A Visita Inesperada
Um som irritante e repetitivo me acorda numa manhã de domingo. A luz do sol que invade meu quarto, me incentiva a ver o ser insistente que aperta a campainha várias vezes. Ainda sonolenta, desço as escadas me apoiando na parede, ao abrir a porta me vejo de frente com a cara ranzinza de Matthew, que batia o pé no chão impacientemente.
"Droga! Tinha esquecido completamente que havia marcado de me encontrar com ele" - Lembro frustrada.
-Sabe quanto tempo estou aqui? - Ele parece prestes a me matar.
- Me desculpe de verdade. - Não há nada que possa falar para amenizar a ira de Matthew, então decido não dar nem uma desculpa. - Eu vou lavar o rosto e já volto. Você pode me esperar na sala. - Aponto com a mão, para o cômodo ao meu lado.
- Seja rápida. Temos um assunto importante para debater.
Saio quase correndo em direção ao meu quarto.
"Quanta irresponsabilidade, Charlotte! Com tantos dias e pessoas para se atrasar você faz isso logo hoje e com o Matthew."
Jogo meu pijama para o ar e corro para o banheiro. Tomo banho e escovo os dentes com uma agilidade que eu nunca tive antes.
Coloco uma blusa folgada e fina por conta do dia quente, um short jeans, prendo meu cabelo em um coque alto e desço correndo. Antes de ir à sala, passo na cozinha e pego uma maçã, apenas para não ficar com fome.
-Podemos começar. - Falo antes de dar a primeira mordida na maçã. - Ah, você quer alguma coisa?
- Depois de ficar nesse sol, eu quero um copo de água, por favor. - Matthew está sentado no sofá com as pernas cruzadas. Mesmo irritado, ele consegue ser educado.
Ao voltar com a água vejo o nativo mexendo em um bloco de anotações.
-Tem alguém na sua casa?
- Não, meus pais saíram. - Sento no chão, na frente do Matthew, com uma mesinha de centro entre nós dois.
- Ótimo, podemos conversar livremente. - Ele dá um gole da sua bebida.
- Antes de mais nada, vamos recapitular o que aconteceu ontem. - Começo os primeiros passos da nossa conversa. - Descobrimos que o Líder do squad é Heródoto Veyne, famoso historiador. Você conheceu três dos quatro envolvidos com Veyne: Zarah, a mulher que estava com meus pais, Judith, a secretária do prefeito, que você na verdade já conhecia e Spike, um dos seguranças da festa.
O que eu falava, Matthew anotava em seu caderninho.
-Agora vem as informações novas. - Com a caneta que está em suas mãos, ele a fica girando no ar, enquanto ler suas anotações. - Como eu havia te dito, eu fui conversar com Laylah para conseguir algumas informações, porém ela me disse que acredita que Judith não sabe mais do que seu cargo como secretária a permite, mesmo tendo acesso a vários documentos da cidade. Pode ser muito cedo para afirmar, mas tenho quase certeza que Laylah não está envolvida nisso. Ela parecia completamente ingênua as minhas perguntas repentinas sobre Judith.
- E Eva? O que você acha? - Pergunto aflita.
- Ela é uma incógnita. Creio que não poderei afirmar nada a não ser que eu a veja fazendo alguma coisa relacionada a eles.
- Hum. - Eu penso rapidamente sobre ontem. - Eu pensei em conversar com Eva, mas com Zarah presente eu não poderia falar nada, o que me leva a descoberta que eu fiz dela: Zarah é a superior dos meus pais, entretanto acho muito improvável que ela esteja comprometida com o seu trabalho na DP e com as buscas de Veyne, simultaneamente. Eu acredito que seu trabalho na DP seja só um disfarce para não levantar suspeitas, o que me leva a segunda descoberta que fiz ontem e uma prova que reforça a minha teoria: Ela se apresentou como Rosalina Gosling.
Matthew fica pensativo.
-Se ela usou um nome falso, com certeza ela está escondendo algo, e nós sabemos o que é. Zarah não pertence a Angel's Land, então vamos investigar quando ela veio para cidade e consequentemente os outros três também. Sabendo disso podemos ter uma noção de quanto tempo eles estão na cidade e seus avanços. Se eles estiverem aqui há muito tempo, podemos deduzir que eles não sabem de muitas coisas.
