Capítulo Seis

Victor Decker:

Dentro do turbilhão da minha mente atormentada, uma batalha silenciosa se desenrolava, enquanto a agonia do veneno se espalhava impiedosamente por meu corpo. Eu me debatia na cama, aprisionado em um delírio febril, assombrado por pesadelos insuperáveis. Os lençóis da cama, agora retorcidos ao redor de mim, estavam completamente encharcados de suor, e meus cabelos grudavam nas têmporas, como testemunhas mudas da minha tormenta.

Um tremor violento percorreu meu corpo novamente, como se algo gélido e sinistro fluísse por minhas veias. Era como se eu estivesse afundando em um abismo profundo dentro da minha própria mente. Então, num sobressalto, abri os olhos e me vi sentado na minha escrivaninha, que estava ali no quarto, imerso na pesquisa que fazia no computador sobre a palavra "magia" e "fadas".

A imagem diante de mim estava distorcida, como se estivesse lutando para manter a coesão. Pisquei os olhos várias vezes, tentando dissipar a estranheza, antes de finalmente desligar o computador. Foi exatamente nesse momento que a porta do quarto se abriu, e minha mãe entrou.

— Podemos conversar? — perguntou, sentando-se na minha cama.

— Claro — respondi, virando-me para encará-la nos olhos. Entretanto, uma sensação estranha percorreu meu ser quando percebi que seus olhos, assim como os meus, eram castanhos, mas estavam sendo obscurecidos por algo negativo que parecia emanar de dentro deles.

— Pai do Mark ligou para casa — ela disse, soltando um suspiro. — Você deve saber o motivo, não é?

— Sim, eu sei o motivo da ligação — admiti, desviando o olhar do dela. — E não me arrependo do que aconteceu. Aqueles idiotas mereciam um pouco de suco, tanto na casa quanto neles mesmos. — Minha mãe balançou a cabeça, perplexa.

— Por que você fez aquilo? — perguntou, tentando encontrar meu olhar. — Me diz o que está acontecendo com você. — Ela terminou a pergunta com lágrimas nos olhos.

— Eu sempre fui assim — respondi, desviando o olhar para a tela do computador. De repente, me assustei ao ver a imagem de um garoto de cabelos ruivos e olhos verdes na tela. Levantei-me da cadeira da escrivaninha e fui até a porta do quarto, colocando a mão na maçaneta.

— Para onde você está indo? — perguntou minha mãe, chorando e sua imagem ficando ainda mais distorcida do que antes que pisquei os olhos e pareceu piorar tudo que estava vendo.

— Vou embora — declarei, abrindo a porta. — E você nunca se importará, não é?— Ela balançou a cabeça em negação.

— Por que? — sussurrou.

— Porque não sou Brian, a pessoa perfeita — expliquei. — Eu quero uma vida onde ninguém me prenda à imagem de outra pessoa. — Atravessei a porta e me vi de repente no refeitório da escola.

— Como vim parar aqui?— Murmurei, olhando ao redor, vendo que estava completamente vazio, exceto por mim. — O que está acontecendo?

Pisquei os olhos e, de repente, vi Mark sentado na mesa do fundo do refeitório. Algo inexplicável me impeliu a me aproximar dele e, sem entender por que, me sentei em frente a ele.

— Por que você destruiu nossa amizade?— , perguntou Mark, olhando intensamente para mim e me analisando. — Para onde você está indo?

— Porque não sabia se nossa amizade era real ou falsa — respondi, suspirando e baixando a cabeça. — E estou aqui na sua frente, não sei por que quer saber onde estou.

Mark balançou a cabeça, frustrado.

— Por que você pensou isso? — perguntou, abandonando sua segunda pergunta. — Eu sempre estive ao seu lado o tempo todo. Por que agora?

Balancei a cabeça e devolvi a pergunta com outra pergunta.

— Por que você é meu amigo? Por que nos tornamos amigos no início? — Estreitei os olhos, esperando sua resposta.

— Nós nos tornamos amigos porque eu vi você como você realmente é— , respondeu Mark, olhando profundamente nos meus olhos. Eu queria acreditar, mas algo dentro de mim ainda resistia, como se tudo fosse uma ilusão.

— Agora, responda a verdade para mim!— Mark pediu. — Por que você destruiu nossa amizade?

Afastei-me um pouco, e Mark perdeu o foco de repente, o que me surpreendeu.

— Não consigo dizer— falei, sentindo as lágrimas ardendo nos olhos. Mark perdeu completamente o foco e vi duas imagens de Mark à minha frente: uma me encarava com raiva, a outra chorava e tentava segurar minha mão desesperadamente.

— Você deixou o ciúme que tem do seu irmão destruir o único laço que você tinha com alguém que se importava com você — disse o Mark furioso, levantando-se e indo embora. Olhei para o segundo Mark, que parecia me chamar e chorava, e no momento seguinte ele desapareceu como uma ilusão. Fiquei sozinho no refeitório, aceitando a dor que vinha com as lágrimas.

Uma luz azul irrompeu e consumiu tudo ao meu redor, inclusive eu, enquanto eu chorava.

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Abri os olhos com um sobressalto, encontrando-me deitado no coração de uma densa floresta. Minhas mãos instintivamente foram até o rosto, em busca das lágrimas que antes inundavam minhas bochechas, mas elas haviam desaparecido como se nunca tivessem existido.

