Mistérios
- Bom dia, Eva. - Cumprimento minha amiga e sento na cadeira em sua frente.
- Ah! - Ela parece distraída. - Bom dia, Charlie.
Um folheto em cima de sua mesa me chama a atenção.
- O que é isso? - Pergunto.
- É a programação para o nosso passeio. - Eva parece empolgada.
- Você já não conhece a cidade? Isto é realmente necessário? - Pergunto confusa.
- Tem pontos turísticos que fecham cedo e outros mais tarde, então organizei essa programação baseado no horário de cada estabelecimento para não ficarmos sem ver nada.
- Então tudo bem, se você acha melhor assim... - Paro de falar ao ouvir o ranger da porta.
- Bom dia, jovens. - Vejo uma mulher com os cabelos grisalhos entrando na sala, ela carrega uma bolsa nos ombros e usa uma maquiagem leve. A mulher, que julgo ser nossa professora, não parece ser nova, mas também não parece ser velha. Pela cor do cabelo e algumas marcas da vida no seu rosto e mãos, chuto que tenha uns 50 ou 55 anos.
Após deixar seus objetos em cima da mesa do professor, ela se direciona para a turma:
- Me chamo Ariel Lynch, serei a professora de vocês de Cultura e Ambiente. É uma satisfação trabalhar essa matéria com vocês. Espero que seja uma matéria prazerosa pra vocês, do mesmo jeito que foi pra mim quando a estudei pela primeira vez. - Seu sorriso e voz doce me deixam animada.
- Até então todos os professores parecem ser maravilhosos. - Viro minha cabeça pra trás e cochicho para Eva.
- Não se engane sobre ela. - Eva se aproxima do meu ouvido e fala baixo. - Conversando com os amigos da minha irmã, eles disseram que ela é uma ótima pessoa e tem uma boa didática, mas ela massacra o aluno de tantos trabalhos e exercícios que passa.
- Meu Deus, já ouvi que todo semestre tem um professor problemático. Acho que encontrei o nosso. - Tento disfarçar o medo ao rir da minha piadinha.
- Você! - Me arrepio ao ouvir a voz da professora com uma força diferente da primeira vez que falou. Ao me virar em sua direção, vejo que está apontando para Eva.
-S-sim? - A voz de Eva falha. Talvez ela tenha ouvido a nossa conversa.
- Você me parece familiar. - A senhora Ariel parece confusa. - Já a conheço?
- T-talvez a senhora esteja me confundindo com a minha irmã. Ela é sua aluna do último ano de antropologia, Laylah Fitzpatrick.
- Ah! Agora que você falou, vocês realmente se parecem. Ela deve ter falado muito bem de mim, não é? - A professora nos mostra um sorrisão.
- Ah sim, com certeza. - Eva distorce um pouco a verdade.
A professora fica satisfeita e direciona a turma novamente.
- Muito bem, agora vamos começar a aula. Peguem os cadernos...
A aula seguiu até ao meio dia. De fato, a professora tem uma boa didática, porém o assunto da matéria é extremamente cansativo, ela vai ter que se esforçar bastante para manter os alunos interessado. Hoje foi a primeira vez que tivemos algum contato com a matéria de Cultura e Ambiente, se a dedicação dos alunos continuar do mesmo jeito que estava na sala, com certeza muitos vão reprovar.
- Prepara? - Pergunto a Eva.
- Claro. - Sua empolgação é contagiante.
- Não esqueça que você vai ter que me guiar. Já estou em Angela há pouco mais de um mês, mas ainda não me acostumei com as ruas daqui. Só gravei o caminho de casa para a UA e olha lá. - Rio sem graça.
- Charllotte! - Quando estou quase saindo do campus, vejo uma silhueta familiar se aproximando. - Oi, Evangelina. - Conforme a silhueta está se aproximando, vou reconhecendo a pessoa que me chamara.
- Oi, Matthew. - Eva o cumprimenta.
- Posso falar com você um momento?
- Me dá licença um momento, Eva? - Ela assente.
Matthew me puxa por alguns metros até encontrar um local da universidade isolado.
- Ontem eu passei a noite pensando: se você visse aquelas pessoas, acha que consegue reconhecê-los?
