12. Espelho, Espelho Meu (p.2)

— Primeiramente — disse Narcisa –, eu não estava brincando quando disse que estava naquele bar esperando por você. Fui até aquela droga de lugar por duas semanas até você aparecer, desde que descobri que você o frequentava. E aliás, achei de péssimo gosto.

— Você estava atrás de mim? — perguntou Arthur, com o rosto estampado por sua incredulidade.

Narcisa assentiu.

— Você falou de Diana ontem — continuou Arthur. — Você conhece ela, não é?

— É claro que sim! Por séculos e séculos eu conheço aquela mulher — Narcisa parecia indignada. — Diana é a pessoa mais maravilhosa que eu já conheci.

Algo estalou na cabeça dele quando ela falou. Lembrou-se de alguns dias atrás, no dia seguinte à chegada de Lívia em Alexandria... agora sabia por que Narcisa pareceu tão familiar, ele já havia a visto antes, na casa de Diana.

— Eu sabia que te conhecia — falou ele, expondo os próprios pensamentos. Narcisa pareceu confusa. — Eu vi um desenho seu nas coisas de Diana. Ela te chamava de Cissa, não é? Vocês brigaram quando você contou que estava apaixonada por ela.

Narcisa pôs uma das mãos sobre o peito dramaticamente.

— Ela guarda um desenho de mim? Isso é adorável. Mas você me entende não é? — disse ela. — Também é apaixonado por ela.

Arthur ficou surpreso. Ele simplesmente não tinha parado pra pensar nisso, e também não fazia ideia de que fosse algo tão nítido, mas de qualquer forma, não podia negar, então mudou de assunto:

— Diana me disse que você tentava destruir os relacionamentos dela. É isso que você está fazendo? Por isso me trouxe aqui?

Narcisa sorriu satisfeita.

— Você entende as coisas rápido — disse ela. — Isso facilita as coisas. Eu amo Diana, e essa noite você vai sair do meu caminho — falou simplesmente.

— E se eu não sair?

Ela pareceu achar isso muito engraçado.

— Você vai, e vai ser por conta própria.

— Isso não é amor — ele disse. — Isso parece doentio. Se você realmente a amasse, ia querer ela feliz.

— E você acha que ela é feliz com seus amantes que passam alguns anos com ela e depois apodrecem?

— Apodrecem?

— Sim. Envelhecem, morrem. Todos eles. Diana os vê morrer e não pode fazer nada. E os amantes imortais partiram o coração dela. — Narcisa falava com muita convicção. — Só eu poderia estar do lado dela pela eternidade, e nunca iria morrer, nem a magoar.

— Você já a magoa cada vez que se mete na vida dela, e afasta as pessoas que ela ama.

— Acha que ela te ama? — Ela riu de deboche. — Acredite em mim, quando isso terminar, vai querer me agradecer por abrir seus olhos.

— Abrir meus olhos para quê? — ele perguntou.

— Diana têm muitos segredos, você deve saber disso, e vai descobrir um deles hoje. Eu poderia contar, mas você não acreditaria em mim, então vou deixar você ouvir da boca dela.

— E como você pretende fazer isso?

— Vai descobrir.

— Diana me disse que não gosta de mulheres.

— Sério? E você acredita em tudo que Diana diz? — ela perguntou com sarcasmo e riu, se encostando e cruzando as pernas. — Pois eu me lembro com clareza de algumas mulheres que passaram pela vida dela, e não só como amigas. — Ela raciocinou por um instante. — A última vez foi há dezessete anos, uma morena, de olhos azuis, muito bonita. Uma pena que esteja morta agora. — disse ela, não parecendo realmente se importar, e pegou o celular de Arthur num canto, analisando a tela por um momento. — Sua irmã está ligando outra vez.

— Me deixa falar com ela — pediu Arthur. — Por favor, Chloé deve estar morrendo de preocupação.

— As pessoas costumam dizer que estão mortas de preocupação, mas é só uma figura de linguagem, que, a propósito, se chama hipérbole, mas não se preocupe, não é literal. Sua irmã vai ficar bem — ela respondeu com desdém e voltou a abandonar o celular.

— Obrigada pela aula, mas o que eu faço agora? — Arthur olhou para os lados. — Até que horas eu preciso esperar até essa sua brincadeira acabar?

— Eu não sei, estava esperando pra fazer isso à noite, mas se você estiver entediado, posso pensar em ótimas maneiras de passar o tempo — disse e deu uma piscadela para ele enquanto sorria.

— Não, obrigado, eu tô bem.

Narcisa gargalhou.

