10|Clube das sáficas traumatizadas
Mamãe tira os saltos, apoiando a bolsa na bancada. Ajeitando os cabelos cacheados de volta no coque que fez, ela finalmente olha para mim e suspira.
— Não estou orgulhosa. Mas não quero que você me julgue ou algo assim. — diz, com uma voz arrependida. — Faz dois anos que eu não beijo na boca, Ursula. Você entende?
— Não 'tô te julgando, eu também não beijo a um tempão. — respondo, segurando uma risada. — Quem era aquele?
— Ele é um amigo do trabalho. Andrea.
— Amigo?
— Sim, amigo. Vai dizer que nunca beijou uma amiga?
Quase beijei uma amiga, isso conta?
— Prefiro não responder isso.
Mamãe suspira de novo.
— O que aconteceu comigo, filha? — diz, andando até o armário para pegar um copo de água. — Você sabe que eu não faço essas coisas.
— Mãe. — chamo sua atenção. — Você está solitária, na Itália e com duas filhas adolescentes que te irritam a cada cinco minutos. Acho que dá para entender.
— Vocês realmente enchem meu saco. — mamãe ri, e eu rio também. Faz muito tempo que eu não ouço esse som, e me deixa feliz. Mamãe está feliz aqui. Isso é tudo que faltava na nossa vida. — Não fala disso para a sua irmã, ok? Ela não entende essas coisas direito.
— Ok. Mas nós podemos falar disso né? Eu tenho muitas perguntas. — pergunto, mamãe suspira dramaticamente e eu seguro uma risada.
— Acho melhor não.
— Qual é, você me fez falar de Francesca!
— Porque vocês duas pareciam bem próximas para serem só amigas! Isso é instinto de mãe. Estou tendo certeza que não vou precisar enfrentar outra família homofóbica com um rolo de massa, que nem a última vez. — ela exclamou, falando da família de Sarah. Quando namorávamos e seus pais nos pegaram muito perto da outra, mamãe ficou semanas ouvindo a mãe da minha namorada falando besteiras sobre nós duas. Um dia, ela e a senhora Jameson estavam conversando na nossa cozinha e mamãe estava claramente bêbada, revidando as piadas e ofensas com comentários sarcásticos e com o rolo de madeira em sua mão, quase acertando a outra mulher.
" O que é tão ruim de sua filha ser gay, Mary? Seu marido também é, e você parece não ter problemas com isso."
O choque no rosto dela é algo que eu lembro até hoje. Lembro de estar escondida com Sarah no escritório do meu pai, que ficava perto da cozinha. Esticamos a cabeça, só o suficiente para ver as duas. Seguramos uma risada depois da fala de minha mãe e tasquei um beijo terno em seus lábios.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto da minha mãe. Ela bebeu um gole de sua água e fez carinho no meu rosto. Fechei os olhos, aproveitando o cafuné, que não recebo há muito tempo.
— Você sabe que eu me preocupo com você, querida. Só estou fazendo o que qualquer mãe faria.
— Eu me preocupo com você também, mãe. Por isso que se você praticamente me obrigou a falar sobre uma amiga porque o seu "instinto maternal" te disse que tinha algo diferente, meu instinto de curiosa quer ouvir tudo sobre isso. — digo. Para falar a verdade, eu estava sendo mais fofoqueira do que curiosa.
Mamãe toma um tempo para falar e abaixa o copo no balcão.
— Jake vai se casar. — um suspiro dramático sai de seus lábios. Arregalo meus olhos.
— Seu ex? — pergunto, mesmo sabendo de quem ela está falando. Mamãe e Jake namoraram por uns três anos depois que ela se divorciou. Depois que eles terminaram, lembro de ouvir o álbum RED da Taylor Swift tocando repetidamente pela casa e as inúmeras garrafas de vinho e caixas de chocolate espalhadas no chão do nosso apartamento em Londres. Eles não terminaram da melhor maneira, e isso a marcou. — Você está bem?
— Nem perto. Preciso da experiência Red Taylor's Version de novo. Dessa vez com o curta incluído.
— Meu Deus, você realmente quer chorar. — respondo, em choque. — Frida e eu vamos assistir Diário de uma paixão, se você se quiser se juntar a nós.
— Tudo bem. Vou assistir com vocês. — ela diz, e sei que minha irmã vai abrir um sorriso do tamanho da sala quando ver que ela chegou mais cedo do trabalho. — Vou deixar para desmoronar no fim de semana. Você me acompanha?
Dou uma risada baixa e concordo com minha cabeça. Mamãe passa na minha frente enquanto espero o resto da pipoca estourar. Ouço os sons de felicidades que Frida fez da sala ao ver que nossa mãe chegou mais cedo.
Me junto a elas, me espalhando no sofá, no meio das duas, ouvindo uma reclamação de minha irmã e um suspiro humoroso de minha mãe. Esqueço do tempo e espaço quando estou com minha família e só aquele momento importa.
