Capítulo Cinco
Victor Decker:
Caroline nos arrastou pela cidade até que finalmente paramos em frente a uma elegante loja de roupas. Meu reflexo no vidro da vitrine parecia quase fantasmagórico. Dentro da vitrine ampla, um manequim posava com graça, dando um meio passo com a cabeça levemente inclinada para o lado, como se estivesse escutando uma melodia apenas sua. Seu torso esbelto estava envolto em um suéter de listras largas que acentuavam sua elegância, enquanto suas pernas desapareciam dentro de botas de cano alto que chegavam até os joelhos. Uma das mãos do manequim estava erguida, os dedos cuidadosamente presos à gola de uma jaqueta que pendia casualmente sobre um ombro.
À medida que eu observava o manequim, percebi que Caleb estava imitando a pose com precisão surpreendente, mudando sua postura e inclinando a cabeça de maneira semelhante. Talvez fosse por isso que algumas pessoas que passavam olhavam em nossa direção e soltavam risadas.
— Parece que alguém aqui nunca viu um manequim antes — Caroline brincou, divertida e um pouco compadecida. — Melhor nós irmos logo.
— Por que diabos você está comprando roupas para mim? — Caleb perguntou com uma rispidez perceptível em sua voz.
— Quero gastar meu dinheiro, e vocês serão os "bonecos" reais que eu precisava durante toda a minha vida — Caroline respondeu com um sorriso travesso. Caleb a encarou com uma expressão confusa. — Estou brincando, só acho que seria bom usar algo decente. Além disso, minha mãe sempre diz para prestar atenção no que você tira dos cabides nas lojas quando compra roupas.
Dessa vez, fui eu quem riu, percebendo que Caroline tinha um jeito único de fazer as coisas. Enquanto seguimos para dentro da loja, estava claro que essa tarde de compras com ela seria repleta de surpresas e risos.
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O interior da loja envolvia-me em um aroma de velas nunca acesas e roupas que nunca tinham sido usadas. Deslizei meus dedos sobre as peças de algodão e seda antes de encontrar um suéter de tricô listrado, que se revelou ser de caxemira. Caroline o pôs no braço, juntamente com várias outras roupas que ela havia selecionado.
— Caroline Wood! — uma vendedora animada saudou, era uma jovem de vinte e poucos anos, com um sorriso amplo que se aproximou de nós. — Veio com dois amigos hoje, em que posso ajudar?
— Ah, está tudo bem — Caroline respondeu, pegando um par de botas de uma prateleira e entregando a Caleb. — Já encontrei tudo o que preciso, pode ajudar meus amigos. — Ela conduziu a garota até as três cabines fechadas por cortinas no fundo da loja.
— É só me chamar se precisar de ajuda — disse a vendedora, afastando-se antes que a cortina se fechasse. — O que os senhores desejam ver?
— Encontre a melhor roupa para esse rapaz estiloso — falei, e os olhos da vendedora se iluminaram. Depois, me afastei enquanto ela arrastava Caleb em direção às roupas.
De repente, esbarrei em um rapaz ruivo, congelei e me desculpei rapidamente. Ele se afastou, mas era impossível não notar a semelhança com Puck. Ou melhor, Robin Goodfellow, como ele era conhecido em "Sonho de Uma Noite de Verão". Puck tinha outro nome, um nome humano pertencente a um menino ruivo. Robbie Goodfell, como ele se chamava quando o conheci, tinha sido meu amigo, confidente e a pessoa por quem meu coração se apaixonara. Sempre cuidadoso comigo desde que nos conhecemos.
Robbie era desinibido, sarcástico e, de alguma forma, superprotetor. Ele era diferente, e pensar nele me lembrava das palavras de Ambres.
Toda vez que ele sofria por causa do meu encanto, ele chamava por Ambres, e naquele momento, ele não pensava em mim nem por um segundo. Era como uma lâmina atravessando meu coração. Ambres afirmava que ele não se importava comigo, o que fazia sentido, pois o povo de NeverNever usava os mortais sem se preocupar com seus sentimentos. Tenho quase certeza de que Puck não se importaria com o que sinto por ele, lembrando de todas as vezes em que ele falava de Megan Chase e do encanto que sentia por ela e da proteção que tinha em relação ao jeito dela.
Empurrei esses pensamentos para o fundo da minha mente até que voltei a me concentrar quando pensei em Puck novamente.
Voltei minha atenção para as roupas e escolhi uma camiseta e um par de calças jeans, experimentando-as.
Olhando para o meu reflexo, percebi que estava muito parecido com o meu eu anterior, embora houvesse algumas diferenças. Inclinei a cabeça, esperando ver a minha versão feérica que eu tinha visto na Corte Iron, mas o espelho refletiu o mesmo rosto de sempre, sem nenhuma transformação mágica.
Saí da cabine com cortinas, ainda vestindo minhas roupas antigas e segurando as que eu tinha experimentado.
— Victor, como ficou? — Caroline perguntou animada enquanto aparecia carregando enormes sacolas. — Digo que compro tudo o que vejo. Vai levar essas?
