arthur riu cético. — Porque eu sou um idiota, e você me conhece bem demais. Qualquer coisa que você disser vai me convencer. — Ele se sentou abruptamente. — Que inferno, Diana! Por que você não pode simplesmente me deixar sozinho?
— Tudo bem — disse Diana antes de se retirar. E Arthur achou que tinha sido fácil demais.
***
Lívia estava quase cochilando quando ouviu um bipe e a tela do seu celular se iluminou com uma mensagem de Diana.
“Arthur está bem, mas acho que ele não vai querer voltar pra casa agora. Ele está no apartamento do Brooklyn. Avise a Chloé.”
Ela não sabia muito bem como poderia saber disso, mas Diana parecia um pouco triste na mensagem. Muito sucinta, talvez.
Olhou para Chloé, ela havia dormido no sofá depois de algum tempo e estava deitada em uma posição muito torta. Pensou por um minuto se deveria acorda-la, e decidiu que sim.
— Chloé — Lívia chamou, mas ela nem se mexeu, assim sendo, limpou a garganta e chamou novamente mais alto. — Chloé.
Ela resmungou e abriu os olhos, parecendo perdida e incomodada com a luz.
— O que?
— Arthur tá bem, Diana falou que ele tá no Brooklyn.
Chloé verificou o próprio celular.
— Ele não me mandou nenhuma mensagem — ela colocou o celular no ouvido, enquanto tentava fazer uma chamada. — O celular dele deve estar desligado também.
Lívia deu de ombros.
— Bom, pelo menos Diana deu notícias.
— E você acredita em tudo o que ela diz — resmungou ela.
— Devia ir pra cama. Eu acho que vou dormir também. Amanhã devemos saber o que aconteceu exatamente.
***
Arthur só acordou quando já era de manhã, e por um breve momento, esteve confuso sem saber se os acontecimentos da noite anterior havia sido um sonhos, porém acabou por ter um sobressalto ao sair do quarto para a sala.
Diana estava dormindo no sofá, a cabeça encostada no braço e o corpo enrolado por um cobertor. Sobre o tapete, estavam as botas pretas de salto alto que ela devia ter abandonando por ali.
Ela não tinha ido embora.
Pensou em recuar, pegar suas coisas e voltar pra Alexandria antes que ela acordasse, mas se frustrou quando deu seu primeiro passo em retirada, e Diana abriu os olhos. Ela era o tipo de pessoa que tinha o sono leve, e que parecia vigiar tudo ao seu redor mesmo quando estava dormindo.
Decidiu ignora-la mesmo assim, e seguir o plano. Voltou para o quarto para juntar suas coisas, e a feiticeira logo estava lá atrás dele.
— O que você está fazendo? — ela perguntou as suas costas.
— Se você não vai embora — ele jogou a mochila no ombro e se virou grosseiramente. — Eu vou. Você pode ficar se quiser.
— Não vai, não — disse ela, e abriu a palma da mão direita na frente dele, o fazendo dar de cara com uma parede invisível.
Foi tão inesperado que Arthur bateu com o rosto e caiu para trás.
— Sinto muito por isso — disse ela se abaixando perto dele. — Eu só quero que você me ouça, e pare de agir como uma criança. Você só ouviu Cissa até agora.
— Então vai dizer que ela mentiu? — perguntou, apertando os dentes pela dor e esfregando a própria testa.
Diana hesitou. Ela inspirou o ar e se sentou no chão em sua frente, cruzando as pernas.
— Não. Ela não estava mentindo.
Isso o decepcionou.
— É uma pena — falou Arthur. — Porque eu queria tanto que fosse mentira, que eu provavelmente acreditaria em você.
— Pensei que quisesse saber a verdade.
— E eu queria. Mas tinha formas melhores de descobrir que você era amante do meu pai do que — ele engoliu em seco antes de continuar. — Do que pela sua amiga feiticeira maluca, que me sequestrou só porque tinha ciúmes de você.
— Tem razão, mas eu quero te contar o meu lado da história.
Arthur amarrou a cara.
— Agora eu não quero mais ouvir. Tarde demais.
— Sério? — ela rolou os olhos. — e vai fazer o que? Tampar os ouvidos com os dedos?
— Pro inferno você e esse seu deboche! — falou ele se irritando. — Não sou criança, nem seu brinquedo.
— Seu pai foi meu namorado, quando ainda era um pouco mais novo do que você, antes de se casa — disse Diana, ignorando os protestos dele. — Isso era escondido, mas não tanto assim. Algumas pessoas sabiam, como Lúcio e Mirian, que eram amigos dele. Mesmo não aprovando, os dois nunca se intrometeram, nem nunca contaram a ninguém, porém, de alguma forma, seus avós ficaram sabendo. Já estávamos juntos há alguns anos quando ele chegou a minha casa desolado. Disse que os pais estavam o obrigando a se casar, e que o casamento já tinha uma suposta noiva e data marcada. Há tempos Arthur me falava sobre seus pais quererem casa-lo, mas ele sempre se esquivava, dando um jeito de escapar da situação.