Pela primeira vez em dois anos não pensei em como sentia falta de Sarah. E eu realmente sentia.
Esperei na porta da cafeteria por Catherina, como combinamos no dia anterior. Um vento gelado e calmo passou por minhas pernas e pensei que talvez devesse ter colocado calças, ao invés do vestido marrom e a blusa social que peguei do armário da minha mãe. Pelo menos estava com minhas botas, no caso de chover.
Estamos oficialmente em outubro. E no outono.
Amo o outono.
Pego meus fones de ouvido e conecto no celular, tocando minha playlist em seguida. Bato meus pés ao ritmo de Starlight. O vento aumenta no meu rosto, mas ao longe vejo Catherina subindo a rua. Seu cabelo ruivo preso em um rabo de cavalo no alto balança de um lado para o outro com a ventania e quando ela me nota, acena para mim, com um sorriso animado em seu rosto. Sorrio de volta, e levanto minha mão como se estivesse dizendo "oi".
— Oi. — tiro meu fone do ouvido, com um vestígio de sorriso em meu rosto. Catherina abre um sorriso largo, ajeitando uma ruga imaginária na calça jeans e na blusa azul de flanela.
— Oi! Vamos entrar? Acho que pode começar a chover a qualquer momento.
Aceno com a cabeça, abrindo a porta, deixando ela passar primeiro. Pegamos uma mesa um pouco mais longe de outras pessoas. Cat chama uma garçonete e pede alguma coisa de chocolate que não consegui entender direito o que era.
— Quer que eu peça para você? — pergunta.
— Não precisa. Eu só quero um chá. — respondo, pedindo meu chá em seguida. A garçonete vai embora.
Catherina me encara surpresa.
— Uau. Não sabia que você falava italiano.
— Eu não falo. Só sei algumas coisas. Francesca está me ajudando nesse aspecto, mas sei pedir chá. Por mim, é tudo que eu preciso saber por enquanto.
Ela ri da minha resposta.
— Chá? Nossa, você é uma britânica bem clichê. — responde, olhando para mim. Solto uma risada leve. — Deixe-me adivinhar: Você trouxe um guarda-chuva porque nunca se sabe quando vai cair um temporal?
— Sim. Mas da última vez que peguei um temporal, fui surpreendida. Só tinha um suéter molhado para me proteger.
— Má sorte.
— Carma. O universo me odeia.
— Acho difícil. Você está na Itália. Se o universo te odiasse você estaria em algum canto esquecido do mundo passando frio. E sem acesso a qualquer música da Taylor Swift. Isso sim seria carma.
— Sem Taylor Swift eu morreria.
— Esse é o espírito.
Nós duas começamos a rir. Nossas bebidas chegam e sinto o cheiro do meu chá, trazendo uma paz em meu corpo. Tomo um gole, me aquecendo por dentro. Ela pega o canudo que veio com sua bebida gelada.
— Aliás, parabéns pelo papel principal. — abaixa seu copo. — Tenho certeza que foi merecido.
Agradeço, tomando mais chá. Catherina dá um breve sorriso e toma um gole do seu chocolate, deixando o canudo de lado, que suja o canto da sua bochecha esquerda.
— Ei, olha para mim. — chamo sua atenção, esticando minha mão para seu rosto, tentando alcançar sua bochecha, mas fica muito longe para mim. Me levanto da cadeira, finalmente alcançando-a, que permanece imóvel quando eu tiro o resto da bebida do seu rosto com o meu dedão.
Volto para o meu lugar, com Catherina me encarando ainda. Depois de alguns minutos congelada, ela solta um suspiro baixinho. Seus olhos verdes foram para baixo e ela ajeitou o óculos que caía do rosto.
— Você está bem?
— Olha, Ursula, você tem que avisar uma sáfica antes de fazer um negócio desses. Eu acabei de ter um gay panic do caralho. — ela reclama e eu não consigo segurar minha risada. — Por quê você 'tá rindo? Você é bonita e estava extremamente perto do meu rosto, óbvio que eu iria surtar!
— Desculpa pelo pânico. Mas seu rosto estava sujo e eu tenho virgem em algum lugar do meu mapa astral. É difícil.
— Você acredita em signo? — ela perguntou, com um tom de deboche na voz.
— Sim e não. — respondi, confundindo-a. — Acredito por minha mãe ser obcecada por isso, então acabo sabendo um pouco mais do que eu gostaria. E não acredito porque não acho que a personalidade de alguém é totalmente por conta do posicionamento das estrelas. As pessoas são do jeito que são pelo que acontece com elas ao longo da vida.
— Entendi. Então você fazer piada com seu passado é trauma e não Sol em peixes, não é?
