Perseguição

Alguns dias se passaram e finalmente chega dia 13. Nesse meio tempo minha relação com Matthew melhorou bastante, já não o sinto tão seco e ríspido. Há alguns dias nós fomos almoçar em um restaurante para debatemos mais alguns detalhes do nosso plano. Sem que eu pudesse perceber havia uma guia de um cachorro esticada que batia na altura da minha canela, fazendo com que eu tropeçasse e caísse no chão com o prato na mão. Matthew me olhou como se fosse me matar, porém ele respirou fundo e me ajudou a levantar. Confesso que não esperava uma atitude gentil dele, mas ao sentarmos na mesa ele voltou ao normal: começou a falar que eu era desatenta, distraída e atrapalhada, sendo rude do mesmo jeito de sempre. Eu fiquei calada, ouvindo ele falar o que quisesse para mim? Claro que não! Começamos a discutir até ele me pedir desculpas, outra atitude inesperada vindo de Matthew.

Ele pode ser meio bipolar, mas consegue enxergar seus erros e se redimir.

Desde o dia da aparição do meu ex-namorado, Matthew mostra-se bastante protetor comigo. Talvez isso se deve à possibilidade de Sam aparecer novamente em Angela, de qualquer forma isso me parece muito estranho e admito que me incomoda um pouco.

A aula da professora Dina, sendo um caso a parte, não está me prendendo a atenção. Todos os meus colegas, incluindo Eva, estavam concentrados na aula de Fundamentos de História. Hoje não está sendo um bom dia para mim, apesar de ter começado há poucas horas. Saber que dentro de pouco tempo estarei correndo perigo de morte, caso aconteça a pior das hipóteses, não me permite continuar concentrada e nem animada para assistir uma das minhas aula favoritas do semestre.

Me pego olhando para um passarinho azul que pousa no galho de uma árvore sala de aula afora, quando sinto meu celular vibrando. Ligo a tela e vejo a notificação com o nome "Matthew Patriota Insuportável", com uma mensagem de apenas uma palavra:

"Preparada?" 

Vejo o relógio do meu celular marcando 11 horas em ponto, o horário que combinamos de nos encontrar.

"Estou descendo. Me espera no estacionamento."

Ao chegar na entrada do prédio de Ciências Humanas, percebo que o dia está mais escuro em comparação ao momento que eu havia chego a universidade. O céu escuro e o sol coberto pelas nuvens negras apontam a possibilidade de chuva.

“Espero que não passa de algumas nuvens passageiras e que não chova de verdade”. - Penso preocupada.  

Já perto do chafariz, posso avistar Matthew parado em frente ao portão da universidade.

- Era para você estar no estacionamento. Menos pessoas podem nos ver. - Cumprimento-o e começamos a andar em direção ao parqueamento da universidade.

- De longe eu pude te ver saindo do prédio, então te esperei aqui mesmo. - Ele parece se importar cada vez menos com o fato das pessoas nos verem juntos. Desse jeito ele vai acabar perdendo o título de “Odiador de Estrangeiros”. Pela visão periférica, percebo que Matthew me observa dos pés a cabeça.

- O que é?

- Nada, só estou vendo que você realmente veio vestida adequadamente.

- É claro, você me disse que eles vão explorar uma caverna. É óbvio que eu viria propositalmente vestida com roupa esportiva e um tênis. Se algo acontecer e tivermos que fugir, não posso estar correndo de salto.

- Até que você pensou. - Seu modo de falar, se achando mais espertos que outros, me irrita.

Agora que Matthew tocou no assunto, percebo que está adequadamente vestido também. Hoje ele deixou todos os seus colares, anéis, pulseiras e suas roupas de couro de lado para usar um moletom gola alta com fechamento de zíper cinza, com uma listra branca e outra preta grossa no peitoral e calça comprida cinza lisa, ambos de algodão e um tênis preto com detalhes em azul persa.

- Pega. - Jogo a chave do meu carro, quando chegamos em frente do meu Opel Crossland X branquinho com teto preto.