- Sinceramente, não sei te responder. Eu estava nervosa... sem contar a distância, que não facilitava nenhum pouco. Eu sei alguns aspectos físicos, mas não ajuda muito. - Eu ando um pouco para a esquerda, volto, ando um pouco para direita, tentando lembrar de qualquer detalhes que possa ser válido. - Eu sei que tinha uma mulher loira, alta e magra, talvez ela tivesse os olhos castanhos, mas não tenho total certeza. Tinha uma outra mulher morena, com o cabelo curto e um pouco mais baixa. Tinha o único preto da equipe, com o cabelo preto e musculoso, e mais dois: um homem que parecia ser o mais velho de todos, branco e com o cabelo grisalho, e o outro com o cabelo castanho, branco também.
- Você lembra dos nomes, certo?
- Acredito que a loira seja a Zahra, a morena Ju... Ju alguma coisa, o preto tenho certeza que é Spike e o outro é Leonh, se não me engano. O velho foi o único que não teve o nome citado, apenas o chamavam de "chefe".
- Certamente, essas características não ajudam muito, está muito vago. Como esses traços não nos deixam trabalhar com pessoas específicas, qualquer um poderia se enquadrar nesses padrões.
Pensando por um momento, a ficha cai.
- Matthew, você acha que alguém da cidade poderia está envolvida, ou ajudando eles de alguma forma?
O jovem coloca a mão no queixo, analisando.
- Por mais que me doa falar isso, não posso descartar essa possibilidade. Mesmo que as pessoas declarem amar essa cidade e supostamente serem fiéis a sua história, não podemos esquecer que estamos lidando com pessoas. O ser humano é ganancioso por instinto.
- Evangelina vai te mostrar a cidade hoje, certo? Toma cuidado com o que você pode falar pra ela.
- Você acha que ela pode está envolvida?
- Não sei, não confio em ninguém. Conheço ela desde criança, mas nunca se sabe o que pode passar na cabeça de alguém. Sendo filha do prefeito, ela pode ter acesso a várias informações confidenciais ou então, o pai dela pode está envolvido e ela pode acabar deixando vazar alguma coisa que você disser.
- Ela é filha do prefeito? - Falo surpresa.
- É com isso que você se preocupa? - Ele me olha com menosprezo.
- Bom, de qualquer forma, eu não pretendia falar nada pra ela. É melhor eu ir logo antes que ela desconfie de alguma coisa. Não é comum o cara que odeia estrangeiros, puxar alguém de fora para algum canto para conversar.
Ele assente, mesmo aparentando não se importar.
Viro de costas e aceno enquanto ando.
Ao chegar no portão da Universidade vejo Eva sentada em um banco de madeira perto do chafariz.
- Desculpa a demora. - Cumprimento-a com um sorriso.
- Tudo bem. O que Matthew queria com você? - Ela estranha.
- Bom, ele me repassou um recado que a professora Dina pediu. - Minto.
- Sendo assim, ele poderia ter falado na minha frente.
Porra! Eu odeio inventar mentiras envolvendo terceiros!
- Na verdade, era pra ser algo "off" - Coloco meu braço no seu pescoço, puxando-a para perto de mim. - Ela queria que eu me candidatasse para ser a representante da nossa turma.
Ah, entendi. - Acho que Eva acredita. - Falando em Matthew e professora Dina, acho que você não deve ter ficado sabendo do boato com a relação dos dois. - Começamos a andar em direção ao estacionamento.
- Envolvendo os dois? - O assunto desperta a minha curiosidade.
- Sim, dizem que os dois estavam namorando há algum tempo.
- Namorando? - Estranho. - O que uma professora doce e gentil, poderia ter visto em um mal humorado e grosso como o Matthew?
- Não sei. - Ela dá de ombro. - Eu não sei como as pessoas ficaram sabendo, mas a Lay confirmou-me essa história. Ela disse que eles eram muito discretos com a sua relação, mas de alguma forma a Universidade ficou sabendo e eles tiveram que terminar.
- "Tiveram"? Quer dizer que a universidade interveio na relação deles?
- Sim. Se eles não terminasse, a professora perderia o emprego e o Matthew seria expulso, provavelmente.
- O que a UA tem que se intrometer? - Falo indignada. - Não estamos falando de uma relação imprópria entre uma professora e um aluno do ensino médio. São dois adultos se relacionando.
- Talvez um vazamento de respostas das provas? - Eva supõe. - Isso poderia acontecer. Deve ser por isso que ela não é professora da turma da Lay.