- Você tem certeza disso? Isso não necessariamente prova o que eles já sabem e o que pretendem fazer.
- Talvez não, mas a partir do que eu descobri podemos ter um guia.
- Você descobriu mais coisas?
Antes que Matthew pudesse dar continuidade, escuto a campainha tocando.
-Me dá licença um minutinho. - Olho para o relógio na parede e já passam das 12h30. - Quem poderá ser a essa hora?
Ao abrir a porta me deparo com a última pessoa que pensei em ver em Angela: Sam, meu ex-namorado.
-Sam? O que você está fazendo aqui?
- Oi Charlie, vim lhe visitar. Achei que a gente pudesse conversar, eu posso entrar?
- Não. - Fecho a porta o suficiente para ele não olhar para dentro de casa. - Como você descobriu que eu moro aqui?
- Não sei se eu deveria contar... - Seus olhos azuis como o céu em uma manhã ensolarada parecem relutar, mas eu sei que isso só é um jogo para se fazer inocente. - Uma de suas amigas me contou.
- Quem? - Pergunto séria olhando nos seus olhos, sem permitir qualquer abertura para ele fugir do assunto.
- Elaine.
Respiro fundo para evitar perder a cabeça e querer matar Elaine. Pelo menos agora eu já sei que não há mais como manter uma amizade com ela. Quem diabos dá o novo endereço da amiga para o ex dela?
-O que você quer aqui? - Falo ríspida.
- Charlie, eu vou ser direto. Eu sinto a sua falta. Eu fui um idiota em ter te magoado... - Olho para seu braço, que está com a mão escondida atrás de si.
-Chega. Pode parar. - Eu o interrompo. - Não me venha com esse papo. Você pode ter o arrependimento que for, pode ter trago o presente que for, - aponto para seu braço. - mas não tem volta. O está feito, está feito. Não vou me permitir ser enganada por você novamente!
- Eu nunca te enganei, Charlotte! - Ele solta a medíocre caixa de chocolate que estava escondendo e me segura pelos braços. - Eu sei que cometi um deslize, fui um babaca, mas nunca te enganei.
- Traição não é enganar? - Perco as estribeiras e grito com ele. - Com a minha amiga, ainda por cima? - Balanço os braços, fazendo-o me largar.
Ele fica alguns segundos calados. Eu conheço seu tipo, ele está pensando em alguma desculpa. Coisas como "não foi isso que aconteceu" ou "foi um mau entendido".
-Eu te amo, Charlie e sei que você me ama também. Não faz isso com a gente.
- "Não faz isso com a gente"? - A raiva me sobe e preenche todo o meu corpo. - Foi você que fez algo com a gente! Você destruiu todo o amor que eu tinha por você! Vai embora e não volta nunca mais! - Tento controlar as minhas emoções, mas elas se transformam em lágrimas de raiva.
- Charlotte, está tudo bem por aqui? - A voz de Matthew me chama a atenção. Eu havia esquecido completamente que ele estava aqui.
- Quem é esse cara? - O Sam arrependido e humilde se transforma no Sam ciumento e possessivo que eu já conhecia, no exato momento que viu Matthew.
Matthew se aproxima da porta e para ao meu lado, olhando nos olhos de Sam, quase consigo ver faíscas dos olhos de um para o outro, parece que uma guerra vai acontecer a qualquer segundo.
-Ele é seu amigo? - Matthew me pergunta, sem desviar a sua atenção de Sam.
- Foi um dia. Não é, e nunca mais será.
- Então não preciso te dizer quem sou. - Matthew fala da mesma forma quando foi a primeira vez na minha sala de aula.
- Vem, Charlie. Vamos conversar em outro lugar. - Sam segura minha mão, tentando me puxar para fora da minha casa, porém rapidamente Matthew me segura pelo pulso, me impedindo de ir.
-Você não a ouviu? Vai embora. - A voz de Matthew continua firme.
