9. Josh

Eu deveria me sentir atraído por ela? Não. Nunca, em hipótese alguma. Mas consigo me controlar? Menos ainda. E o pior é que deveria. Há muitos motivos para isso, o principal sendo de onde essa garota veio.


Não importa o quanto ela seja bonita ou o quanto eu me sinta atraído — eu *não deveria*. Sei que parte disso é culpa minha, talvez por compará-la a Era, o que mexeu em algo dentro de mim, virei alguma chave dentro de mim ligando partes da minha mente que estavam sem funcionar alguns anos. Observar uma mulher se vestir, notar as curvas do corpo dela enquanto ela não está olhando... Tudo que estou fazendo fazendo de errado e sei disso. 


Eu não sei onde esses pensamentos vão me levar, especialmente porque cometi o primeiro grande erro: desejei. Quando vi seu corpo enquanto se vestia, meu corpo reagiu pela primeira vez em anos, e, ao invés de sentir alívio, fiquei frustrado.


Depois do jantar, deitamos juntos, e eu tentei dormir. Tentei desligar a mente, mas se tornou impossível com ela suspirando a cada minuto. O cheiro de limpeza que vinha dela era uma outra tortura. Eu poderia ter me sentido atraído por qualquer outra mulher ao longo dos anos. Loiras, morenas, ruivas. Mas não... Depois de sete anos sem me interessar por ninguém, é por ela que meu corpo e minha mente resolvem se alinhar.


— Você precisa dormir. — Eu digo, desistindo de lutar pelo meu próprio descanso.


— Você também. — Ela responde, mais corajosa e desafiadora do que no início da viagem. Não se parece mais com aquele animal assustado.


— Não com você suspirando assim!

Tina se vira para mim, seus grandes olhos azuis cheios de algo que eu não consigo identificar. Eu me aproximo, e ela recua, deitando-se de costas na cama. Eu não deveria chegar tão perto. Não deveria provocá-la, especialmente porque ela já me provoca sem fazer absolutamente nada me fazendo duvidar de mim mesmo constantemente. A luz fraca que entra pela janela ilumina seu rosto delicado.


— Desculpa... Só não consigo dormir. — Ela murmura.


Eu não deveria, mas me aproximo ainda mais. Eu quero beijá-la.


— Josh... — Ela sussurra, colocando suas mãos pequenas nos meus bíceps. Fico olhando seu rosto, procurando algum sinal que me impeça de fazer uma grande burrada.


— Me impeça de te beijar, pequena. — Eu peço, esperando que ela faça ou diga algo que me pare.


Ondas de desejo percorrem meu corpo, me fazendo tremer. Eu não deveria, mas está ficando cada vez mais difícil dizer não. Sempre fui tão controlado, até frio. Por que agora estou flertando com o perigo como um adolescente inconsequente? Ela fecha os olhos e seus lábios formam um pequeno bico. Ela quer ser beijada.


Quando meus lábios tocam os dela, uma memória invade minha mente: Era, no nosso primeiro beijo, debaixo de uma macieira carregada de frutos, descansando da colheita. Naquele tempo, a força vermelha era apenas uma sombra distante, e Quizar não havia virado a ameaça que é hoje. Estávamos longe do caos. O pai de Era, um fazendeiro bem-sucedido, nos acolhera em meio à guerra. Eu, uma criança escravizada, fui levado e vendido em troca de comida. Mas nunca fui tratado como tal. Fui criado como um filho, e Era, apenas um ano mais nova, era minha companheira nas brincadeiras até nos tornamos mais velhos e viramos mais que amigos.


Crescemos juntos, até o dia em que sua irmã, Terá, foi levada por soldados e nunca mais a vimos. Era morreu sem conhecer o destino da irmã, e sua mãe, ao descobrir que a menina estava presa no berço, se entregou para tentar libertá-la. Abigail morreu tentando fugir, assim como os outros que estavam com ela. Às vezes, penso em perguntar a Tina sobre Terá, se elas se conheciam se tornaram-se amigas em algum momento, mas temo que isso a fortalecesse ainda mais contra nós, se é que esse é seu objetivo. Porque constantemente me pergunto se essa história de família é mesmo verdade.


— Eu... eu não sei fazer isso. — Tina diz, desviando os olhos depois que tentei deslizar minha língua sobre seus lábios. Seu rosto cora.


— Só me acompanhe, pequena. — Respondo, minha voz saindo com mais malícia do que eu pretendia. Ela estremece, e um gosto mentolado e apimentado surge na minha boca. Esse desejo... não pode ser só meu.


Nossos lábios se tocam novamente, e ela começa a me acompanhar, lentamente. Minhas mãos descem pelo seu pescoço, buscando o caminho sob sua camisa até seu seio, e minha mente se apaga, guiada apenas pelo instinto, como um animal irracional. 


A sirene toca, o som ficando mais alto à medida que saio da névoa de desejo que me envolvia. Me afasto da cama, gemendo de frustração e confusão. O que foi aquilo? De onde surgiu esse sentimento avassalador?

Tina se levanta rapidamente, bate no botão da janela, e eu noto que seu corpo treme levemente. Ela me lança um olhar, seus olhos ainda carregando aquela eletricidade.


— Tem alguns monstros no campo... — Ela diz, seu semblante mudando de maneira que não consigo decifrar.


Sua pele começa a brilhar, e, por mais que eu tente me aproximar e tocá-la, não consigo. Sinto como se tivesse sido traído de novo. Ela está prestes a explodir todo o prédio, a destruir tudo ao redor. E eu, como um completo idiota, grito para que ela pare.

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