Seis

Os dias que se passaram aquele sábado foram tranquilos mas de muito trabalho. Diana ainda tinha muitos livros para catalogar e praticamente todo seu horário de trabalho era aquilo.

Rafael também aparecia vez ou outra e ficava conversando amenidades sobre o curso. Diana já estava acostumada com seu jeito arrumadinho e seu vocabulário perfeito. E o fato dele ser príncipe também não era mais um problema, já que ele a deixava super à vontade para, inclusive, perguntar sobre a sua família.

— Qualquer dia eu te levo pra conhecer minhas irmãs. São uns amores, vão adorar te conhecer.

— Me avise que preciso comprar uma roupa.

— Não precisa disso. Elas adoram essas musicas pops que você ouve.

— Eu acho bom você parar de tirar onda com as musicas que eu ouço.

— Só se você passar a ouvir coisa boa.

— Nem vem, você gostou daquela banda de sábado.

— Mas aquela é uma banda boa. E não é porque você gosta uma ou outra banda boa que seu gosto musical é excelente.

— Você não tem nada pra fazer não? — Diana o provocou, mas ele só riu.

— E deixar de te perturbar?

— Você podia ao menos me ajudar a catalogar esses livros como fez naquele dia.

Ele pensou em tinha uma onda com o fato de ser príncipe, mas achou que seria demais. Caminhou até a mesa e sentou na cadeira. Pegou o primeiro livro e leu o título:

— "Guerra e Paz".

— Excelente livro. — Ela disse parecendo concentrada enquanto escrevia a série do livro.

— Acredita que nunca li?

Ela parou de escrever e olhou para ele um pouco incrédula:

— Sério? Eu li quando tinha quatorze anos, eu acho.

— Você gosta mesmo de ler, não é?

— Sim, mas não consigo aprender inglês, vai entender...

— Se você quiser ajuda com isso, acho que podemos ter aula. Eu já estava querendo mesmo ensinar já que faz tempo que não pratico.

— Sério? Você faria isso por mim?

— Claro. Não adianta eu saber de uma coisa e não poder passar.

— Eu aceito. Estou precisando mesmo. Mas queria te ajudar com algo para pagar o favor.

Ele parou e pensou.

— Você já leu os clássicos? — Ele perguntou pegando um livro de Ilíada.

— Já. Alguns, claro.

— Que tal me ajudar com os clássicos? Confesso que gostaria muito de aprender a lê-los. Principalmente para meu pai não pegar tanto em meu pé.

— Por qual gostaria de começar? Ilíada é muito difícil, não dá pra começar com ele de cara. Podíamos tentar um nacional.

— Eu já li alguns, mas confesso que não terminei a maioria. Eu me sinto culpado por não gostar tanto deles como minha família.

— Gostar ou não dos clássicos não tem a ver com gostar de ler, necessariamente. Eu adorava ler mas quando pegava um livro chato, jogava fora.

— Talvez pudéssemos então tentar um de fora. — Ele pegou um livro que estava numa pilha que já tinha sido catalogado. — Que tal... Crime e Castigo?

— Você é inteligente, Rafael. Consegue ler esse livro sozinho. — Ela disse sorrindo pegando o livro. — É uma delícia a leitura desses.

— É melhor começar com um mais leve, não acha?

— Bom, se você quer tanto começar a ler o clássicos e não quer começar com nacional, talvez Crime e Castigo seja mesmo sua praia.

— Este é meu preço. Me ajuda com esse livro que você vai conseguir aprender a falar em inglês. Ou prefere francês?

— Você já está se amostrando!

— Tanto faz, aceita ou não?

— Vamos, vamos. Acho que sextas à noite é um bom dia.

— Pensei que sexta-feira fosse dia de sair com os amigos.

— Por enquanto não tenho nenhum amigo além do senhor, vossa alteza imperial.

— Sério, eu tenho pena que você tenha que me aguentar.

— Vamos logo terminar isso, Rafael.

Ela jogou um papelzinho nele e logo depois eles já estavam falando amenidades.

***

Diana havia marcado na casa de sua prima, Magda, as aulas de inglês e também o início da leitura do livro do Tolstói. Já havia comprado uma versão de bolso na livraria do shopping naquele mesmo dia. Seria legal reciclar aquele livro já que ele era essencial para quem fazia Direito. Além de ser um livro delicioso de se ler.

