1. In Vino Veritas (p.1)

A sensação foi a mesma de quando você sonha estar caindo.

Lívia acordou assustada quando sua cama desmontou. Ainda estava sonolenta e levou cerca de um minuto para perceber o que estava acontecendo ao seu redor. O casebre de madeira em que morava estava queimando. Podia enxergar pouco, devido a quantidade de fumaça, mas ainda assim viu que as paredes desmanchavam e o teto começava a ceder por conta chamas que se apossavam de todo o lugar, formando o que literalmente poderia se chamar de um inferno na Terra. O colchão e sua cama já viravam cinzas, o quarto que antes era mal iluminado, agora brilhava com o fogo.

Ao olhar para si mesma, a menina vê seu corpo semi nu sendo lambido pelas chamas, só restavam cinzas do que antes fora um velho vestido azul.
Lívia foi tomada por um terrível medo, poderia morrer. Queria gritar, mas de que adiantaria. Acalmou sua mente e pensou.

Ela sabia o que fazer.

A situação estava crítica, não haveria outra solução, mesmo que isso a esgotasse, ela não iria conseguir sair da casa em chamas, o que restava agora era torcer para dar certo, caso contrário, seria seu fim. Fechou os olhos e se concentrou, como havia aprendido em livros quando era mais nova.

Um filete de água entrou pela janela, um outro pelos buracos na madeira, um atrás do outro, cada um de um canto aos poucos aumentando o fluxo.
"Tem que funcionar" pensava Lívia.

A água agora se acumulava em torno da garota, cada vez em maior quantidade, e Lívia direcionava para as chamas com o intuito de acalma-las, inundando a casa.
Sentiu a cabeça rodar, mas não podia parar agora, não seria o suficiente e ela morreria ali mesmo se desmaiasse, como acontecia quando usava intensamente seus poderes. Continuou invocando água de todos os lugares, esvaziando sua cabeça de tudo e se concentrando, aumentando o fluxo de água que entrava pelas frestas na casa e também a dor em sua cabeça.

Não demorou a para que sua visão escurecesse e Lívia desabou no que restava do chão, nua inconsciente e molhada.

* * *

Sir. Lancelot marchava floresta a dentro destemido, muito mais destemido inclusive, que seu cavaleiro, Arthur Paeon, que apesar de não ter medo dos animais, tinha um certo receio com relação à escuridão.

Parecia uma noite tranquila e comum de patrulha, a lua crescente não oferecia grande iluminação, mas Arthur, mesmo na escuridão, não demorou a perceber que algo errado acontecia.

Ao sul, erguia-se uma espessa cortina de fumaça que ativou imediatamente os instintos protetores do jovem Guardião da Fauna.

— Vamos lá, Sir. Lancelot — disse ele a sua montaria, seu fiel escudeiro. — Vamos descobrir o que acontece ali.

Atendendo ao pedido de Arthur, Sir. Lancelot rumou em direção à tal fumaça e em pouco tempo, chagaram ao local de sua origem. O que parecia um dia ter sido um pequeno casebre de madeira, agora era cinzas e destroços.

Arthur desmontou Sir. Lancelot, afagou o dorso do animal e se aproximou da casinha. Certamente havia sido queimada recentemente, mas estava totalmente molhada e o fogo completamente apagado.
Ele entrou com cuidado e andou pelos pequenos cômodos até chegar onde antes deveria ser um quarto, parando abruptamente diante da imagem que via ali.

Sobre o as tábuas quebradas do chão, havia uma menina desmaiada e completamente despida. Arthur ajoelhou se à seu lado e pressionou os dedos em seu pescoço.

Havia uma fraca pulsação e ele agora notava que seu peito subia e descia lentamente. Um calor febril irradiava de sua pele.

Arthur puxou a mochila que estava em suas costas e tirou uma calça e uma de suas camisas para vesti-la. Em seguida, com o mesmo cuidado com que tratava de um animal ferido, pegou-a no colo e a carregou para fora dos escombros.

Andou com a moça em seus braços para afastar-se da casa, Sir. Lancelot o seguiu, quando achou que estava em uma distância segura, depositou-a, ainda inerte, no chão. Ela estava com febre.

Tentou usar seu poder para baixar sua temperatura, tocando suavemente seu rosto e seu corpo, mas não estava funcionando, então molhou um retalho de tecido que tinha dentro de sua mochila e pôs sobre sua testa.

Preocupou-se em verificar se havia algum ferimento, mas para seu alívio ela parecia intocada.

