Capítulo Cinco
Victor Decker:
Após aquele fatídico dia em que minha amizade com Mark foi irremediavelmente destruída, os dias se arrastaram com um peso sombrio sobre meus ombros. Alguns olhavam para mim com olhares carregados de ódio e raiva, e se pudesse, fugiria daquela escola o mais rápido possível.
O que mais me surpreendeu foi a maneira como até mesmo os professores e outros funcionários da escola lançavam olhares reprovadores na minha direção. A única exceção era Robbie, que permanecia ao meu lado constantemente, enfrentando aqueles olhares hostis com um semblante ainda mais desafiador.
— Não acredito que estão olhando para você assim por causa do Mark— Robbie comentou, observando o corredor repleto de alunos e alguns funcionários que me encaravam com expressões terríveis.
— Sim, o Mark é o aluno favorito de toda a escola— murmurei, soltando um suspiro de frustração enquanto abaixava a cabeça.
— Tenho uma ideia, vem comigo— disse Robbie, puxando-me pelo corredor em direção à saída da escola.
— O que você vai fazer?— perguntei, perplexo, enquanto observava que ele se dirigia à floresta próxima à escola, tentando adivinhar suas intenções.
Ele nos levou ao centro da floresta e me fez sentar em um tronco ao seu lado. Abri a boca para indagar o que ele estava planejando, mas ele prontamente colocou um dedo entre meus lábios.
— Apenas espere um pouco— disse Robbie, voltando seu olhar para as árvores. — Você está ouvindo?
Removi o dedo dele dos meus lábios e, enquanto me concentrava, comecei a perceber um doce som, a melodia da natureza. Era uma música serena que me fazia sentir mais tranquilo, e à medida que me concentrava nela, tudo ao meu redor parecia acalmar-se também.
— Estou ouvindo agora — admiti comum sorriso se formando em meus lábios.
— Eu sabia, não é uma melodia linda? — perguntou Robbie.
—Sim, é verdadeiramente linda — respondi, enquanto meus olhos percorriam a beleza da floresta ao nosso redor. Contudo, meus olhos se fixaram na sombra de uma árvore, onde percebi a aparição de um sorriso malicioso e olhos azuis que lembravam tempestades.
Pisquei rapidamente, e o sorriso e os olhos desapareceram. Olhei para Robbie, que se virou para mim, sorrindo, e senti minha calma retornar, esquecendo o que tinha visto.
— Está se sentindo mais calmo agora?— perguntou Robbie.
— Sim, este lugar me acalmou — respondi, colocando minha mão sobre o tronco. Robbie segurou minha mão, apertando-a, o que só intensificou a sensação de calma.
— A natureza sempre acalma — disse Robbie, e ambos sorrimos, apreciando a serenidade daquele momento.
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Depois daquele momento encantador com a suave melodia da floresta, que conseguiu acalmar minha alma inquieta, eu ignorei os olhares curiosos e desatentos dos meus colegas de sala, mas um pressentimento sombrio continuava a pesar no meu peito como uma nuvem ameaçadora no horizonte.
Ao término da aula, eu segui diretamente para casa, deixando minha mochila no meu quarto, pois tinha uma parada importante pela frente: uma visita ao restaurante onde algo estava prestes a acontecer. Eu repeti o mesmo trajeto habitual, embarcando no ônibus e seguindo até o meu destino.
Quando finalmente cheguei ao restaurante, agradeci a todos por me tratarem com normalidade. Fiquei surpreso e aliviado ao perceber que nenhum funcionário olhava para mim com desprezo ou ressentimento. Era um alento para o meu coração, uma indicação de que talvez as coisas estivessem se acomodando, e decidi começar meu trabalho. À medida que a noite avançava, eu mantive a esperança de que tudo se encaminharia bem.
No entanto, quando o relógio se aproximava das oito da noite, a tempestade estava prestes a desabar sobre mim. Os responsáveis por trazer a confusão tinham nomes: Scott, Brian - meu próprio irmão -, e seus amigos, que, para mim, eram simplesmente uns babacas.
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Decidi atender aos clientes com um sorriso mais falso do que uma nota de três reais.