— Ah não. Isso é definitivamente Sol em peixes. — brinquei, arrancando uma leve risada de Catherina. Passamos o resto da tarde juntas, conversando sobre passados, traumas e como aquela bebida de chocolate era doce demais até para uma formiga.
Meu celular não parava de vibrar em minha bolsa, no caminho de volta para casa. Peguei o aparelho, na rua paralela à minha, vendo várias mensagens de Jane.
JANE: tenho 40 tipos de xingamentos diferentes para logaritmo e especialmente para a senhorita Reed.
JANE: e vi seus stories numa cafeteria com uma ruiva, quem é essa?
JANE: vc não tava flertando com uma garota de cabelo castanho?
JANE: me liga quando chegar em casa, qro xingar o colégio e james. tenho muita coisa para contar e você some toda hora.
JANE: e se esse rolo todo for por causa da sarah, eu to aq para vc
JANE: ah, vc já ligou para a sua madrasta? encontrei com ela outro dia na Trafalgar Square.ela está bonita, ta parecendo a Amy addams
JANE: ursulaaa
Sorri para a tela, rindo da minha amiga. Assim que chego em casa, jogo minha bolsa em um canto qualquer, ligando para Jane. A tela mostrava meu rosto enquanto ela não atendia. Meu cabelo está um pouco maior agora, chegando ao meu pescoço, e eu sempre o deixo com ondas. ainda estava com o vestido marrom e me joguei na minha cama, abraçando o conforto dos travesseiros e almofadas coloridas.
Jane atende o celular, finalmente. Seu cabelo preto está bem mais curto do que a última vez que a vi, alcançando seus ombros. Seus olhos azuis brilharam quando finalmente olhou e desejei poder abraçá-la naquele momento.
— Meu Deus, você está extremamente gostosa. — ela praguejou, surpresa e ri da sua reação. — A Itália está te fazendo tão bem!
Sorri em afirmação. Era verdade. A Itália me fez bem. Assim como fez bem para todas as garotas Williams. Estávamos todas mais felizes, longe do caos rotineiro de Londres e das maluquices que meu pai tentava para falar conosco. A Ursula de algumas semanas estaria me xingando muito agora.
— Isso não é mentira. — sorrio, boba. Minha amiga sorri também e ouço a voz da mãe dela. — Diz oi para sua mãe por mim. E me conte tudo o que precisa.
— Preciso de você aqui me dando juízo. — reclamou, soltando um suspiro. — Garota, eu fiz tanta merda esses dias que nem sei como não fiquei de castigo, detenção ou pena de morte.
Soltei uma gargalhada, ouvindo Jane dizer tudo sobre sua vida atualmente: Como ela e James quase foram pegos pela diretora da Royal Academy numa cabine do banheiro feminino, como ela a convidou para o Baile de Outono com uma grande faixa pendurada em sua bicicleta e quando quase caiu dela, porque esqueceu de tirar o tecido das rodas e como eles terminaram o lance deles dois dias antes do baile, apenas para voltarem no momento que pisaram na pista de dança.
Uma batida na porta interrompe minha vez de reclamar quando Jane me lembra de ligar para minha madrasta em Londres.
— Quem é?
— Sou eu. O Hades 'tá enchendo meu saco. — Frida reclama, do outro lado da porta. — Sua vez.
Me arrasto da cama para destrancar a porta e deixar o gato entrar. Minha irmã continua com uma cara de tédio e entrega a bola de pelo preta na minha mão.
Volto para a cama com ele no meu colo. Jane arregala os olhos quando Hades decide deitar em cima da minha barriga. Fico acariciando sua cabeça e ele começa a ronronar.
Falamos mais um pouco até o irmão da minha amiga chamá-la. Nos despedimos e fico encarando o teto por alguns minutos com Hades em mim.
Decido acabar logo com isso e ligo para Megan.
— Só um minuto, Nathaniel! — ouço sua voz do outro lado da linha. — Oi, querida! Posso ligar de vídeo? Seus irmãos 'tão fazendo bagunça aqui e não vou conseguir ficar com o celular no ouvido!
Fico quieta. Questionando por que eu fiz isso.
— Ursula? Ainda está aí?
Desligo a chamada, segurando uma vontade idiota de chorar. Chorar de raiva talvez, porque a única família que resta em Londres não fala comigo desde os meus doze anos. Chorar porque a mera menção do nome do meu pai me deixa mal. Chorar pelo inferno que foram esses anos todos vivendo com ele e como agora, de repente, ele decide ser meu pai de novo. Só porque saímos do país.
A verdade é que a minha família de verdade está aqui, em Florença. E é só isso que deveria importar. Então, por quê eu sinto falta de alguma coisa?
oii mores, feliz ano novo!!! eu tive algumas complicações aqui em casa e posso dizer oficialmente q eu to nesse clubinho de sáficas traumatizadas KKKKK
espero que a virada do ano de vcs tenha sido boa!! beijinhos e até o próximo capítulo
beijinhos, nalu
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