-Quem você pensa que é? - Enfurecido, Sam segura a camiseta de Matthew, puxando-o para si e ameaçando bater nele com a outra mão, com o punho cerrado.
-Chega, Sam! - Tento interferir no confronto que está a vir.
- Se afasta, Charlie. - Antes que eu pudesse me mexer, Matthew aperta o pulso de Sam, fazendo com que ele lhe soltasse. No momento que Matthew se ver livre, rapidamente se aproxima de Sam de costas e enlaça o braço dele em seu pescoço, impulsionando-o para frente, fazendo com que Sam caia no chão e metade do seu corpo caia dentro de casa.
Uma voz abafada sai de Sam, se contorcendo de dor no chão.
-O aviso está bem claro. - Agora é a vez de Matthew de segurar Sam pela gola da camisa. - Se você se aproximar de Charlie de novo, da casa dela ou em qualquer lugar que ela esteja, você vai se ver comigo. E pode ter certeza que não vou pegar leve como fiz hoje. - Matthew arrasta Sam para fora de casa e o joga no meio-fio como se fosse um pedaço de lixo.
Vejo Sam tentando se levar até Matthew fechar a porta por completo.
-Obrigada, obrigada de verdade. Não sei nem o que te dizer. - Minha voz começa a falhar e parece que vai sumindo. - Acabei te envolvendo em algo que você não tem nada a ver.
- Não se preocupe com isso. Tenho certeza que ao se envolver com ele, você não imaginaria que seria um babaca. - A voz de Matthew soa carinhosa.
"É impressão minha ou Matthew está sendo gentil e compreensivo comigo?"
-Vem cá. - Tenho uma ideia e o chamo andando até a cozinha.
- Senta aí. - Ele puxa a cadeira do balcão e senta.
Me apoio no balcão, jogando o peso do meu tórax em cima da estrutura de mármore, onde Matthew também se apoiava.
-Como agradecimento pelo que fez, lhe convido a provar a minha comida. - Falo com falsa formalidade.
Matthew se inclina para trás a fim de ver o relógio em cima da porta da frente.
-Não preciso de nem um agradecimento, entretanto estou começando a ficar com fome e ainda não terminamos de conversar, então eu aceito o seu convite.
- Você deu sorte, pois hoje é dia do Especial da Charlotte.
- Não quero te assustar, mas saiba que você está falando com um profissional da cozinha. É melhor que esse prato seja bom mesmo. - Ele fala convencido, em um tom de brincadeira.
- Ah é? Eu vou fazer você engolir tais palavras. - Digo determinada e pego o pedaço grande de fraldinha que estava marinando dentro da geladeira.
Pela primeira vez desde quando conheci Matthew, há um clima descontraído entre nós. Ao mesmo tempo que gosto, eu fico preocupada, eu espero que ele não esteja sendo solidário e agindo menos ranzinza por conta do que aconteceu. Não quero imaginar que esse clima bom será momentâneo.
Não vou mentir e falar que o fato de Sam ter me surpreendido com sua presença não mexeu comigo, pois mexeu sim. Mas a realidade é que não vou me permitir viver ao lado de uma pessoa que não me valorizou. Lutar contra o sentimento de querer esquecer o passado e pular nos braços de Sam é torturante. Pensar que os quatro anos que namoramos foram perda de tempo me faz sentir uma imensa raiva de mim mesma, não acredito que me permiti ser enganada desse jeito, como fui idiota!
Matthew pigarreia, me tirando dos meus pensamentos.
-Então, você sabe que eu ouvi a conversa de vocês, certo? Era inevitável. - Ao ouvi-lo, eu lembro dos momentos que me descontrolei e gritei, fazendo com que eu fique constrangida.
- Me desculpe, eu não sei nem o que te falar. Eu nunca imaginei que ele fosse aparecer aqui.
- Não se desculpe por algo que não tem culpa. - De fato, Matthew não parece se preocupar com o ocorrido.
Me sinto aliviada e após terminar os preparativos da carne, a coloco no forno.
-Olha, você não precisa responder se não quiser, mas quer dizer então que vocês terminaram porque ele te traiu? - Mesmo sendo direto demais, ele parece receoso em tocar no assunto.
