06.01| Montanhas e colinas

"Eu acho que deixei minha consciência na sua porta da frente" - WILLOW 


Odeio acordar cedo.

O alarme toca do lado da minha cama e eu rolo dali para poder desligá-lo.

Mamãe resmunga ao telefone no andar debaixo e meu pai ronca alto. Ouço algo sobre meu irmão estar voltando para casa e a única coisa que consigo fazer é rolar os olhos.

Saio do meu quarto arrumada para ir à escola. Trancei meus cabelos em uma trança holandesa e já estava preparada para dias de bajulação para cima de Nico.

— Francesca, venha dar oi ao seu irmão. — Minha mãe me chamou. Andei até a cozinha, colocando meus anéis nos dedos e dando de cara com a minha mãe e sua longa cabeleira cacheada e castanha. A pequena tela de seu celular mostrava meu irmão mais velho em seu traje branco de hospital. Seus olhos esverdeados — como os da minha mãe — brilham diante à tela, seja lá o motivo.

Viro meus olhos, com a mochila nas minhas costas e caminho em direção a eles. Pego o celular da mão da minha mãe e o clássico "bom dia pirralha" soa pelo aparelho. A nossa diferença de idade é nítida aos olhos de qualquer um, mas ele se comporta como um adolescente de catorze anos. Nico pode até ser um médico renomado e com certeza o filho preferido de Orthela e Arturo Antonelli, mas era simplesmente irritante como ele continuava a me chamar de pirralha.

— E sua namorada? — eu questiono, apenas por educação. Não quero saber, não me importo e realmente não sei por que perguntei. Por quê tão idiota, Francesca Antonelli?

— Minha noiva vai muito bem, Fran. — Ele entoa a palavra, minha mãe para de regar suas plantas e joga o regador para cima, surpresa com a notícia. Meu queixo cai e meu pai aparece de repente na cozinha, abraçando minha mãe.

Parece que eu voltei ao século dezenove e Nico é uma garota pobre que aceitou a proposta de casamento de um cara muito rico.

Fala sério.

— Ela 'tá grávida? — Eu pergunto, atraindo os olhares boquiabertos de meus pais e um suspiro sarcástico do meu irmão. — Eu só estou perguntando.

— E aí, filho? — Mamãe reforça, preocupada. A última coisa que ela precisa é de outro neto. — Não quero que a história com sua irmã se repita.

Incrível. Ela não menciona o nome da minha irmã desde que ela teve o bebê, há sete anos.

— Capri não está grávida, Francesca. — Ele afirma, me deixando indiferente. — Enfim... Estou voltando para Florença, mãe. Nós estamos. — Nico diz, com um sorriso estampado em seu rosto e me olha com ironia. — Pelo menos para o casamento. Semana que vem eu estou aí, família!

A comemoração dos meus pais tomou conta daquele único cômodo da casa e eu saí da cozinha para ir para a escola. Não é que eu não esteja super animada para ver meu irmão se casar, vazar da Itália por dois anos e se divorciar de novo. Porque eu estou. Mas meus pais veem o melhor em tudo que Nico faz, vive, respira, fode.

É ridículo, parece uma piada sem graça.

Talvez seja.

Sair daquela atmosfera utópica e respirar o ar da realidade de Villa Bella é revigorante. Vou pelo caminho mais longo hoje, pois tenho tempo de sobra se quiser me atrasar. Os lariços e pinheiros formam a linda vista ondulada pelas montanhas e colinas que cercam Toscana. O sol batia fraco em minhas costas, enquanto caminho em direção à casa de Athena.

Combinamos de ir juntos, já que não fazíamos isso a bastante tempo. Ele mencionou por mensagem que precisaríamos passar por Ofélia antes de ir.

A casa do garoto ficava no topo de uma das colinas mais altas de Villa Bella. Um vento fraco bate em meu rosto enquanto espero ele atender a campainha. O outono italiano é a época perfeita do ano. Não é frio demais como o inverno, mas é quente o suficiente para ir à praia e mergulhar em uma piscina privada de pessoa rica. Coisa que também fazemos no verão, primavera e inverno.

Meus pensamentos esvaem quando Athena abre a porta, usando sua clássica blusa de plantas e a calça jeans (obrigatoriamente acompanhada com o All Star vermelho de cano alto), dando adeus para um de seus pais.