Somente agora Arthur observava o quanto era bonita. Tinha uma pele clara, levemente rosada, o corpo comprido, sem muitas curvas, o cabelo estava molhado, e era ruivo e longo, com as pontas encaracoladas que cobriam parte de seu rosto.
Seu rosto tinha traços suaves, mas sua aparência em um todo era delicada e forte ao mesmo tempo. Arthur ficou encantado pela beleza da moça.
Já era tarde, resolveu dormir ao lado dela, deitou-se e observou seu rosto até o sono o levar.

* * *

Lívia acordou com o corpo inteiro dolorido. A luz do sol queimava seu rosto, estava deitada no chão. Olhou para o lado e se assustou.

— Quem é você? — Foi o que disse ao ver um rapaz sentado ao seu lado, a observando.

— Me chamo Arthur Paeon, como está se sentindo? — disse ele. Tinha a pele um pouco morena, queimada pelo sol, talvez, cabelos negros como meia noite e olhos verdes brilhantes. Com um ar despreocupado, como de alguém que não tivesse que lidar com muitos problemas.

— Um pouco dolorida, mas estou bem. Como vim parar aqui?

— Encontrei você nos destroços de um casebre aqui bem perto.

— Oh meu Deus! — Lembrou-se de ter acordado em meio a chamas, na casinha de sua tia... Destruída. Um nó se formou na garganta — A casa da minha tia.

Ele a olhou compreensivo.

— Fique calma, qual é seu nome? — Perguntou Arthur.

— Lívia, Lívia Hervon.

— Você se lembra do que aconteceu?

— Não sei direito, eu estava dormindo e acordei derrepente com minha casa em chamas. — Ela falava com cautela, já bolando como omitir a forma como apagou o fogo — Ehh... Acho que entrei em pânico, desmaiei... Ou talvez tenha sido a fumaça...

— Que estranho, quando cheguei, a casa estava toda úmida. Quem apagaria o fogo e te deixaria lá dentro? — Questionou Arthur intrigado. — Esqueci de perguntar, Você está com fome?

— Oh, acho que sim — respondeu e riu.

Arthur sorriu de volta e pegou uma mochila, dela tirou pão, algumas frutas e duas garrafas prateadas, uma com tampa vermelha e a outra preta.

— Você vai ficar bem se eu sair pra procurar lenha? — perguntou ele. Lívia assentiu. — Tudo bem, então é o que eu vou fazer enquanto você come. Na preta tem café e na vermelha água, sinta-se a vontade para comer o que quiser — disse e sorriu levantando-se. — Não saia daqui, eu não demoro.

Arthur subiu no dorso de um cavalo negro, no qual Lívia ainda não havia reparado. Flagrou-se o admirando enquanto se afastava. Era um rapaz realmente bonito.

* * *

Arthur estava desconcertado. A lembrança dos olhos azuis de Lívia não saia de sua cabeça. Ela era uma graça.

Estava distraído e levou mais tempo do que o normal para colher algumas frutas e juntar lenha para esquentar a comida. O que o fez lembrar que teria que voltar pra casa pra se reabastecer de suprimentos.

Teria que levar Lívia. O pensamento o fez sorrir. Ela parecia extremamente agradável.

"Tão linda..." pensou, e em seguida balançou a cabeça para afastar a imagem do rosto da garota, lá estava ele novamente se distraindo.

— Meu fiel escudeiro, acho que seu cavaleiro está ficando maluco — disse para seu cavalo, subindo em seguida em seu dorso e rumando de volta ao lugar onde deixará a garota.

* * *

Lívia ja estava terminando seu lanche quando viu que Arthur estava de volta.

Ele chegou e se aproximou para por a mão em sua testa.

— Meu Deus, vc ainda está com febre! — disse alarmado — Você está sentindo alguma coisa?

Vendo que ele estava preocupado, respondeu:

— Não sinto nada.

Ele ainda parecia tenso, então acrescentou:

— Eu estou bem, Sr. Paeon.

Ele riu e enfim pareceu relaxar.

— Pode me chamar de Arthur, de onde eu venho as pessoas não tem toda essa formalidade.

— Tudo bem, Arthur.

— Bem melhor assim — brincou. — Ainda tenho comida para o almoço, que precisa ser esquentada, mas temos que ir até minha casa mais tarde se quisermos jantar.

Lívia assentiu e Arthur juntou a lenha que havia trazido, catou uma caixa de fósforos da mochila e começou a tentar acender o fogo. Para o desespero de Lívia não demorou a conseguir.

Ao ver as chamas, a garota entrou em pânico. Lembrou da casa de sua tia queimando e do medo de morrer. Perdendo a noção de que era apenas uma fogueira pequena, Lívia invocou água e usou para extinguir o fogo.

Arthur a encarou, atônito.

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