- Será que eles ainda gostam um do outro? - Indago.
- Bom, Matthew tem cara de quem tem coração de gelo e deve superar rápido e a professora é uma pessoa madura. Deve ter outras coisas pra se preocupar.
- Hum, não sei. É uma forma muito ruim pra terminar uma relação, por intermédio de terceiro. Bom, de qualquer forma, sinto muito por eles, mas ainda não consigo acreditar que a professora Dina gostava do Mathew. Cada louco com sua maluquice.
Eva ri.
- Então, onde será a nossa primeira visita?
- Museu Municipal de Angela. Lá vamos ver algumas pinturas e escrituras feitas por alguns artistas da cidade.
- Legal, é só ir me guiando.
Ao chegarmos no limiar do Museu, Eva me leva para um casarão poucos metros adentro. Logo na porta da frente, há um letreiro com os seguintes dizeres:
"Museu Municipal de Angel's Land: Galeria de Artes."
Mais em baixo, uma observação:
"Proibido a entrada de alimentos."
Eva abre a porta e me deparo com uma sala repleta de quadros. Há quadros pendurados no alto de uma paredes e também mais em baixo. No centro da sala há três apoios com cada escultura pequena em cima.
Começo a andar ao redor da sala observando primeiramente as pinturas.
- Todas essas pinturas foram feitas por alguém de Angel's Land?
- Sim - Eva responde orgulhosa.
Uma pintura em específica me chama a atenção: um retrato de um homem, dos ombros para cima, com um terno preto e uma gravata vermelha. Ele tem um sorriso gentil, mas emana uma aura confiante, quase uma autoridade, como se fosse algum tipo de líder.
- É uma pintura mesmo ou uma fotografia? - Aponto.
- É uma pintura. Parece real mesmo, não é?
- Sim, é incrível. - Após admirar-me, a encaro por alguns segundos, pensando. - Eu tenho a impressão de que já vi esse homem em algum lugar.
- Ele é o nosso governador. Todas as pessoas que saíram de Angela tiveram sucesso em suas profissões e, não apenas isso, elas conseguem cargos de líderes. - Vendo seu tom convencido, consigo entender o que ela quis dizer.
- Por que elas vieram de Angel's Land?
- Exatamente.
- Todos os nativos de Angela são patriotas desse jeito?
- Com certeza. Quem não sentiria orgulho de se originar em um lugar abençoado? - Considero-a como uma pergunta retórica e a deixo sem uma resposta.
Após mais uma volta pelo Museu, vejo novas pinturas, algumas no mesmo estilo da pintura do governador, mais esculturas e algumas folhas com dizeres metafóricos e com estrutura de poema, até finalmente Eva decidir ir para a nossa próxima parada.
- Aproveitando o horário. - Eva fala e eu instintivamente olho o relógio em meu pulso, mostrando a hora 13h30. - Vamos em um restaurante que tem as comidas mais gostosas da cidade e, é claro, cheio de comidas típicas.
- Ainda bem que você falou. Eu já estava morrendo de fome.
- Espero que você tenha trago dinheiro. A comida é maravilhosa, em contrapartida o preço é amargo.
- Eu esperava que a filha do prefeito pudesse pagar pra mim. - Brinco.
- Como você sabe que eu sou filha do prefeito?
- Bom, se tratando de uma figura pública, não é difícil saber essas coisas. - Não posso falar que Matthew me contou essa informação. Isso só geraria mais perguntas.
- Acho que você está certa... - Ela estranha inicialmente, mas dá de ombros.
Chegando no restaurante, vejo um estabelecimento sofisticado, mas nada muito chique. Mesmo sendo um horário de pique, há poucas pessoas presentes, o que torna o ambiente mais aconchegante pra mim, que não gosto de lugares com muita gente.
- Boa tarde, senhoritas. Onde gostariam de sentar? - Um garçom muito bem apresentado nos cumprimenta.
- Oi, Cassiel.
- E ai, Eva? - Ele parecia querer abraçar Eva, mas acredito que por conta de está no seu local de trabalho ele se contém.
- Na mesa de sempre. - Ela aponta para uma mesa de duas pessoas, isolada no canto do restaurante.
- Sim, senhora. - Nós o seguimos. - Como tá indo o curso?
- Até então está tudo bem, ainda estou na primeira semana de aula.