— Bem-vindos ao Summer Moon!— proferi com entusiasmo, embora tenha sido recebido com olhares assassinos e de desdém por parte de todos.
Não me importei com a hostilidade deles e continuei minha performance. —Aqui está o cardápio,— continuei, colocando-o com delicadeza sobre a mesa, enquanto aguardava pacientemente que fizessem seus pedidos. Pareceu uma eternidade até que todos, finalmente, optaram por uma porção de batatas fritas e uma jarra de suco de laranja.
Virei-me, fingindo ignorar os comentários maldosos de Scott.
— Tenho pena de você, Brian, por ter que conviver com ele — disse ele com veneno na voz.
— Por quê? — indagou um dos amigos de Scott.
— Porque ele é um babaca, deve ter sérios problemas mentais — retrucou Scott, provocando risadas na mesa.
Minhas esperanças de que Brian me defendesse foram frustradas quando ele disse: —Ele pode ser um babaca, mas nossa família só o suporta por pena, porque ninguém realmente se importa com ele.
Fiquei me perguntando o que eu fiz para ter um irmão assim e por que criei expectativas com ele.
As esperanças que eu tinha em relação a Brian desmoronaram com essas palavras. Dirigi-me à cozinha para entregar o pedido e esperei até que estivesse pronto. Quando finalmente ficou, levei os pratos de volta à mesa.
— Aqui está seu pedido!— anunciei, colocando a porção de batatas fritas na mesa com cuidado. — E aqui está sua jarra de suco,— acrescentei, mas, deliberadamente, derramei tudo sobre a mesa, encharcando os idiotas.
— Oh, seu desgraçado...— começou Scott, claramente irritado.
— Desculpe, não tenho pena de mim mesmo. Acho que são meus 'problemas mentais',— zombei deles com deboche.
Antes que eles pudessem retrucar ou me insultar, ouvi passos se aproximando por trás de mim. Era o dono do restaurante, o senhor Mendes, pai de Mark e tio de Scott, uma versão mais velha deles.
— O que está acontecendo aqui?— perguntou o senhor Mendes, examinando a cena. —Me explique, senhor Decker!
Eu estava prestes a abrir a boca, mas os idiotas falaram em uníssono.
— Demita esse idiota! — gritaram, e o único que não disse nada foi Brian.
Outros funcionários e clientes que testemunharam a cena pararam tudo o que estavam fazendo, aumentando ainda mais minha frustração.
O senhor Mendes voltou para mim, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, tomei uma decisão.
— Eu me demito! — gritei, as palavras reverberando para que todos ouvissem. — E tenho um presente para você, Scott.
Virei-me na direção de Scott e desferi um soco com toda a minha força. Os outros observadores ficaram chocados com a cena.
Arranquei o crachá e o joguei no chão, já que não precisaria mais usar o uniforme horrível do lugar.
— A bandeja! — exigiu o senhor Mendes.
— Com prazer! — respondi, atirando a bandeja que girou no ar antes de acertar o chão. — Ops!
Deixei o restaurante pela porta da frente sem olhar para trás.
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Decidi dar um breve passeio antes da chegada do ônibus, absorvendo a atmosfera noturna que envolvia o meu bairro. Depois, retornei ao ponto de ônibus e me acomodei, fixando meus olhos na escuridão que se estendia pela rua diante de mim.
Enquanto minha mente vagava.
— Se eu desaparecesse, será que alguém sequer notaria? — murmurei para mim mesmo.
A solidão pesava sobre mim naquela noite escura.
Então, lembrei-me de que guardara o desenho que Zack fizera no bolso das minhas calças. Era uma lembrança tangível da sensação de pertencer àquela pequena família.
—Por que isso tudo parece tão familiar? — perguntei, indagando a mim mesmo.
Nesse momento, um ruído próximo me fez saltar. Rapidamente, guardei o desenho na minha mochila e concentrei minha atenção na escuridão da rua, com sentidos alerta.
As sombras na rua começaram a ganhar contornos e, para meu horror, percebi três figuras encapuzadas de preto a poucos metros de mim. Lentamente, ergueram os rostos na minha direção, seus sorrisos sinistros ecoando como um presságio terrível. Instintivamente, dei um passo para trás.