- Na verdade, em um dia qualquer ele me chamou para conversar e disse que queria terminar, sem nenhuma justificativa. Alguns dias depois, uns amigos de Sam me procuraram e falaram-me que ele estava me traindo há alguns meses. Em uma festa que eles estavam, um desses amigos estava fazendo uma filmagem e aparece claramente Sam se agarrando com uma amiga minha, quero diz, ex- amiga.
- É, ele realmente fez jus ao babaca que ele é. - Matthew fala sem se surpreender, como se já esperasse esse tipo de atitude vindo de Sam. - Agora esses amigos dele estão longe de ser bons amigos, porém parecem ser bons homens.
- Sim, pelo menos eles não consentiram com as atitudes de Sam.
Começo a rir sozinha, quando uma linha de pensamento passa pela minha cabeça.
-Agora tudo faz sentido. - Balbucio.
Matthew deposita um olhar curioso sobre mim.
-Eu já sei por qual motivo Sam veio aqui. Pouco tempo depois que nós terminamos, Sam anunciou publicamente seu novo relacionamento com essa minha amiga fura olho, porém ela nunca foi o tipo de pessoa que fica muito tempo em um relacionamento com a mesma pessoa e, não sendo diferente dos outros, a vez de Sam chegou. Aposto que ele só veio atrás de mim porque ele foi abandonado.
Confesso que a sensação de conforto que sinto ao pensar que Sam quebrou a cara é indescritível.
-É bom saber que aquele cara se fudeu na mão dessa mulher, mas isso resultou no ocorrido de hoje. Esteja ciente que ele pode voltar.
- Eu sei, mas por enquanto ele está bem longe daqui e eu vou aproveitar esse momento livre dele. Agora me diz uma coisa, o que foi aquele golpe de você deu nele? Eu não sabia que você lutava. - Falo maravilhada.
- Todo mundo deveria saber defesa pessoal...
A conversa flui até o momento de tirar a carne do forno. Enquanto eu estou cortando a carne e arrumando ela em uma travessa de vidro, Matthew se oferece para arrumar a mesa, colocando os jogos americanos, talheres, prato e copos sob ela.
Quando tudo está pronto, coloco o prato principal e todos os seus acompanhantes em cima da mesa.
-Ok, espero que esteja preparado para provar a comida mais gostosa da sua vida.
- Estou pagando para ver. - Quando ele vai pegar o garfo de churrasco, bato em sua mão o impedindo de se servir. Seguro o riso, ao ver que ele se assustou com meu ato imprevisível.
- Nem pensar. Pode deixar que eu te sirvo. - Matthew fica desconfiado, mas dá de ombros logo em seguida.
- Minha mãe me ensinou que sempre que alguém vai provar pela primeira vez nossa comida, nós mesmos temos que servi-los.
- Isso por acaso vai mudar o sabor da comida?
- Com certeza. Quando eu te sirvo, passo todos os sentimentos que coloquei na comida para você. - As palavras saem com naturalidade, mas segundos depois me sinto envergonhada pelo que digo.
- É aquela história onde diz que a comida fica mais gostosa quando é feita com amor?
- É basicamente isso mesmo. - Coloco um pouco da carne, junto com os acompanhamento no prato de Matthew e o entrego.
Após o almoço, Matthew e eu ficamos conversando por algum tempo até que eu decido tirar a mesa.
-E aí, o que você achou da minha Fraldinha na Mostarda?
- Para ser sincero nunca comi esse prato antes, então não tenho um critério para saber o quão bom está, mas a carne está macia, suculenta e bem temperada.
- Estou falando com um jurado de algum reality show de culinária? - brinco.
- Eu te falei que sou profissional, só não trabalho na área, mas sei o que estou fazendo.
Ao terminarmos de arrumar a mesa, vamos até a sala e vejo Matthew olhando através da janela para a rua, em um campo de visão que não é acessível para mim.
-O que aconteceu? - Pergunto curiosa.
- Charlotte, por acaso, o carro do seu ex é uma BMW conversível?
- É sim, por quê?
Matthew balança a cabeça para baixo, visivelmente irritado.
-Sam ainda não foi embora.
