A Estátua de Angela

O caminho para chegar em casa foi horrível. Eu tentei puxar assunto com ele, mas eu não o conheço para falar qualquer coisa e o seu mau humor estava sendo bem presente (para variar). O ser humano passou o percurso todo encostado na janela do carro e olhando para o lado de fora, apenas uma vez ele trocou palavras comigo:

- Não sei por que eu vim. – Ele continua com sua atenção para o lado de fora. – O que você poderia me dizer sobre Angel's Land?

- É muito difícil de falar. Mostrar é a melhor maneira para você entender.

- Espero não está perdendo meu tempo. – Matthew se distancia novamente e o silêncio reina mais uma vez no carro.


- Vamos logo direto ao assunto. – Descemos do carro. – Siga-me. – Ando pelo caminho lateral do lado de fora da casa que dá direto ao jardim e faço o percurso de sempre que me leva até a trilha.

"Celene, Celene"

Dessa vez a voz estava com um tom doce, da mesma forma que a ouvi pela primeira vez.

- Você está ouvindo alguma coisa? – Pergunto.

- Não, eu deveria ouvir?

- Não... – Entendo que adquiri mais um problema.

- Que lugar é esse? – Matthew mostra interesse.

- É uma trilha que fica atrás da minha casa. O que quero te mostrar está ao fim dela. – Aponto ao caminho que vamos seguir.

Andamos mais um pouco e uma preocupação começa a surgir.

- Eu preciso que você comece a fazer menos barulho a partir de agora. Sei que parece estranho, mas você vai entender daqui a pouco.

Começo a ver o campo ao final do caminho e a única coisa que escuto são os pássaros cantando e o som dos galhos e plantas se batendo uma contra a outra com a ajuda do vento. Danço com os olhos por todo o meu campo de visão procurando algo ou alguém que não deveria está aqui. Mesmo desconfiada, confirmo que há não ninguém por perto.

- Pode vir. – Chamo Matthew. – Está ali. – Ando até parar na frente da árvore.

- Tá, - Matthew olha para a cova. – Você matou alguém e quer ajuda para esconder melhor o corpo?

- É claro que não. – Começo a bagunçar as folhas até revelar o buraco. – Não sei nem como vou te contar isso... – Respiro fundo e começo. – Ok, é o seguinte: há um mês eu me mudei para Angel's Land. Na tentativa de conhecer melhor os arredores da minha casa acabei encontrando esse buraco do jeitinho que estava quando nós chegamos, só para deixar claro: eu nunca entrei e não vi nada que tem ai. Depois de um tempo eu decidi voltar aqui e ver o que tem, só que dessa vez eu encontrei cinco pessoas mexendo nesse buraco. – Matthew me olha com uma cara de quem não está entendo nada, porém atento. – Qualquer pessoa que juntasse os pontos: o buraco, gente estranha, entenderia que era melhor não ser vista, então me escondi e fiquei prestando atenção no que eles estavam fazendo e falando. No primeiro momento parecia que eles estavam procurando alguma coisa, até que eles citam o nome "Estátua de Angela" – o rosto de Matthew começa a esboçar uma reação de preocupação – Alguns deles até entraram – aponto para o buraco - E falaram que não tinha nenhuma armadilha, apenas algum cômodos, nada que fosse realmente útil para eles, porém eles falaram também que encontraram uma estátua.

- Eles a encontraram? – Subitamente o rapaz fica frenético.

- Sim, mas eles cogitaram que aquela não seria a "Estátua de Angela", pois não tinha nada além disso, nem uma passagem secreta. – Concluo a história. – Matthew, - ponho-me em sua frente. – O que é a "Estátua de Angela"? Porque alguém estaria atrás disso?

Ele me olha com relutância.

- Eu não sei se deveria te contar... – Ele muda de entonação. – Você contou isso para mais alguém? Porque você veio até mim?

- Não contei para ninguém, eu também fiz as minhas pesquisas e se eu não encontrei nada em relação a isso, é porque com certeza é algo que deveria estar escondido.  Eu fui atrás de você pelas suas palavras no primeiro dia de aula. Só alguém que se preocupa de verdade com a cidade e sua história falaria o que você falou, eu vi uma pessoa forte em você. – Olho no fundo dos seus olhos e tiro minha confirmação. – Eu sei que nós podemos estar lidando com gente perigosa, na verdade "nós" não, independente de sua resposta eu vou continuar nisso até o fim, mas eu posso contar com você para me ajudar nessa, Matthew?

- Tudo bem, eu entro nessa. - Ele aparenta está um pouco desconfiado.

- Agora que você está aqui, seria uma boa entrarmos no buraco e vermos por nós mesmos o que tem lá. - Quando começo a andar em direção a árvore grande, Matthew me para.

- Espera. - Ele coloca a mão na minha frente. - Eu vou primeiro. - O aparente cavalheiro mexe na sua mochila e tira uma pequena lanterna.

- Precaução é tudo. - Digo surpresa.

- Me surpreende você, uma aspirante a arqueóloga e determinada a se aventurar em algo totalmente desconhecido, nem andar com uma lanterna para situações de emergência. - Ele começa a descer as escadas.

"Ele não é tão cavalheiro quanto eu achava" - Penso irritada.

Desço pelo menos 1/3 da escada, que não é muito longa e escuto a voz de Matthew:

- Vem, eu te ajudo. - Olho para trás e Matthew está com os braços esticados em minha direção.

Por ser uma ação que eu não esperava vindo do Matthew, fico completamente muda e apenas assento. Coloco minhas mãos nos ombros de Matthew, que me carrega pela cintura, fazendo com que eu me sinta segura e descendo-me até o chão.

"Ok, talvez ele seja um pouco cavalheiro. Um cavalheiro irritante." - Repenso.