— Pai! — Ele exclama, chamando a atenção de Giordanno para ele. O homem de dreads e pele amarronzada olha para o garoto e seus olhos castanhos aproveitam para me mandar simpatias com um sorriso. Sorrio de volta, tímida. — Fala para o meu pai que eu disse tchau! Beijos!! — A porta se fecha e Athena olha para mim com um grande sorriso em sua face. — E aí, garota, conta as novas!

Isso quase poderia me animar. Quase.

— Meu irmão 'tá noivo da Capri. — Digo, com zero animação. — Pelo menos ele some por algum tempo e eu não tenho que me preocupar com isso.

— E sua irmã? Sabe se ela vem para o casamento? — Sua feição animada se transforma, quase que imediatamente e torna-se preocupada. Sua testa franze, ele apoia a mão em meu ombro e falo tudo que minha mãe disse mais cedo. — Nossa.

— Será que eu mando mensagem para ela? — Questiono, observando meu amigo pensar na resposta certa para mim. Athena é o melhor amigo que se pode ter, e só jeito que ele se preocupa mostra o quão maravilhoso ele pode ser.

— Sim. Se você não contar para ela, Rosie vai descobrir no dia do divórcio dos dois. E isso seria mil vezes pior, sabe? Não magoe sua irmã desse jeito. — Ele estava certo. Ninguém mais fala com ela, além de mim. — Olha, chegamos!

Ofélia nos aguardava na escadaria da porta da frente, puta com alguma coisa.

— Ok, o que está acontecendo com vocês? — Athena diz, indignado. — Primeiro a Fran "deprê" e agora você parecendo o bonequinho vermelho do Divertidamente! O que houve, amore?

Ela bufa, ajeita seu suéter do AC/DC e resmunga:

— Hoje não tem Música. — Ofélia comentou, chateada. — A senhora Pavarotti 'tá resfriada. Logo hoje, no dia da audição para o coral! — Ela exclama. — Eu estou treinando para essa audição há três semanas! É ridículo!

— O mundo decidiu ser ridículo hoje. — Eu disse, em um suspiro.

— Ok, totalmente fora de tópico, mas para animar essa conversa de defunto: — Athena quebra o silêncio momentâneo, jogando seus cachos curtos para longe de seu rosto. Estávamos perto do colégio, e foi quando eu avistei Ursula arrumando o cabelo de sua irmã ao longe. — Quem chegar por último paga o café de depois da aula! Tchau, perdedoras! — E disparou.

— Vocês esqueceram que eu faço parte do clube de corrida? — Ofélia exclama, me passando e fazendo careta.

— Ei! Esperem por mim!

Corri até alcançar os dois e ultrapassar Ofélia. O vento agora corria mais forte de frente ao meu rosto e a sensação de descer aquela última ladeira e cair no chão esbaforida, rindo com os dois enquanto o resto da escola nos olhos como fossemos loucos era a melhor coisa do mundo. Sentei na grama, recuperando o fôlego e não me importando como eu aparentava aos outros.

Olhei para cima, e vi Ursula com a mão estendida para mim. Ela usava uma blusa branca e um vestido marrom por cima, que ia até sua coxa. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo médio, com alguns fios platinados soltos em sua nuca. Usava também um brinco com pequenos Saturnos pendurados. Seu rosto com óculos de sol, que deslizaram por sua face quando ela pendeu a cabeça para baixo, em ordem de poder me enxergar melhor, levantou uma sobrancelha e me apoiei em sua mão para levantar.

— Bom dia. — Sua voz doce e acentuada soou, com um sorriso brincalhão. Mordi meu lábio inferior discretamente com um sorriso de canto de rosto. — Qual era a ocasião?

Espero os dois lerdos chegarem para determinar quem pagaria a aposta da corrida.

— Athena vai pagar o café depois da aula, quer vir conosco? — Digo, após ver Athena se arrastar até o gramado do pátio da escola. Sua cara indignada exclama algo como "que absurdo!" e eu acabo por rir junto de sua namorada. Ursula ri conosco e acaba concordando, porém, dizendo que pagaria o dela.

Entramos em classe, Athena, Ofélia, Ursula e eu. Sentamos relativamente perto um do outro, estando Ursula mais longe de todos nós.

Catherina chegara cinco minutos após a professora de línguas chegar. Ariana Fontana, era seu nome, porém grande parte da escola a chamava apenas por Ariana. Ela aparentava juventude, nos auges dos seus vinte e sete anos, vestindo-se de forma moderna e estando sempre radiante, mesmo tendo que dar aula às oito da manhã para uma turma de quarenta adolescentes.