— Quem são vocês? — perguntei, com o corpo trêmulo de medo.
As figuras pararam e uma delas abaixou o capuz, revelando uma mulher de cabelos brancos como a lua e olhos azuis intensos, que pareciam tempestades furiosas.
—Não tenha medo, criança— sua voz ecoou como o rugido de uma tempestade. — Viemos para ajudar você.
— Me ajudar? Eu não estou em perigo ou perdido— respondi, recuando mais um passo.
Ela sorriu para mim, exibindo dentes negros como a noite.
—Você não está em perigo— afirmou a mulher, —mas está perdido neste mundo sombrio e solitário, onde ninguém parece se importar com você.—
Fui tomado pelo medo paralisante, incapaz de encontrar palavras. Enquanto as figuras se aproximavam, eu recuava involuntariamente.
— Deixe-nos levá-lo para um lugar onde será amado por milhões— continuou a mulher, seu sorriso desaparecendo.
Elas começaram a se mover mais rápido em minha direção, enquanto eu me sentia preso no lugar, percebendo que uma forma negra envolvia meus pés, mantendo-me imóvel.
— Lamento, mas ele não irá com vocês — uma voz familiar soou atrás de nós.
De repente, dois javalis selvagens surgiram, lançando duas das figuras para longe. A mulher olhou furiosa para cima.
— Quem está aí? — ela gritou, espumando de raiva. —Revelem-se!
Do alto do ponto de ônibus, Robbie pulou entre mim e a mulher. Ele se virou para mim com um sorriso travesso.
— Quem é você? — a mulher exigiu.
— Você não reconhece Robin Goderfellow quando o vê? — Robbie perguntou, virando-se para encará-la. —Estou surpreso.
A mulher não respondeu, mas instantaneamente materializou uma espada em suas mãos e a apontou para Robbie.
— Não me importa quem você é — gritou ela. —Se não sair do meu caminho agora, vou matá-lo!
Aquela última ameaça aumentou ainda mais meu pânico.
— Eu não vou deixar isso acontecer — disse Robbie, retirando um punhal de sua bota.
— Assim será — respondeu a mulher e avançou com a espada erguida.
Robbie interceptou a lâmina no ar com seu punhal, fazendo a mulher recuar sob o peso do próprio ataque. Ele então cortou o braço que segurava a espada, mas isso não a deteve, pois ela continuou avançando implacavelmente.
A luta entre eles se desenrolou como uma dança sangrenta, com ambos atacando e se ferindo, mas nenhum deles disposto a ceder.
No auge da luta, alguém me levantou nos braços e eu estava prestes a gritar quando a pessoa cobriu minha boca com a deles. Senti um gosto de maçã e reconheci os olhos verdes de Robbie quando uma leve iluminação nos alcançou. Minha agitação se acalmou gradualmente enquanto ele afastava os lábios dos meus.
—Como...— comecei a perguntar, mas fui interrompido.
— Você está bem?— Robbie perguntou, estudando meu rosto. Eu assenti. —Era um impostor de Robbie lutando contra aquela mulher. Agora, temos que ir! O beijo foi para evitar que você gritasse.
Tinha outros jeitos de me calar ao invés de um beijo, mas não quis colocar lógica nesse tipo de situação.
Robbie se virou e correu dali rapidamente, muito antes de ouvirmos a mulher rugindo de raiva.
Olhei por cima do ombro de Robbie e vi a mulher sozinha. Em seguida, outra figura surgiu, com um arco e flecha apontados para Robbie.
Entrei em alerta máximo quando a figura disparou a flecha, que estava prestes a atingir as costas de Robbie.
— Não! — gritei, e uma explosão ocorreu.
Senti a força do impacto enquanto Robbie e eu éramos arremessados para longe, mas conseguimos pousar de pé. Robbie continuou a correr, e eu lutava para manter a consciência.
— Você ficará bem — Robbie disse, sua voz distante. —Não desmaie agora.
Tentei seguir seu conselho, mas a escuridão me envolveu, e acabei perdendo a consciência.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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