Eles haviam marcado as 19 horas, e 19 horas em ponto, Rafael já estava tocando a campainha de sua casa.

— Pode entrar, topetudo.

Rafael deu um riso amarelo e entrou na casa que Diana estava hospedada. Era bonita e aconchegante, era também pequena. Da entrada já se via a sala e a cozinha.

— Minha prima disse que poderíamos estudar aqui sem problemas. Ela está de plantão hoje, então não vamos atrapalhar.

— Bom, eu estou morrendo de fome. Podemos pedir algo para comer enquanto estudamos?

— Claro! Acho que a Magda deixa o número de uma pizzaria na geladeira. Pode sentar aí na mesa e se acomodando. Trouxe o livro?

— Trouxe sim. Vamos começar com a leitura?

— Na verdade eu acho melhor com a aula primeiro. A leitura vai acabar relaxando depois da aula.

Ele confirmou a cabeça e Diana pegou o celular para pedir uma pizza. Combinaram os sabores e em cinco minutos, eles já estavam na sala estudando inglês.

Rafael tinha uma pronúncia perfeita, quase sem sotaque. Ele também ensinava muito bem, fazia questão de saber se estava se fazendo entender. Diana era uma ótima aluna também, concentrada e obstinada. Dessa vez ela estava tendo uma oportunidade única. Onde ela conseguiria ter aula de uma pessoa tão experiente? Que conhecia o mundo?

Quando a pizza chegou, quase uma hora depois, eles deram uma pequena pausa para comer. Diana pegou duas cervejas que estavam na geladeira e ofereceu para Rafael que aceitou de bom grado.

— Não sabia que gostava de beber. — Ela falou após sentar ao seu lado no chão da sala.

— Eu bebo, socialmente é claro. Mas gosto de uma cerveja. Eu prefiro vinho.

— Eu não tenho paladar para vinhos, confesso. Fora que me acostumei a tomar tudo gelado. Onde eu morava era muito quente, então uma cerveja bem gelada era sempre muito bem vinda.

— Mas um bom vinho também é gostoso. Aposto que tomando os vinhos certos você se apaixona.

Ela apenas sorriu e deu um gole na seus cerveja gelada. Não queria falar nada para ele, porém realmente não tinha condições de beber vinho, ainda mais vinhos caros que ele era acostumado a tomar.

Não queria ser esnobe, mas as vezes se sentia sim menor por não saber bem o que Rafael sabia. O fato dele não ser tão bom em literatura a pegara de surpresa. Ainda achava que a qualquer hora ele iria desmentir e corrigi-la em cada palavra que dissesse. Sabia que era injusto porque ele sempre fora o mais normal com ela. E também o mais simpático.

— Acho que podemos encerrar o inglês e começar a leitura, não acha? — Diana perguntou enquanto recolhia a caixa da pizza e as garrafinhas de cerveja.

— Por mim tudo bem.

Rafael tirou um livro de dentro da sua bolsa de couro e Diana não pôde deixar de notar que ele era uma edição super antiga.

— Peguei na biblioteca que temos em casa. — Ele deu os ombros. — Meu pai adora Guerra e Paz.

— Seu pai deve gostar de ler, não?

— Bastante. Ele é um homem de hábitos. Meu irmão também. Ele devorou quase toda a biblioteca e não perdia a oportunidade de ir ao Museu Nacional ou visitar os nossos museus.

— Acho que já perguntei, mas você sente falta dele, né?

— Todos os dias. Já faz três anos que ele foi embora. Eu o visito pelo menos duas vezes ao ano, porém nada se compara a estar aqui tão próximo de mim.

— E suas irmãs?

— Elas são maravilhosas, também somos unidos. Amélia e Gabriela são além de nosso tempo. Elas adoram cidades grandes. Porém Amélia sempre prefere os teatros e museus enquanto Gabriela gosta do corre corre da cidade.

— Não deve ser fácil ser princesa.

— A obrigação é muita, mas temos uma família enorme. Sempre tem alguém fazendo aniversário, ou nascendo ou casando... sempre estamos para lá e para cá. Mês passado nos encontramos na França para um casamento. Confesso que até agora não sei o nível de parentesco. Mas...

— Deve ser uma loucura.

Ambos ficaram em silêncio alguns segundos.

— Bom, vamos começar. — Diana falou animada. — Eu trouxe marca páginas ok? Você me diz onde não entender que a gente reler e conversa sobre.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top