— Isso é mentira — disse Arthur. — O casamento dos meus pais não foi armado, eles amavam um ao outro, eu me lembro deles — já estava se tornando doloroso falar sobre isso —, eu tenho certeza.
Diana ouvia com a cabeça baixa, enquanto puxava fios da barra desfiada de sua calça jeans.
— Seu pai se apaixonou por ela no final, isso é verdade. E eu sentia ciúmes. Arthur foi a única paz que eu tive na vida.
Paz. Arthur repetiu a palavra mentalmente. Diana o conheceu de verdade, pra falar isso. Seu pai havia sido a pessoa mais tranquila do mundo. Nunca o viu brigar, quase não reclamava de nada, e sempre dizia “Tá ótimo!” pra tudo.
Ele suprimiu o desejo de rir da lembrança.
— Mesmo com o casamento, eu não pude deixar que ele saísse da minha vida — continuou ela. — E ele também nunca insinuou que o casamento iria nos separar.
Ele estreitou os olhos para ela.
— Ele não faria isso, não é? — Arthur torceu a boca. — Sei o quanto você pode ser persuasiva.
— Você não entende o que é ser imortal, Arthur. — ela falou o olhando nos olhos. — Não sabe como é estar sozinho pela eternidade. Não sabe o que é perder as pessoas você mais ama no mundo.
— Meus pais, meu melhor amigo, estão todos mortos — disparou Arthur. — Acha que eu não sei como é se sentir sozinho?
Diana estava balançando a cabeça.
— Você nunca vai entender. E eu não tive que ser tão persuasiva quanto você diz. Mesmo casado, seu pai quis ficar comigo.
— Isso não é verdade...
— É sim! — Ela se irritou. — E por mais que eu tivesse ciúmes, era o único jeito de ter ele comigo.
Arthur tentava organizar o caos que havia se formado em sua mente, e mal notava que estava balançando a cabeça veementemente.
— Eu não quero saber — disse, se levantando do chão em um ímpeto.
— Senta — ela ordenou. — Eu ainda não terminei.
Ele obedeceu, a contragosto.
— Quando ele morreu — Arthur falou entre dentes —, você decidiu que eu poderia ficar no lugar dele.
Ela o mediu com os olhos.
— Arthur — ela falou cautelosamente —, você se acha realmente parecido com seu pai? E não quero dizer fisicamente, é obvio.
Nem precisou pensar muito.
— Não — respondeu Arthur. — Não sou parecido com ele.
Diana assentiu.
— Ele era um cara tranquilo — disse ela. — E apesar dos dois terem um coração do tamanho do mundo, você é impetuoso. Era impossível discutir com seu pai, porque ele não gostava de discussão, e acabava com o assunto muito rápido. Com você, o maior problema é que você é teimoso, e não aceita perder uma discussão. Nesse ponto, com quem você se parece?
Arthur apoiou o cotovelo na perna e o queixo na mão, enquanto olhava com falso interesse para o desenho do piso do quarto.
— Minha mãe.
— Quando ela se casou, não foi pra ter uma família, foi pra ficar livre das ordens dos pais. Ela teve um marido que não iria cobrar nada dela.
— Nem fidelidade — resmungou Arthur.
— Sim, nem isso — Diana confirmou.
— Então, o que eu devo fazer? Te agradecer por me contar que minha vida é uma mentira?
— Não Arthur, eu estou te contando o que aconteceu no passado, e aí você decide o que vai pensar de mim a partir disso. Seu pai foi tudo o que eu tive pra me apegar depois da morte de Alice e Vicente.
— Depois que você matou Vicente — corrigiu Arthur friamente. — Espera... — ele hesitou enquanto raciocinava. — Você disse que namorava com meu pai quando ele era mais novo do que eu, mas isso é impossível... Quanto tempo faz? Uns trinta anos?
— Trinta e um. — ela corrigiu.
Ele balançou a cabeça com descrença.
— Há trinta e um anos, Alice ainda estava viva, não é? Lívia nem tinha nascido. E você ainda não tinha matado seu noivo. — Ele apontou e Diana pareceu desconfortável com o rumo que a conversa tomou. — Você estava com Vicente e com meu pai ao mesmo tempo, não estava?
— Sim — respondeu ela. — E os dois sabiam disso.
— Isso é terrível! — disse Arthur, exasperado. — Só falta me dizer que minha mãe era amante do seu noivo.
Ela raciocinou por um minuto.
— Não que eu saiba, mas eu não teria aceitado que se Cecília se aproximasse de Vicente também.
— Essa história é muito absurda — disse Arthur, passando mãos pelo cabelo e esfregando os olhos. — Por que você não ficou só com seu noivo? Por que meu pai não ficou só com a minha mãe.
— As pessoas não controlam o que sentem, Arthur. Eu amava mais ao seu pai do que a Vicente, mas seu pai um dia ia morrer, enquanto Vicente ia viver para sempre, como eu.
— Vicente não viveu para sempre.
