11. Entre Versos e Estrofes (p.4)
— Acho que seria melhor se eu e Chloé também soubéssemos o plano! — reclamou Arthur quando chegaram a cozinha.
Diana o censurou com o olhar.
— Não, por que vocês dois são muito transparentes, não são bons mentirosos.
— E você é excelente nisso — rebateu Chloé, puxando uma cadeira para si. Arthur a acompanhou e sentou-se ao lado dela, apoiando os cotovelos sobre a mesa.
Diana suspirou, escorando-se com as costas no balcão de mármore.
— Vocês poderiam parar de reclamar e apenas esperar?
— Você sabia que ela ia pedir pra falar sozinha com ele? — Arthur perguntou e ela assentiu. — O que Lívia acha que tá fazendo?
— Você vai ver — foi apenas o que ela disse.
Arthur queria dizer mais alguma coisa, mas seu celular emitiu um bipe, e ele o desbloqueou para ver uma nova mensagem de Narcisa.
“Jantar, hoje, às 8h na minha casa” dizia, e vinha acompanhado da localização.
Droga. Pensou Arthur. Tinha prometido jantar com ela, mas não sabia o que Diana ia dizer sobre isso.
— O que foi? — perguntou Chloé a ele.
— Nada — Arthur respondeu, devolvendo o celular ao bolso após olhar a hora. Tinha tempo de sobra, iria jantar com Narcisa, e só isso. Voltaria pra casa hoje mesmo e amanhã ia estar tudo bem. Só precisava dizer a Diana que iria dormir em casa, e a Chloé que iria jantar com Diana e Lívia. Resolvido.
Foram cerca de quinze minutos de um silêncio embaraçoso até que Lívia entrou sozinha pela porta.
— Cadê Miguel? — Chloé perguntou, ajeitando a postura e se sentando ereta.
— Pedi que fosse embora — respondeu Lívia, e suspirou colocando a mão sobre o peito de forma dramática. — “Se incomodaria em me deixar sozinha com eles, Miguel? Eu... Eu queria pensar um pouco...” — suspiro — “Desculpe, eu devo estar sendo rude, mas por favor. Quer que eu chame Chloé para ir embora com você? Ah você, não se importa se ela ficar? Tudo bem então, eu digo a ela que você foi embora e que depois vocês se falam. Te vejo outra hora... E ah, obrigada.” — disse ela, aparentemente imitando a si própria quando falou com Miguel. E então ela riu, como se fosse tudo muito engraçado.
— E então? Ele contou onde fica o Delacroix — perguntou Diana.
Lívia assentiu.
— Eu não sei onde fica, vocês vão ter que me dizer, mas ele falou que Delacroix é o apelido do Rio Nilo, que passa por dentro da Biblioteca.
— O Rio da Biblioteca? — Arthur repetiu a encarando.
— Foi o que eu disse.
— Ele falou mais alguma coisa? — Chloé perguntou.
— Sim, disse que é chamado assim por que é onde acontecem as reuniões do Conselho. Mas acredito que isso tenha alguma coisa haver com a política de vocês, então não entendi muito bem.
— "Delacroix, lago onde os anjos maus banham-se em sangue" — recitou Arthur.
— “São Anjos Caídos, que no Delacroix estão a se banhar.” — adicionou Diana. — Você está na mira dos líderes. Isso ainda não é uma novidade. Tem mais alguma coisa por trás disso.
— Talvez não — Arthur contestou. — Talvez seja só isso o que eles queria dizer.
— Não, eu tenho certeza — disse Diana balançando a cabeça. — Tem algum significado escondido, sempre têm.
— Quem é o Grão Mestre esse ano? — perguntou Chloé, que parecia ter estado pensativa durante a discussão.
O Grão Mestre era a cabeça do Conselho, quem liderava o grupo. A cada ano, o cargo mudava para outro Líder. Arthur, que não se interessava por política, balançou a cabeça negativamente, já que não fazia ideia de quem fosse.
Mas Diana sabia.
— Airan Dufenald, o Líder dos feiticeiros — respondeu ela. — Mas o que isso tem haver com a discussão?
— Eu e Arthur o encontramos na biblioteca, agindo de um jeito estranho, como quando as pessoas fazem coisas erradas — ela olhou para o irmão buscando apoio.