- O que? - Corro até a entrada de casa e vejo a uns 50 metros de distância um carro parado. De fato, a BMW Z4 de Sam está lá e com muita dificuldade consigo ver sua silhueta dentro do carro.
- Que saco! - Demonstro aborrecimento.
- Provavelmente ele está esperando uma brecha para vir falar com você.
- Quer dizer quando você for embora, não é?
- Exatamente. Ele se engana ao pensar que tirarei um pé daqui, enquanto ele estiver de vigia. Vou ficar te fazendo companhia até seus pais chegarem. - Ele mostra-se agastado.
- Esse idiota sabe com quem está mexendo e mesmo assim ele insiste nessa asneira. - A culpa começa a pesar quando eu percebo que estou causando problemas a Matthew. - Eu sinto muito, eu não queria que isso estivesse acontecendo.
- Não esquenta. Além do mais ainda não terminamos de conversar. - Ele se senta no sofá e cruza suas pernas, voltando a posição que estava logo quando chegou.
Observar Matthew sentado elegantemente, seus olhos cor bordô concentrado no caderno que está sob suas pernas faz-me sentir relaxada. A tranquilidade que ele está exalando está me atraindo de uma forma que não sei explicar, em momentos assim é como se mais nada ao meu redor existisse e eu poderia ficar admirando-o para sempre.
-Depois que eu fui falar com Laylah eu vi Judith saindo. Ela parecia estranha, então eu a segui. - Ele começa a mexer no celular, dá alguns toques e o vira para mim.
-Essa é a quinta pessoa que você viu na floresta?
-Com certeza é ela. Esse é o Leonh.
- Ótimo, eu já tenho conhecimento de todos. Agora vamos ao ponto alto da conversa. - Matthew ajeita sua postura e apoia seus cotovelos sob suas pernas e escondendo metade do seu rosto por trás das suas mãos, ele me fita, parecendo-me tenso. - Ao se encontrar com Leonh, Judith lhe passou instruções de seus próximos passos.
-Essa informação vale ouro! - Falo empolgada e surpresa.
- Aparentemente, eles vão investigar uma caverna. Não sei o que eles pretendem encontrar por lá, mas eu tenho que saber o que é.
- Mas como vamos saber qual caverna que é? Tenho certeza de que não há apenas uma caverna nas redondezas. - Exprimo minha curiosidade.
- Vamos seguir Judith. Eu sei onde ela mora, então podemos ficar observando-a.
- Você tem certeza disso? Essa ideia me parece muito arriscada. - Digo pé atrás com a sugestão de Matthew.
- Sim, nós vamos com o seu carro, já que ela não o conhece. Sem contar que a película do seu carro é escura o suficiente para nos esconder. É só agirmos com cautela e atenção, que vai dar tudo certo.
- Ainda não estou totalmente convencida que essa é uma boa ideia, mas por não sabermos qual caverna é, acho que não nos resta outra solução.
- Eles marcaram a nova data para daqui 10 dias, às 14 horas.
Puxo meu celular e abro o calendário.
-Uma quarta-feira, certo?
- Sim, por conta disso você terá que sair mais cedo da sua aula. Temos que ter tempo de almoçar e ficar à espreita dos passos de Judith com antecedência perto de sua casa.
- Por qual motivo será que Veyne mudou seus planos? - Falo intrigada.
- Aparentemente é por conta da festa de ontem. Provavelmente muitas pessoas que não estiveram presentes no evento, mas sabem que ele é um cidadão de honra vão querer falar com ele, e para não ter qualquer tipo de problema ele preferiu mudar seus planos.
- Faz sentido.
- Ele é mais meticuloso do que eu pensava. - Matthew fala pensativo. - Ele mudou completamente seus planos para que nada dê errado. Todas as cavernas que têm em Angel's Land são afastadas do centro da cidade, e explorar alguma delas no meio da semana diminui quase 100 por cento as chances de alguém aparecer por acaso.
- Temos que tomar cuidado com eles. Não podemos subestimá-los.
Enquanto conversávamos sobre os passos que devemos fazer e seus detalhes, eu não tinha percebido que havia se passado horas até ouvir o barulho da porta, acompanhada da voz dos meus pais.
