11. Não pode ir quando quiser

Três semanas de treinamento intenso. Todos os dias começam com Josh me obrigando a correr ao amanhecer. Ele me ensina a lutar, a me defender, a lançar facas e a manejar armas de fogo. São tantas aulas e exercícios que mal percebo o tempo passando. Os dias correm em um ritmo frenético.

Nunca precisei usar nada além dos meus dons para sobreviver..

Josh voltou a ser o homem de poucas palavras que era no início. Ele não conversa, apenas dá ordens, uma atrás da outra. À noite, dormimos na mesma cama, mas ele nunca me toca. Não entendo por que continua insistindo em dormir ao meu lado.

- Coloque mais força! - ele grita, sua voz ressoando pelo campo de treinamento. - Mais força! - Todos os dias, sinto vontade de queimá-lo vivo, mas me controlo, respirando fundo várias vezes.

Ouço o som do lançador de bolas e, antes que uma delas me atinja, faço com que pare no ar e a queimo.

- FORÇA!

Frustrada, reúno toda minha raiva e empurro o muro à minha frente, feito de algum material estranho. Ele se move, cedendo ao meu poder. Outra leva de bolas é lançada contra mim, mas dessa vez as detenho no ar e as mando de volta na direção de Josh. Um sorriso malicioso escapa dos meus lábios, certa de que finalmente vou atingi-lo. Mas fico surpresa quando vejo a bola parada no ar, a poucos centímetros de seu rosto. Quase o acertei, e isso me dá uma satisfação sombria. Continuo empurrando o muro até a linha final.

Paro, esperando que Josh diga algo.

- Tome um banho, coma e vá dormir. - Ele diz, sem sequer olhar para mim, antes de se virar e sair.

...

Estou de volta às ruas da Cidade D'Água. Os prédios em ruínas, os corpos espalhados, alguns destroçados, outros em avançado estado de decomposição. Eu conheço cada um desses corpos, pois os observei da primeira vez que passei por aqui.

Meu estômago se revira, a náusea provocada pelo cheiro fétido do lugar. As lágrimas se acumulam nos meus olhos, como em todas as outras vezes. Eu sei o que vai acontecer a seguir: a voz fina de uma criança pedindo à mãe que se levante e a siga. Mas a mãe nunca vai levantar.

Me aproximo, mesmo sabendo que não quero reviver isso. Não quero ver de novo o menino limpando o rosto da mãe morta, pedindo que ela acorde. O corpo da mulher está mutilado, suas pernas arrancadas. Essa visão sempre me choca.

Detesto mentiras, mas é exatamente o que faço. Minto para o menino, dizendo que sua mãe está apenas cansada, que precisa descansar um pouco mais, que vai nos encontrar mais tarde. Minto dizendo que tudo vai ficar bem, mesmo sabendo que não vai. Minto de novo quando ele adoece, vítima de uma infecção causada pelas garras de um monstro. Dias depois, minto para mim mesma dizendo que ele vai sobreviver, que posso curá-lo, mesmo sabendo que não há esperança. Minto, prometendo a mim mesma que não vou sofrer, que não vou chorar quando ele se for. E, por fim, minto uma última vez, dizendo que ele pode descansar em paz, que não precisa ter medo - embora eu soubesse que ele nunca mais acordaria. Minto, também, quando digo que a morte de Miguelito não me afetou. Porque foi a dor dessa perda que quase me matou.

Acordo com o mesmo sonho, os mesmos fragmentos de uma vida que tento manter esquecida. A dor que tento conter escorre por entre meus dedos, como água. Preciso desesperadamente liberar essa dor sufocante. Saio da cama em silêncio, atravesso o corredor, pego o elevador e sigo até o bosque. Ali, entre as árvores e o mato alto, desabo de joelhos na terra fria.

O choro vem em ondas violentas, incontroláveis. Não consigo me conter. Em seguida, o vômito me domina, fazendo meu estômago doer. É tudo tão intenso que sinto como se fosse perder a cabeça. No meio dessa bagunça, um sentimento diferente surge, algo que não é meu, mas que, de alguma forma, é reconfortante. Tento me concentrar nele, descobrir de onde vem.

Uma mão grande acaricia minhas costas, me assustando no início. Mas não preciso que ele fale nada; eu sei quem é. Sei de onde vem esse sentimento acolhedor - é a mesma fonte de todos os outros sentimentos e sabores que me cercam.

- Josh... - sussurro, e o sabor doce, com um toque de menta, enche minha boca. Ele me abraça enquanto continuo chorando.

- Por que você se levantou? Por que está aqui sozinha, no meio do nada? - Sua voz é suave, e sua mão grande continua subindo e descendo pelas minhas costas, um gesto silencioso de conforto.

- Não quero falar sobre isso. E não vou mentir pra você, por favor, não insista. - Digo, buscando seus olhos.

- Eu não vou. - Ele responde com cuidado.

- Obrigada. - murmuro, sentindo um peso sair de mim, ao menos por um momento.

O sentimento que vem dele me acalma, enquanto as mãos que descem e sobem até o meio das minhas costas criam um sentimento de segurança dentro de mim. A sensação de estar sufocando começa a sair e eu já não me sinto tão mal, não estou desesperada. Não estou mais chorando.

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