— Tem alguém aqui? — gritei com uma voz trêmula, ecoando entre as árvores, enquanto começava a me levantar. Iniciei uma caminhada sem rumo pela floresta, constantemente perguntando se havia alguém naquele lugar sombrio. A incerteza me consumia, fazendo-me sentir perdido.

Foi então que meus olhos capturaram uma figura envolta em um capuz cinza, observando-me a alguns metros de distância.

— Olá, você pode me ajudar? — implorei, esquecendo-me de verificar a identidade da misteriosa presença. — Quem é você?"

Decidi me aproximar da figura, que permanecia imóvel. No entanto, assim que me aproximei o suficiente, ela se virou abruptamente e saiu correndo. Minha única opção era correr atrás dela, gritando para que ela parasse. A figura de cinza não se parecia mais com um ser humano; sua velocidade era sobrenatural, como se fosse uma mistura de todos os animais mais rápidos do mundo.

Nossa corrida nos levou para fora da floresta, revelando um vasto campo diante de nós. Em um piscar de olhos, nos encontramos subindo uma colina íngreme, a figura à minha frente mantendo uma distância constante. Quando ela alcançou o topo da colina, deu um salto para o outro lado, e sem hesitar, dei um impulso final e pulei atrás dela.

Nesse momento, um brilho azul intensamente mágico irrompeu ao nosso redor, envolvendo-nos em um lampejo de energia. Senti meus pés tocarem o chão de forma diferente, como se tivessem sido transportados para um lugar desconhecido e cheio de mistério.

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Fixei meus olhos no chão que se estendia à minha frente, mas uma estranheza me acometeu: não conseguia identificar a cor do solo, pois ele se apresentava em uma tonalidade negra e desolada, assim como tudo ao seu redor. Era como se este lugar tivesse sido privado de alegria por séculos, abrigando apenas ódio, raiva e os vestígios de uma guerra interminável.

— Que lugar é esse?— Perguntei a mim mesmo.

Sacudi a cabeça, afastando os pensamentos sombrios, e iniciei uma corrida frenética em busca da figura encapuzada que me trouxera até ali. Enquanto eu me movia, minha visão capturava detalhes aterradores do ambiente ao meu redor. Árvores distorcidas e contorcidas, cujos ramos pareciam lançar sombras sinistras. O solo era negro como o céu noturno em uma noite sem lua.

De repente, sem aviso prévio, perdi o equilíbrio e caí no chão. Ergui a cabeça atordoado e me deparei com uma pedra negra. Sentei-me no chão e, como se fosse um personagem misterioso de uma história de fantasia, a figura encapuzada materializou-se diante de mim. Levei um susto e quase rolei para o lado, mas me recompus rapidamente e aceitei a mão estendida para me ajudar a levantar.

Quando finalmente estava de pé, endireitei minha postura, mas desta vez a figura encapuzada não desapareceu abruptamente. Em vez disso, permaneceu ao meu lado como uma estátua silente.

— Quem é você? — perguntei, curioso e desconcertado ao mesmo tempo. Para responder, a figura abaixou o capuz, revelando o rosto de Zack, agora com a aparência de um adolescente de dezesseis anos, a minha própria aparência. Afinal, Zack sempre fora uma cópia minha quando criança, por que seria diferente na adolescência? A única diferença notável eram seus cabelos, ligeiramente mais escuros que os meus.

— Zack, o que você está fazendo aqui?— questionei, temporariamente esquecendo da pergunta mais crucial: — Onde é este lugar?

Ele me encarou com olhos cheios de dor e tristeza, respondendo num sussurro sombrio:

— O futuro dos mundos.

Zack então desabou no chão diante de meus olhos, e meu desespero cresceu enquanto eu me agachava para verificar seu estado. No entanto, antes que eu pudesse compreender completamente a situação, Zack simplesmente desapareceu.

Recuei assustado e, em segundos, ouvi uma voz ecoando ao meu redor:

— Este será o destino dos mundos, a menos que o Anjo das Sombras reivindique seu poder! — A voz foi acompanhada por uma dor agonizante que se espalhou por todo o meu corpo, me fazendo cair no chão.

— O que está acontecendo comigo? — gritei em agonia, sentindo as lágrimas formarem um ardor por trás dos olhos. Uma enxurrada de memórias inundou minha mente, desde os primeiros passos de Zack até os momentos especiais com Mark, meu emprego no restaurante e todas as memórias felizes que acumulei. — Não, é demais para mim — murmurei enquanto a dor aumentava.

Então, uma voz ressoou de todos os lugares e lugar nenhum ao mesmo tempo:

— Você consegue, lute!

— Não, eu não consigo — respondi, sentindo um aperto em minha mão.

— Você consegue! — As palavras ecoavam, agora vindas de vozes familiares, de Mark, Zack, minha mãe e pai, até mesmo do idiota do Brian e de todas as pessoas que haviam tocado minha vida.

— Você consegue! — As vozes insistiam.

Com esforço, comecei a me levantar lentamente, mas logo caí de joelhos, a dor se intensificando.

— Você consegue!— as vozes continuaram a me encorajar.

Então, a voz de Robbie se juntou ao coro.

— Volta para mim! Você consegue!

Determinado, levantei-me novamente, olhando ao redor para este cenário retirado de um pesadelo. Não vou permitir que isso aconteça, então me coloquei de pé entre o caos ao mesmo tempo que um brilho azul surgiu e tudo desapareceu à minha volta, enquanto a luz nos consumia.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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