- Obrigada.

- Não há de quê. - ele acende a lanterna e vemos um corredor tão longo que a lanterna não tem potência suficiente para iluminar mais a frente, as paredes são feitas de pedra e não muito longe conseguimos ver várias portas, feitas de pedras também, com uma distância de mais ou menos três metros de uma porta para outra, confirmando o que a Zahra e Leonh haviam dito ontem.

- Até aqui bate com o que aqueles caras disseram. - Falo observando com cuidado o ambiente que me cerca.

- Mas não quer dizer que devemos confiar. - Matthew anda cautelosamente.

O aspirante a arqueólogo e eu entramos em uma das porta e vemos que não há absolutamente nada naquele quarto, é apenas um cômodo vazio. Começamos a passar a mão por todos os blocos de pedra que compunha as paredes.

- Não é possível que não tenha nada nesse quarto! - Falo indignada.

- Também estou achando isso muito estranho. - Ele coloca a mão no queixo, reflexivo.

- Nós estamos deixando passar algo, não tem como isso ser assim. Tem que ter alguma coisa.

Novamente analisamos todo o quarto. Dessa vez decido dar uma olhada na porta do quarto.

- Matthew. - Chamo-o. - Ilumina essa porta para mim, por favor.

Ele joga a luz na porta, então começo a passar a mão e olhar por cada canto da porta, até sentir alguma coisa talhada na parte inferior esquerda da porta.

- Ilumina aqui em baixo. - Com a ajuda da luz consigo ver algo pequeno. Uma letra. - Alguém escreveu alguma coisa aqui.

- Em uma pedra?

- Sim, é apenas uma letra. V... Ok, isso tá mais estranho do que não ter nada.

Matthew se aproxima do entalhe e começa a examinar.

- Pelo menos é melhor do que nada. Vamos para outra sala.

Assento e o sigo para um quarto que tinha na frente do que estávamos anteriormente. A situação do segundo quarto era exatamente a mesma de antes: completamente vazio.

- Aparentemente o quarto está da mesma forma que o outro, então supondo isso, talvez... - Matthew andar para trás da porta e passa a luz por ela. - Exatamente o que pensava!

- O que você encontrou? - Ando para onde Matthew está e vejo uma letra diferente, no meio da porta. - Agora temos um J.

- Só para garantirmos que realmente não tem nada aqui, vamos dar mais uma olhada. - Concordo e começo a alisar as pedras nas paredes, onde não deu em nada.

- Ok, temos um V e um J. O que será que isso significa? - Faço a pergunta para Matthew e para mim mesma.

- Ainda é muito cedo para deduzir alguma coisa, temos outros quartos para estudar.

Mexo na minha bolsa e tiro um pequeno caderno de anotações e uma caneta.

- É melhor anotarmos tudo, qualquer detalhe perdido pode trazer grandes consequências.

Com o caderno e a caneta na mão, analisamos quarto por quarto e todos eles tinham algo em comum: os quartos não continham nada a não ser uma letra.

"V J S E M L A C"

Ao terminar de analisar os quartos a única coisa que faltava era chegar até o fim do corredor. Andamos em torno de 10 metros em um corredor totalmente de pedra sem mais nada até chegar no final dele e vemos um vasto quadrado aberto com um objeto no centro do quarto, mas encostado na parede dos fundos. Esse objeto deveria ser o que os caras estavam falando no outro dia e o que causou uma estranha reação em Matthew: a Estátua de Angela.

- Será essa a relíquia de Angel's Land? - Diz Matthew, completamente deslumbrado.

Matthew ilumina a grande estátua no meio do cômodo. A estátua é uma jovem mulher sentada, com as pernas cruzadas, a sua perna esquerda estava debaixo da sua outra perna, enquanto a direita estava caída. Já o seu braço direito tocava os dedos do seu pé esquerdo, o braço esquerdo servia de apoio para a sua cabeça, que estava levemente inclinada para cima, olhando para o além. Seus cabelos são ondulados, seu vestido parecia que um dia fora real de tão belo que é, e suas asas majestosas também. Ao me aproximar da estátua, subitamente a voz doce que ouvirá anteriormente volta:

"Celene, Celene."

Para a minha surpresa, dessa vez ela continua:

"Encontrar... Me... Final... mente".

Eu sentia está numa ligação com o sinal ruim, era como se estivesse sendo cortado o que ela dizia, não dava para entender direito o que a voz queria me dizer.

Após ouvi-la, hesito em tocar na estátua e a analiso de longe. Conforme me aproximava da parede, onde a estátua estava encosta, sinto uma pequena corrente de ar vindo de trás da mesma.

- Matthew, olha isso aqui. - Ele se aproxima de mim. - Você está sentindo isso?

- Isso é... Vento. - Ele se surpreende.

- Tem alguma coisa aqui atrás, a gente tem que saber o que é. - Me afasto para trás, para Matthew analisar melhor a pequena fenda e bato com a costa em alguma coisa. - Aí! - Solto.

- O que foi? - Rapidamente Matthew se vira em minha direção, parecendo mais assustado com o meu grito do que qualquer outra coisa.

- Bati em alguma coisa. - Passo a mão nas costas.

- Pera aí. - Matthew ilumina e vê uma espécie de tigela de pedra presa a parede.

- O que isso está fazendo aqui? - Indago.

- Talvez esteja relacionada com a Estátua de Angela. - Matthew dá uma última olhada na tigela e se volta a mim. - É melhor irmos embora logo daqui. Já reunimos informações suficientes. Se tudo o que você ouviu daquelas pessoas são realmente tudo o que eles encontram, quer dizer que estamos um passo a frente, por hora isso basta.

Dou uma última olhada na estátua, meio apreensiva.

- Você está certo. Vamos. - Nos dirigimos a saída.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top