Sentamos a mesa e ele entrega um cardápio para cada uma.
- Legal. Não é como se eu tivesse clientes para atender. - Ele olha ao redor. - mas não posso ficar jogando conversa fora, então quando quiserem pedir é só me chamar. - Ele pede licença e vai embora.
- Ele é seu amigo? - Pergunto curiosa.
- Sim. Eu venho tanto pra cá que acabamos virando amigos.
- Só amigos? - Pergunto discretamente.
- O que você quer dizer com isso? - Eva cora.
- Nada. - Finjo demência. - Mas eu senti um clima entre vocês. Quero dizer, pelo menos da parte dele... - Antes que eu pudesse terminar de falar, Eva fala, me interrompendo.
- Você acha? - Ao ver a reação eufórica de Eva, percebo que consigo o que quero. - Na verdade...
Passado quase duas horas no restaurante, conversamos bastante sobre a vida amorosa de Eva. Eu sei que nos conhecemos há três dias, claramente Eva não se abriria tão facilmente pra mim, em especial por ser tão tímida, contudo, fiz de tudo pra ela se sentir bem para confiar em mim, o que consegui com sucesso.
- Meu Deus, que comida divina. - Saio completamente feliz e satisfeita.
- É o que dizem. - Eva diz orgulhosa.
Eu rio, ela me olha e começa a rir também.
- Onde vamos agora? - Pergunto.
- Dado pelo horário. - Eva olha seu relógio, mexe na sua mochila e puxa seu folheto. - Atrasamos um pouco o cronograma.
- Você é tão metódica assim mesmo?
- Às vezes. - Ela ri levemente. - Bom, agora nós vamos para a praça das Bênçãos. Lá tem as flores mais linda do mundo e uma bonita história.
Assento e andamos em direção ao carro.
Depois de passarmos várias horas visitando alguns parques, lagos, exposições e mais alguns pontos turísticos e lugares que Eva gosta, chegamos, ao fim da tarde, na nossa última parada, o lugar que acredito ser o mais bonito de Angela. A iluminação do pôr do sol só deixou mais belo.
- Essa é o Santuário de Angela. - Eva inspira e expira tranquilamente, me transmitindo uma sessão de leveza e paz.
O Santuário, externamente, é feito com pedra, suas torres são esguias e pontiagudas, mesmo sendo o primeiro contato, é visível a grande quantidade de janelas e portas, me lembrando da arquitetura das igrejas do século XII.
- Esse santuário é simplesmente extraordinário. É dono de uma beleza indescritível. - Falo admirada, ao entrar.
- Sim. - Eva transmite serenidade tanto na voz, quanto nos olhos.
Conforme vamos entrando, consigo ver melhor cada detalhe do Santuário. Há algumas pessoas espalhadas pelo ambiente, algumas de cabeça baixa, outras olhando para o monumento enorme de um anjo, ajoelhado, com o rosto inclinado para cima e com as mãos unidas abaixo do seu queixo, no fundo do Santuário. Os vitrais são lindos e compridos. Em alguns, os desenhos geométricos formam a imagem de algum santo, e em outros, alguma passagem da bíblia.
Andamos até o final do Santuário e paramos em frente a escultura.
"Esse rosto me parece familiar" - penso.
Instantaneamente a resposta vem em mente.
"É o mesmo anjo da Estátua de Angela!"
- Sabe, há uma linda lenda aqui em Angela. - Eva começa a falar, admirando a estátua. - Dizem que após todos os anjos legítimos terem morrido, a nossa protetora, Angela, deixou um filho na terra. Seu descendente é o único que consegue viver no nosso mundo e não perder seus poderes espirituais, sendo o único capaz de levar os humanos para o caminho correto. Bom, esse é um dos vários escritos que está na Escritura Sagrada e eu nunca li, então não sei até que ponto é verdade.
- O que é a Escritura Sagrada? - Pergunto inocentemente.
Gradativamente os olhos de Eva, que estavam sereno, vão crescendo e transmitindo desespero até estarem completamente esbugalhados.
- Meu Santo Anjo... - Eva me olha completamente em pânico. - Eu não deveria ter dito isso. - Ela fala suas últimas palavras antes de sair quase correndo e me deixar para trás.
Não é preciso ser um gênio pra saber que Eva deixou vazar algo que alguém de fora não deveria saber.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top