— Uma pena, Arthur, porque eu quase poderia dizer que tenho uma quedinha por você — ela pôs o dedo indicador sobre o lábio pensativa. — Na verdade, eu acho que é só curiosidade mesmo, sobre o que Diana vê de tão interessante, mas de qualquer forma — ela se levantou, e para a decepção de Arthur, lembrou-se de pegar o celular dele no canto do assento —, se você prefere passar a tarde toda entediado, eu prefiro me divertir. — Ela se inclinou próxima a ele, deixando os rostos na mesma altura, e a um palmo de distância. Arthur tentou afundar em direção ao encosto do sofá, mas não conseguiu muita coisa. — Te vejo mais tarde, Docinho.

Narcisa tocou a lateral do rosto dele e Arthur congelou quando ela lhe beijou a boca, mordendo o lábio inferior como uma provocação antes de passar rebolando pelo espelho.

Assim que ela sumiu, Arthur limpou a boca na manga da blusa, deixando uma mancha de batom vermelho. Ele se levantou para andar pela casa inversa, procurando uma forma de sair ou falar com Chloé, mas antes se aproximou de do espelho.

Ainda não via a si mesmo, mas do outro lado estava a casa verdadeira. Pôs a mão no vidro e era rígido e frio. Tentou chutar, mas só conseguiu machucar o próprio pé. Era tão duro quanto uma parede.

Começou a entrar nos cômodos aleatoriamente, revirando tudo a procura de alguma coisa útil, que ele não sabia ao certo o que era.

O terceiro cômodo em que entrou era o quarto de Narcisa. As poucas partes visíveis das paredes eram pintadas de um vermelho escuro, mas a maior parte eram espelhos, que faziam com que ele visse a si mesmo em todos os lados. Até o teto era um espelho, e as lâmpadas eram embutidas nele. Era bonito e assustador ao mesmo tempo, e ele pensou que provavelmente nunca conseguiria dormir ali. Ela com certeza era a pessoa mais egocêntrica que Arthur iria conhecer na vida. Isso ou estava.

Aproximou-se de um deles para ver a si mesmo de perto. Parecia péssimo, cheio de olheiras, e os cabelos apontando para todas as direções. A calça jeans respingada com o vinho da noite anterior, e a camisa branca agora manchada de batom. Estava descalço, e nem se lembrava de ter tirado os tênis. Narcisa devia ter feito isso enquanto ele dormia, mas pensar a respeito era perturbador, então ele voltou sua atenção para a operação “Procurar Alguma Coisa”.

Revirou algumas gavetas, e pensou que o que estava fazendo era invasão de privacidade quando encontrou algumas coisas que deviam ser bem pessoais. Hesitou em continuar, mas aí lembrou que foi ela quem o prendeu ali, e que a apenas alguns minutos, ela havia usado o celular dele sem permissão, e isso o fez seguir com   sua busca sem remorso.

Encontrou uma porta num canto que era a entrada pra um imenso closet, com roupas e sapatos por toda a extensão, então balançou a cabeça e saiu de dentro, tendo certeza que um par de scarpins não iriam quebrar o espelho enfeitiçado da sala.

Tentou olhar debaixo do colchão da cama, mas não havia nada ali também.

— E eu que pensava que todo mundo tivesse alguma coisa debaixo do colchão — disse em voz alta para si mesmo.

Esbarrou cabeceira da cama, que era um grande e sólido retângulo de madeira, e alguma coisa se mexeu e fez barulho. Arthur tateou e acabou percebendo que a madeira era oca, e que havia movimentado acidentalmente o que parecia ser a tampa.

Com alguma dificuldade, ele conseguiu abrir, e apesar de escuro, dava pra notar que tinha alguma coisa no interior. Estava pronto pra enfiar o braço e hesitou.

— A curiosidade matou o gato — ele resmungou.

Sabia que não era uma boa ideia botar a mão ali, mas ao olhar ao redor, não encontrou nada que pudesse usar pra puxar o que tinha lá dentro, então, mesmo receoso, ele se esticou pra alcançar o que estava no fundo.

E seus dedos tocaram alguma coisa fria e lisa, que ele podia apostar que era metálica. Sua mão se fechou ao redor do objeto e ele sentiu uma picada na palma. Puxou braço para fora e com ele veio a uma longa e bonita espada, que estava manchada de sangue onde ele estava segurando. Ele havia a pegado pela lâmina e se cortado, mas levou menos que um minuto pra consertar isso.

Quando terminou, Arthur sentou-se na cama. Parou para analisa-la e notou uma pequena inscrição na lâmina, mas não conseguiu ler. As letras pareciam estranhamente erradas. Daí notou que estavam ao contrário.

Você tá dentro do espelho, idiota. pensou enquanto se levantava e a levava até um dos espelhos na parede. Virou a lâmina para o vidro e leu.

— Clarent — ele falou em voz alta. — Bonito nome, agora vamos ver se serve pra alguma coisa.

Arthur voltou apressado para a sala e acertou o espelho com toda a força que tinha. O impacto pareceu sacudir todos os seus ossos, e ele derrubou a espada no chão. E o pior de tudo era que não havia feito nem um arranhão na superfície vítrea.

— Isso vai ser difícil.

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