— Não tenho dinheiro — falei, e ela riu.
— Eu compro, mas você vai me dever. — Caroline disse, e eu balancei a cabeça. — Aceite como um favor e me pague quando tiver dinheiro.
— Provavelmente será difícil pagar de volta — falei, mas ela insistiu. — Está bem, vou dar um jeito de te pagar.
— Não foi tão difícil aceitar! — Caroline falou animada. — Agora, onde está o Caleb?
Caleb apareceu do provador usando roupas modernas e olhou para nós com total desaprovação.
— Odeio todas essas roupas — ele resmungou. — Posso ficar com as minhas.
— De jeito nenhum, suas roupas estão um desastre. — Caroline falou.
— Ainda posso usá-las por um tempo — Caleb insistiu, mas Caroline balançou a cabeça e o fez jogar as roupas antigas.
Suas roupas eram desgastadas, revelando sinais de desgaste de uma maneira que eu não conseguia descrever.
— Vou levar todas as que comprei e as duas de vocês — Caroline disse à vendedora.
Entre as transações de pagamento e as sacolas empilhadas, só percebemos quando Caleb, que estava claramente frustrado, saiu correndo para longe.
— Caleb! — gritei, e ele desapareceu nas sombras. — Será que devemos ir atrás dele?
— E me diga para onde ele está indo? — Caroline perguntou, franzindo a testa. — Ele também não conhece muito da cidade, logo voltará para o apartamento.
Saímos da loja, cada um de nós carregando sacolas repletas, e olhei ao redor.
— Posso dizer que não tenho muitos amigos. — falei, e Caroline me olhou surpresa.
— Tenho muitos amigos — ela começou e então parou, avaliando-me. — Mas nenhum deles é verdadeiro. Dizem que sou um pouco louca, pois às vezes faço coisas que não são consideradas normais, e as pessoas não gostam disso ou têm medo. Para ser honesto, me diverti mais hoje com você e Caleb do que jamais me diverti antes.
— Pessoas estranhas têm que se unir. — falei, e ela riu. — Você encontrará pessoas que não sentem o mesmo.
— Você encontrou? — Caroline perguntou, chamando um táxi.
— Para ser sincero, já encontrei ótimos amigos, mas acabei estragando tudo no final. — falei, sendo sincero. — Fiquei tão frustrado que deixei minhas inseguranças e medos dominarem, destruindo essas amizades.
— Você pensa em recon
struir essas relações quando tudo isso acabar? — Caroline perguntou.
— Se tiver a oportunidade, sim. — respondi.
Caroline levantou a mão novamente ao ver um táxi se aproximando. O táxi parou, abrimos a porta e entramos no banco traseiro forrado de plástico. A porta bateu, e o táxi partiu.
Dentro do táxi, a conversa continuou enquanto a cidade passava rapidamente pela janela.
— Talvez, depois de tudo isso, eu deva me dar uma segunda chance — murmurei, mais para mim mesmo do que para Caroline.
Ela acenou com a cabeça, compreendendo o dilema que eu estava enfrentando. Caleb, que se sentava ao meu lado, parecia imerso em pensamentos silenciosos.
— Às vezes, as segundas chances são as melhores chances que temos — Caroline disse com sabedoria. — Todos cometemos erros, todos temos nossos momentos de fraqueza. O importante é aprender com eles e seguir em frente.
Caleb concordou com um aceno lento da cabeça, como se a ideia estivesse começando a fazer sentido para ele.
O táxi finalmente chegou ao nosso destino, e pagamos ao motorista antes de sair. Estávamos de volta ao nosso apartamento temporário, e Caleb pareceu mais à vontade agora, mesmo usando as novas roupas que Caroline havia comprado para ele.
Caroline se aproximou de mim e de Caleb, seus olhos brilhando com determinação.
— Vou ajudar vocês a descobrir o que está acontecendo com a magia, com os portais e com tudo o mais — ela declarou. — Sei que algo está errado e que vocês precisam de respostas. E, bem, não tenho muitos amigos verdadeiros, como disse antes, então não tenho nada a perder.
Caleb e eu trocamos olhares e assentimos, agradecidos por termos encontrado alguém disposto a nos ajudar em nossa missão aparentemente impossível.
— Obrigado, Caroline. — falei sinceramente. — Você é mais corajosa do que parece, e sua ajuda significa muito para nós.
Ela sorriu e deu de ombros.
— Estamos todos nisso juntos, não é? Agora, vamos descobrir o que está acontecendo com a magia deste mundo e como podemos consertar as coisas.
Com nossas determinações renovadas, entramos no apartamento e nos preparamos para enfrentar os desafios que estavam por vir. Juntos, com coragem e esperança, embarcamos em uma jornada rumo ao desconhecido, com a certeza de que não importava o que encontrássemos, estaríamos unidos para superar qualquer obstáculo que o destino colocasse em nosso caminho.
Então Caleb saiu novamente e fiquei ao lado de Caroline conversando, acho que nunca me senti tão normal.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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