-Charlie? - Minha mãe me procura.
- Estou na sala. - Falo alto suficiente para ela me ouvir.
A primeira pessoa que vejo entrar na sala é o meu pai, que estranha a presença de Matthew.
-Esse é o seu amigo, querida? - Minha mãe pergunta assim que adentra a sala.
Prevendo que meus pais chegassem em casa e visse Matthew, do mesmo jeito que está acontecendo agora, na noite anterior eu havia avisado minha mãe sobre a visita de Matthew. Obviamente não disse o verdadeiro objetivo de sua visita, mas apenas contar que ele viria bastava para minha mãe.
-Sim, é ele. - Digo esperando a reação do meu pai, que olhava para sua esposa surpreso como se ela fosse cúmplice de um crime.
-Boa noite, senhor e senhora... - Matthew para de falar, me olhando como se esperasse algo de mim.
-Ada. Pode me chamar de Ada. - Minha mãe lhe mostra um sorriso simpático. - Esse é o Richard. - Ele olha para Matthew desconfiado.
- Fico aliviado em saber que vocês já estão em casa. Nós temos um problema para lhes contar. - Matthew vai direto ao ponto e meus pais me olham sem entender o que um estranho estava contando para eles.
- Sam veio aqui. - Sigo o mesmo caminho de Matthew e solto a bomba sem mais nem menos.
Meus pais se entreolham chocados.
-O que? Como ele sabe que moramos aqui? - Minha mãe me pergunta surpresa.
- Elaine contou para ele, mas isso já não importa mais. O pior é que ele ainda está aqui.
- Ele está a alguns metros daqui com o carro estacionado, esperando uma oportunidade para vir falar com Charlotte, com certeza.
- Há quanto tempo ele está aqui? - Minha mãe indaga.
Matthew olha para cima, pensando.
- Entorno de cinco horas.
- Ele conviveu tempo suficiente com a gente para saber com quem está mexendo. - Meu pai pega sua arma que normalmente é guardada em seu cóccix, puxa o ferrolho de sua Glock G18 apontando-a para baixo. - Eu vou resolver essa situação. - Ele mostra um sorriso sádico para minha mãe e sai de casa.
Matthew e eu corremos para a porta de casa e vemos meu pai andando calmamente em direção à Z4 de Sam.
-Seu pai tem um jeito peculiar de resolver as coisas, não é? - Matthew fala espantado com a cena.
-Não se preocupe, é só um susto. - Minha mãe fala tranquilamente.
"Acho que o trabalho deles e seus contatos diários com armas está mexendo com a cabeça deles." - Pondero preocupada com a solução desse problema.
Localizando-se a poucos passos de distância do carro de Sam, meu pai levanta seus braços e aponta sua Glock para a pessoa que está dentro do conversível. Em questão de milésimos conseguimos ouvir o ronco do motor, as luzes dos faróis se acendem e logo em seguida o carro da partida, desviando do meu pai e seguindo em alta velocidade.
Meu pai guarda a arma no mesmo lugar de antes, se vira e posso vê-lo rindo sutilmente. Se essa situação não tivesse ocorrido por um fator assustador, eu poderia estar rindo também, mas de alguma forma isso me parece muito estranho.
- Vocês são loucos. - Matthew fala duvidoso, mas ao mesmo tempo parece não se surpreender.
- Deu certo, não deu? - Minha mãe o responde, olhando para fora, esperando o retorno do seu marido.
- Problema resolvido. - Meu pai fala como se tivesse se livrado de uma barata, um problema insignificante.
- Por hora. - Matthew solta no ar. - Bom, agora que ele já foi, posso voltar para casa.
- Obrigada por ter feito companhia para nossa garotinha. - Minha mãe fala aliviada.
- Garoto, - Meu pai soa sem jeito. - Volte aqui mais vezes.
Matthew me olha esperando alguma atitude de mim, que apenas o olho sem reação.
- Está tudo bem. - Vejo o jovem entrando em seu carro e pouco segundos depois, o ruído do motor do carro de Matthew vai diminuindo conforme se afastava, até eu não conseguir mais ouvi-lo.
Revisão final:
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