1. Tina

Desembarco do trem ainda tremendo, e uma sensação de febre se espalha pelo meu corpo. A ferida no tornozelo insiste em não cicatrizar, me lembrando a cada passo da fragilidade da minha situação. Olho para cima e para os lados, em busca de um esconderijo; a escuridão não tardará a chegar e eu preciso urgentemente de abrigo e, se possível, algo para comer.

A cidade em ruínas é exatamente como imaginei: um cemitério de edifícios em decomposição, ferros retorcidos e queimados absorvendo os ecos de um tempo que já foi. Ao meu redor, sombras se arrastam como um lembrete sombrio do que um dia foi uma grande metrópole. Um triste espelho da ganância humana e das guerras que ela desencadeia. Milhões de vidas ceifadas, tudo por conta de alguns homens que decidiram que tinham o direito de dominar, de acumular riquezas de formas ilícitas enquanto muitos morriam à míngua.

Minha respiração vacila, e uma dor agonizante percorre meu corpo, levando minha visão a escurecer. Não posso me permitir cair ao chão, cercada por estranhos que não conheço. Não é parte do meu plano acordar em um porão, com partes do meu corpo sendo decepadas ou me transformando em escrava de quem quer que ouse me dominar. Não mais, nunca mais! Eu prometi que me juntaria aos remanescentes escarlates, e vou cumprir essa promessa, mesmo que isso signifique arriscar tudo.

Vou lutar com todas as minhas forças contra Quizar e as atrocidades que ele perpetra. Sob o manto de um herói, ele esconde uma corrupção profunda. Começou como um pacificador, unindo nações, mas em poucos anos revelou sua verdadeira face, colocando sua tirania em prática, exterminando aqueles que se atreviam a questioná-lo. Ele matava sem pensar.

Mais alguns passos e minha visão se embota novamente. Dou uma rápida olhada ao redor e vejo um homem me seguindo. Ele avança tão lentamente quanto eu, mas por trás dos trapos sujos e rasgados, intuo que há um corpo forte e jovem. Os pedaços de tecido se ajustam a ele, tentando esconder os traços de seu rosto. Poderia achar que ele é bonito, se não estivesse me seguindo como um predador silencioso.

"Droga!" grito para mim mesma ao perceber que não conseguirei escapar. Minha perna lateja e meu corpo treme. Aquela presença estranha se aproxima, e sei que minha fraqueza me deixará vulnerável. "Sabe onde encontro abrigo?" pergunto a uma velha senhora que passa apressada.

"O toque de recolher é às sete, é às sete! Quem ficar poderá ser devorado," responde, claramente alheia ao caos que a cerca.

Olho para trás: ele também acelera. Sua determinação em me alcançar é evidente. As pessoas que desembarcaram comigo parecem ter evaporado sob o calor intenso ou se misturado à poeira vermelha deste lugar devastado. Tento me apressar, mas minha fraqueza torna cada movimento uma tortura.

Sinto o corpo robusto se aproximar e, antes de conseguir usar o punhal escondido na manga, minha visão se apaga e perco a firmeza das pernas. Preparei-me para o impacto, para a morte iminente que ameaça minha vontade de viver. Depois de tudo que passei, de finalmente me livrar de Quizar, é patético que eu morra assim, tão vulnerável.

Seus grandes olhos verdes são tudo o que vejo antes que uma onda de náusea me atinja, fazendo o chão se mover sob meus pés enquanto tento aumentar o passo e escapar do estranho maltrapilho.

_Pensou que seria tão fácil, pequena Tina? - O sangue gela em minhas veias ao ouvir sua voz quando ele aperta um pano imundo contra meu rosto, e tudo se apaga. Antes de me despedir deste mundo, analiso os olhos do homem, pois, se ele não me matar, eu farei com que ele sofra. O que quer que aconteça, ele vai pagar por isso.

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