— Você tem razão.
— Você só queria se certificar de que não ia ficar sozinha. Você usou Vicente.
— Louise usou Vicente.
— Não pode se esconder atrás de um nome. Você fez isso — disse Arthur em tom acusatório. — Acha que meu pai também amava mais a você do que a minha mãe?
— Eu sempre acreditei que sim — ela disse —, mas nunca vamos poder ter certeza disso.
Arthur balançou a cabeça e ficou quieto pensando por um minuto.
— Você diz que não me pareço com meu pai — disse ele afinal. — Então por que se aproximou de mim?
— Você se lembra quando seu pai te levava na minha casa?
Arthur torceu o rosto. É claro que se lembrava, só isso fazia com que ele acreditasse no que ela dizia, mesmo não querendo. Tudo se encaixava perfeitamente demais. E Diana havia conseguido descrever seus pais de um jeito que só uma pessoa próxima poderia fazer.
— Lembro.
— Ao contrário do que Cissa disse, você nunca foi um filho pra mim. — Ela balançou a cabeça. — Enquanto seus pais eram vivos, nunca consegui deixar de lado uma pontada de raiva que eu tinha de você. Você era o filho de Cecília, e eu tinha muito ciúmes do seu pai. Mas depois que seus pais morreram, era como se nada disso importasse mais, e não tinha mais motivos pra ter ciúme. Me senti responsável por você, e cuidei de você, a distância, é claro, porque eu mal conseguia te olhar. Você ficava cada dia mais parecido com ele. Como se ele estivesse vivo outra vez.
— Não. — ele sacudiu a cabeça com veemência. — Você nunca cuidou de mim de jeito nenhum. Eu lembro de ter observado você em algumas das poucas vezes que eu te vi. Você mal olhava pra mim.
— Por anos, eu viajei para todos os lugares para onde você iria pela Guarda, com dois ou três dias de antecedência, me certificar de que não haveria nada que ameaçasse sua vida. Discretamente, eu impedi que pessoas mal intencionadas se aproximassem de você, investiguei seus amigos. Mas aí teve aquela tarde em que você me procurou pela primeira vez, há uns dois anos. Lembra? Você bateu a minha porta pedindo que te ajudasse a fugir, ir morar com humanos, disse que não queria mais ser Guardião da Fauna. Falou que estava com medo de ficar sozinho, desde que seu amigo Zac desapareceu.
— Você me deu Sir. Lancelot.
—Eu não te dei um cavalo, e sim uma companhia. E funcionou, não foi?
— Você disse que verificava os lugares pra onde eu ia viajar antes de eu ir, não é? — ele perguntou. — Então isso significa que você já sabia que eu ia encontrar com Lívia quando me deu aquela droga de vinho enfeitiçado.
Diana não respondeu.
— Essa é a parte que você convenientemente deixa de fora — ele continuou. — A parte onde você manipula a todos nós, como se fôssemos seus bonecos. Você armou tudo, pra eu esbarrar com ela.
— Eu não posso prever o futuro — afirmou Diana —, mas admito que esperava que vocês se encontrassem. Eu queria que você bebesse com ela. Eu queria que você voltasse um mês depois me falando sobre minha afilhada. Eu jamais pude chegar perto dela, por que isso poderia por a vida de Lívia em risco, mas eu daria tudo pra saber como ela é, e esperava que você me contasse. Mas você a trouxe com você. Eu não tinha ideia de que a tia dela havia morrido, e que ela estava morando lá sozinha.
— Mas quando eu pedi pra esconder ela, você se recusou, até que eu ofereci algo em troca.
— Você me assustou, eu respondi de impulso — justificou Diana. — Não queria Lívia perto de mim, mas depois percebi que seria ainda pior se eu deixasse você se virar sozinho pra esconde-la. Os Anjos iriam encontrar minha menina. Aproveitei quando você me fez sua proposta, pra voltar atrás. Arthur... — ela esticou o braço pra tocar o braço dele, mas ele recuou, recusando seu toque. — Eu só queria que você entendesse, que tudo o que eu fiz, foi pelo bem de vocês dois...
— Bom, então eu tenho uma notícia pra te dar. Eu já tenho idade suficiente pra cuidar da minha vida, e Lívia logo vai poder cuidar da dela também. Então pare de fazer o que você acha que é melhor pra gente, tá bom? — ele fez uma pausa para se levantar do chão e jogar a mochila nas costas. — Eu já ouvi sua versão da história, e queria ir embora agora. Eu posso? — perguntou Arthur com ironia.
E Diana apenas sacudiu a mão no ar, soltando algumas faíscas durante o movimento.
Estava quase na porta quando ela o chamou novamente.
— Espera, Arthur.
Ele parou, mas não se virou.
— Você vai contar isso pra Lívia?
— O que você acha? — perguntou ele, já abrindo a porta.
Arthur saiu de casa destinado a voltar para Alexandria, mas ao chegar na rua mudou de ideia. Precisava fazer uma coisa antes, então pegou um táxi.
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