As primeiras ações de Matthew é pular baixinho no assento, ficar apalpando o volante e dando toquinhos na marcha do carro, aparentemente ele está conhecendo o veículo que vai dirigir hoje.

- Se aparecer um arranhãozinho que seja no meu bebê, eu te mato. - Jogo minha bolsa no banco de trás e espero Matthew ficar pronto.

- Esse carro não parece muito diferente do meu. - Ele finalmente para de analisar o carro e decide girar a chave na ignição.

- Vamos em algum lugar barato, por favor. Minha mesada só vai cair semana que vem, portanto estou quase zerada.

Ele me olha com descrença.

- Do jeito que você é mimada, achei que dinheiro nunca fosse um problema para você.

- O que você está falando? - Sinto-me ofendida. - Em que momento eu te mostrei que sou uma pessoa endinheirada?

Ele me fita esperando que eu desse a resposta da minha própria pergunta.

- Tudo bem que eu moro numa casa grande, tenho um carro próprio e normalmente tudo o que eu quero. - Fico envergonhada ao entender as minhas próprias palavras. - Mas isso não quer dizer que eu sou uma pessoa mimada, mas sim que tenho boas condições. Você tem um carro apenas seu também, duvido muito que divida com os seus pais. - Pego-o de jeito com meu argumento.

- Eu não divido o meu carro porque não tenho com quem dividir. - A resposta de Matthew soa seca e sinto uma pontada de dor vindo dele.

Meu sentimento de esperteza rapidamente se transformou em arrependimento. Com certeza falei algo que não deveria.

- Não se preocupe, estou com pouco dinheiro também, então vamos em um restaurante mais em conta.

Em questão de meia hora almoçamos a fim de chegar logo na casa de Judith, julgando pela possibilidade dela sair mais cedo que o horário combinado.

- Então é aqui que ela mora? - De dentro do carro, analiso o pequeno prédio de apenas dois andares, simples e amarelo. Por conta do muro que há protegendo as limitações do prédio, não consigo ver com clareza se há pessoas no hall do edifício.

- São 12h10. - Ele olha seu telefone. - Agora é só esperar. - Matthew desliza um pouco no banco, cruza os braços e fecha os olhos.

- Você vai dormir? Como é possível que esteja tão calmo assim? - Olho para ele com um sentimento quase de histeria. Começo a balança-lo na intenção de não deixá-lo dormir.

- Não com você me balançando desse jeito! - Seu estado calmo muda celeremente.

- Isso é porque você se diz o defensor da cidade. - Digo desacreditada de sua atitude.

- Não tem mais nada que possamos fazer até ela aparecer e além disso você poderia me acordar quando ela estivesse saindo. - Matthew respira fundo e sua calma volta. - Que seja. Depois do sacode que você me deu, perdi até a vontade de dormir.

Mesmo dizendo tais palavras, minutos depois ele adormece tranquilamente. Diferente de todas as vezes que Matthew está irritado, carrancudo ou sério, é a primeira vez que eu o vejo com uma expressão serena no rosto. Sua respiração sibila, causando um leve som de ronco, que apenas quem o estiver observando ou perto dele irá perceber. Quero tirar uma foto dele dormindo para o chantagear sempre que me tratar mal, porém eu não consigo tirar os olhos dele, sua paz me prende. É surpreendente ver que Matthew baixou sua guarda perto de mim. Isso é um bom sinal, quer dizer que ele confia em mim. Um leve sorriso de canto aparece em meu rosto ao ponderar sobre tal pensamento. Aproximo minha mão de sua cabeça, a fim de afaga-la, porém ao pensar que ele pode acordar de repente e ficar irritado, eu desisto.

Quando a ficha cai e eu percebo em que lugar me encontro, fujo dos meus pensamentos e mantenho o foco ao prédio em minha frente.

O tempo passa e eu fico entre mexer no meu celular e observar a entrada do prédio, até que eu avisto a silhueta da mulher que vi na floresta atrás da minha casa e no baile. Ela chega em frente a um Renault Captur olhando para um lado e depois para o outro na tentativa de saber se alguém a observava. Preocupada, eu também olho ao redor e chego a conclusão que só há apenas Matthew e eu por perto. Ela entra no carro, então se passa um, três, cinco minutos e nada dela sair do lugar. A situação parece muito suspeita e decido acordar Matthew, sacudindo-o quase desesperadamente.