— Ele desaparecia no meio da biblioteca — contou Arthur. — Nós o seguimos, mas ele me ameaçou. Depois Chloé viu quando ele desapareceu num corredor cheio de livros de...
— Poesias.— completou Chloé. — Acho que é essa a pegadinha dos centauros. Precisamos ir até lá.
— Por que vocês nunca disseram isso? — Diana perguntou.
— Achamos que não fosse importante — respondeu Chloé dando de ombros com um ar indiferente.
— Acho que agora é importante — concluiu Lívia.
— A gente pode ir lá amanhã de manhã dar uma olhada — sugeriu Arthur, olhando para Chloé ao seu lado. E ela assentiu. — Certo então, amanhã vamos para a Biblioteca ver o que descobrimos.
***
Arthur apertou a campainha do apartamento de Narcisa, que ficava em um prédio luxuoso em Manhattan. Estava sinceramente confuso com o que teria feito com que a feiticeira saísse dali para um bar no Brooklyn. O que interrompeu seus pensamentos foi quando a porta se abriu e ela apareceu, estava sorridente do lado de dentro.
— Pontualidade britânica — disse ela. — Gosto disso.
Arthur retribuiu com um sorriso.
— Boa noite.
— Entre — convidou ela, chegando para o lado pra abrir caminho para ele.
Ele atravessou a porta e ela a fechou. Estava quente no interior do apartamento e Arthur tirou um dos casacos, o deixando pendurado em um cabideiro no canto. Quando voltou a olhar para Narcisa, ela estava de frente para um espelho, que ia do chão até o teto, arrumando o próprio cabelo.
Na primeira vez que a viu, ela usava calça e um longo casaco, mas agora abriu mão disso por um vestido preto, justo e curto.
— Quase me esqueci que vocês faunos não comem carne — disse ela, o olhando pelo reflexo no espelho —, mas ainda bem que me lembrei desse detalhe a tempo. — Ela se afastou para o canto onde ficava a cozinha, e contornou o balcão que a separava da sala, estalando os saltos no chão enquanto andava.
Narcisa abriu um armário no alto e retirou uma garrafa de dentro dele.
— Aceita? — perguntou ela balançando-a em direção a ele.
— Pode ser — respondeu ele enquanto se sentava em um banquinho e apoiava os cotovelos no balcão. — O que vocês feiticeiros tem com vinho?
— É uma bebida antiga, cheia de história e muito sofisticada — respondeu ela de costas, enquanto servia a bebida em taças. — Como nós feiticeiros, não acha?
— Se você diz.
Ela se virou para ele e sorriu enquanto entregava o vinho para ele. Ele provou, e era forte e adocicado.
— Conhece muitos feiticeiros? — ela se sentou no banco do outro lado do balcão, de frente para ele.
Arthur considerou.
— Alguns, mas geralmente não muito proximamente.
— Você é o filho de Arthur e Cecília, não é?
Ele a olhou surpreso.
— Conheceu meus pais?
— Não muito proximamente — ela respondeu e bebeu um pouco do próprio vinho — mas não foi difícil adivinhar, você é a cara do seu pai.
— Sempre me dizem isso — disse Arthur sorrindo e bebeu uma quantidade considerável do vinho antes de responder, mesmo sabendo que não devia estar bebendo sem ter comido nada antes, e estava rapidamente começando a se sentir mal.
— Aposto que sim — ela disse, girando o conteúdo dentro da taça — Ele era absolutamente lindo, e você também é.
— Obrigado — disse Arthur apertando os olhos involuntariamente. Narcisa estava começando a parecer meio borrada. Sua garganta estava seca e ele bebeu mais um pouco.
— É bem claro o que Diana vê em você.
Arthur estatelou. Olhou para o vinho em sua mão, seu braço estava trêmulo e parecendo pesado. Mas não só isso, uma dormência parecia estar se espalhando pelo seu corpo, e sua visão parecia ainda mais borrada. Jogou a taça bruscamente no chão e só ouviu o barulho quando ela se estilhaçou.
— O que você colocou nisso?
Ela gargalhou, e o apartamento parecia muito escuro agora, Arthur tentava se segurar firmemente ao banco onde estava sentado.
— Eu acho adorável como vocês faunos sempre confiam nas pessoas. É uma pena que esse seja o ponto fraco de vocês. Sempre tão ingênuos.
Arthur ouviu quando ela estalou os dedos. E depois não viu e nem ouviu mais nada.
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