Ariana estava em seu traje típico colorido de jardineira amarela e uma simples blusa vermelha, que complementavam com sua pele escura e seu longo cabelo cacheado, agora um conjunto de tranças miúdas. Ela se apresentava para a turma, dando boas-vindas aos novos e antigos alunos e falando de sua matéria. Pediu para que os alunos novos que quisessem levantar-se se apresentarem, falando se sabem mais de um idioma e outras coisas. Olhei para Ursula imediatamente, que se escondeu na cadeira, tentando parecer o mais invisível que conseguia diante da classe. A professora Ariana percebeu a garota e sorriu, dizendo sem som que ela não precisava se levantar.

— Quer falar um pouco sobre você?

— Uhm... Meu nome é Ursula e eu tenho dezesseis anos. — Ela disse, tímida.

— Sabe outro idioma além do inglês? — a outra perguntou.

— Na verdade, sim. — Ursula respondeu, com um sorriso leve em seu rosto. — Nove outros idiomas.

Deu para ouvir os murmurinhos da turma, simplesmente surpresos com a garota. Nossa professora também ficou surpresa, mas não transpareceu. Seu ato de resposta foi perguntar à Ursula quais línguas ela falava e ela respondeu:

— Francês, espanhol, pachto, holandês, grego, japonês, chinês, irlandês e português. Também estou aprendendo russo e alemão.

— E italiano? — Ariana perguntou.

Ursula deu uma risada sem graça e retrucou:

— Aprendendo aos poucos.

A garota sorriu de novo, fazendo com que nossa professora sorrisse também. Informou que gostaria depois de falar com ela e Ursula assentiu com a cabeça. Senhora Fontana continuou com a aula, e mesmo que eu precisasse prestar atenção, com a garota simplesmente existindo ao meu lado, não conseguia focar.  Athena acenou, passando um bilhete para Ofélia, entregando para mim.

Abri o bilhete e me deparei com os dois rindo de mim.

" Fecha a boca que vai entrar mosca, fiore"

— Você realmente fala nove línguas? — Athena perguntou quando nos sentamos para comer no lugar de sempre.

— Na verdade, são dez, mas eu nunca lembro de inglês. — Ela responde, abrindo sua garrafa térmica. — Ironicamente, já que eu sou britânica. Respondendo sua pergunta, sim, eu falo mais de nove línguas. — A garota vira o líquido na tampa do recipiente e toma um gole. — Alguém quer chá de maçã? — Oferece para a turma e apenas Bianca aceita.

— É muito complicado? — Athena pergunta. — Sabe, saber tantas línguas.

— Na verdade, não. Às vezes me atrapalha um pouco, por exemplo, quando eu não lembro uma palavra em uma língua específica, eu sei outras nove. — Responde, sorrindo. — Eu sei muitas por ter interesse mesmo. Sem contar que é divertido xingar em outros idiomas. — Ursula comenta, fazendo que todos riam. Seu cabelo curto balança para trás e para frente, na vez de pegar algo do centro do nosso lanche coletivo. — A professora até me ofereceu uma posição de monitoria.

Ofélia e Bianca quase cuspiram o biscoito de suas bocas. A reação quase teatral das duas exageradas atraíram olhares de pessoas fora do nosso grupo, que passavam perto de onde comíamos.

— Sério? Você conseguiu em menos de duas horas aqui uma vaga que a Fran 'tá tentando há uns dois anos? — Ofélia diz, rindo da minha cara. Mostro o dedo do meio para ela e a garota ri ainda mais. — Garota, você é mágica!

— Eu não sei italiano e precisaria aprender para poder ajudar quem tivesse mais dificuldade. — Diz, cabisbaixa. Nina me fuzila com o olhar, e eu percebo imediatamente o que ela quer dizer.

— Acho que a Fran pode te ajudar. — A loira, que hoje vestia um vestido roxo pastel e deixara seu cabelo preso em um coque, tomou a frente. — Não é, Francesca?

— Ah, sim! — Exclamei, mais assustada com o olhar de Nina do que qualquer outra coisa. — Não teria problema por mim. Se for tudo bem para você.

Ursula cora. E acena a cabeça, concordando. 

GENTE KKKKKKKK o cap tá tao grande q eu vou ter q dividir em 2, ent isso significa att dupla p vcs <3 

Lembrando que quando ads atingir 300 views e 100 votos, eu vou fazer uma maratona com cinco capítulos por cinco dias, ent aproveita e espalha pro mundo

Até daqui a poucooo

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top