- Acorda, Matthew.

- O que aconteceu? Ela já saiu? - Ele acorda no pulo e quase gira a ignição ao me olhar atenta para o prédio.

- Não, mas ela está dentro do carro há um certo tempo. Isso é estranho.

- Porra, Charlotte! - Ele se joga no banco, aliviado. - Se ela já estivesse saindo, eu entenderia você me acordar desse jeito, mas puta que pariu, que susto! - Ele parece mais espantado do que irritado.

Ignoro completamente as palavras de Matthew e continuo olhando atentamente para o carro de Judith esperando qualquer movimento. Mais alguns minutos se passam e finalmente escuto barulho de um motor, quando o carro de Judith começa a sair de ré do estacionamento do prédio.

- Agora não há mais volta, espero que esteja prepara.

Engulo em seco e assento.

Quando o carro de Judith vira na próxima esquina, Matthew dá partida e começamos a perseguição. Matthew mantém uma distância segura do automóvel de Judith, sem levantar suspeitas. Em um certo momento minha preocupação veia à tona, começamos a nos distanciar da cidade e entramos em uma rodovia. Há poucos carros na estrada e para mim parece que está muito óbvio que estamos seguindo-a.

- Matthew, você não acha que está na cara que a estamos seguindo?

- O que a faz pensar assim? - Matthew me pergunta, olhando para o retrovisor do lado do passageiro para fazer a ultrapassagem e depois volta a nossa faixa inicial.

- Nós estamos mantendo uma distância muito longa e não estamos correndo como normalmente se faz em rodovias.

- Eu acho que você está ficando paranóica. Essa vida de espionagem não é para você.

Percebendo o quanto estou nervosa e aflita, sou obrigada a concordar com Matthew.

Depois de quase 30 minutos no encalço de Judith, percebo que o carro está começando a desacelerar. Olhando para frente, avisto o carro de Judith entrando em um estacionamento de um restaurante de estrada.

- Já sei em que caverna eles vão. - Matthew está com um olhar convencido, quase soberbo. - Explorei esse lugar muitas vezes quando era mais novo, conheço esse lugar com as palmas das minhas mãos.

Quando estamos entrando no estacionamento, Judith está saindo do seu carro que está estacionado no final do parqueamento. Decidimos estacionar mais longe possível dela, então nos mantemos no início do estacionamento. 

Judith entra no estabelecimento, ficando menos de um minuto e sai novamente com um saquinho na mão.

- Ela comprou algo para poder deixar o carro estacionado aqui. - Judith anda em direção á floresta, atrás do restaurante, até sumir em meio às árvores e plantas.

- A caverna é dois quilômetros floresta adentro, o solo é íngreme e desnivelado, então esteja preparada.

- Não se preocupe, isso não é um problema. - Eu digo isso, porém meu preparo físico é horrível. 

- Não confio nessas palavras. - Ele me olha com desdém. - Vamos, temos que comprar alguma coisa também.

Entramos no restaurante e vamos direto ao caixa. Assim como um restaurante de beira de estrada em meio da semana, há poucas pessoas no estabelecimento, apenas dois homens, ambos sentados em mesas diferentes, que eu julgo que sejam caminhoneiros, e os funcionários.

- Duas águas, por favor. - Matthew pede ao rapaz do caixa. 

- Matthew, você pode ser mais rápido, por favor?

- O cara foi buscar as águas.

- Vou te esperar lá fora. - Saio sem esperar a resposta de Matthew. Rapidamente o ambiente se tornou um lugar desconfortável para mim, aqueles dois homens estavam me olhando como se eu fosse um pedaço de carne. Esses tipos de homens são repugnantes.

- Tudo bem? - Matthew surge atrás de mim, me assustando.

- Está sim. Já podemos ir?

- Claro, quanto mais cedo chegarmos, melhor.

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