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Os sons monótonos dos equipamentos hospitalares se misturavam com o leve murmúrio das vozes distantes de mim. Abri os olhos e me senti desorientada, mas logo percebi a figura familiar ao meu lado. Olhei para o lado, e encontrei o corpo de uma pessoa dormindo. Demorei para perceber que era Lalisa, encolhida no sofá enquanto tentava se aquecer com o seu casaco.
Mirei meu olhar para o vaso de flor e vi que as flores eram Dálias. Só tinha Dália. A minha flor preferida.
Observei de canto de olho Lisa se mexer, procurando uma posição confortável. Ouvi ela murmurar algo não identificado que, é bem provável que tenha sido um palavrão.
— Mas que droga de hospital — Rosé invadiu o quarto com braveza. — Uh, amiga, que bom que acordou! — ela veio até mim.
— O que aconteceu pra você xingar o hospital? — perguntei enquanto ela sentava ao meu lado.
— Eles me negaram um prato de comida. Disseram que é só pra pacientes e acompanhantes dos pacientes — ela cruzou os braços e revirou os olhos.
— Você não é minha acompanhante?
— Não — ela encarou Lisa que estava quase caindo do sofá pequeno. — Lisa, será que dá pra você voltar pra turnê? Eu quero comida de graça — ela choramingou e eu ri.
— Ela tá aqui há muito tempo? Quando ela vai voltar pra turnê?
— Jennie, ela cancelou todos os shows dela. Ou melhor, ela cancelou a turnê.
— Por quê?
— Pra ficar com você?! — ela franziu o cenho e eu mirei meu olhar triste a ela. — Amiga, você tem que entender que a partir do momento em que você a namorar alguém, esse alguém se torna uma prioridade na sua vida. Portanto, você é uma prioridade na vida da Lisa.
— Mas eu disse pra ela não se preocupar comigo.
— Jennie, para de ser cabeça dura e aceita que a Lisa faria de tudo por você. Puta merda, hein! Cê tá me estressando já, mulher.
— Mas...
— Cala a boca, Jennie Kim! A guria veio lá do Brasil, cancelou a turnê dela e, quando ela chegou, veio direto pro hospital. Quando eu digo isso, eu tô querendo dizer que ela não desfez as malas e nem nada. Ela veio do aeroporto pro hospital. Então trate de parar de ser cabeça dura e aceitar que a Lisa tá aqui pra você.
— O que tá acontecendo? — Lisa estava de costas para nós, então, quando ela foi se virar para ver o que acontecia no quarto, a garota acabou caindo no chão.
— Sua idiota! — Rosé riu da Lisa enquanto ela se levanta com uma expressão de dor. — O chão tremeu quando você caiu, tribufu.
— Ah, você tá aqui. Tá explicado o porquê desse cheiro de merda, seu rato de esgoto — ela se aproximou lentamente de nós enquanto mantinha sua mão nas suas costas.
Rosé continuou rindo da garota enquanto eu tentava conter o riso.
— Minha bunda tá doendo — ela reclamou antes de encarar meus olhos. — Amor...
Lisa me encarou com dor e preocupação em seu olhar, fazendo-me ter um pingo de medo e angústia dentro de mim.
— Eu vou deixar o casal a sós. Vou roubar comida de algum retardado por aí — ela se levantou. — Bye, bye — a loira sumiu assim que a porta foi fechada.
— Jennie — ela murmurou e seus olhos encontraram os meus.
Minha garganta doeu quando eu tentei falar:
— O que... o que está acontecendo?
Lisa segurou minha mão delicadamente, e eu pude sentir a sinceridade em seus olhos.
— Você tentou se matar, Jennie. Eu cancelei a turnê pra estar aqui, porque você é mais importante do que qualquer show.
Uma onda de emoção me atingiu, mas também um sentimento de desconforto dominou o meu corpo.
— Eu não queria que você cancelasse tudo por mim. Não quero ser a razão pra você desistir das coisas.
Lisa suspirou, como se tentasse encontrar as palavras certas para me dizer.
— Jennie, você não é uma razão pra desistir. Você é uma razão pra ficar. Minha escolha foi estar aqui, ao seu lado, porque te amo mais do que qualquer coisa nesse mundo.
Eu desviei o olhar, incapaz de encarar a intensidade do seu olhar.
— Eu odeio ser prioridade na vida de alguém, Lisa. Isso só complica as coisas.
Ela apertou suavemente minha mão.
— Eu quero estar aqui como alguém que se preocupa, não pra te fazer sentir presa. Vamos enfrentar isso juntas, superar cada desafio uma do lado da outra.
Meus olhos encontraram os dela novamente, e havia algo reconfortante na sua promessa silenciosa. Talvez, só talvez, eu não precisasse temer em ser prioridade.
— Você vai ficar, não vai? — perguntei.
Lisa sorriu, e um misto de carinho e determinação dominou sua áurea por volta de seu corpo.
— Sempre, Jennie. Estamos nisso juntas, superando cada obstáculo. Você não está sozinha, meu amor.
No momento em que eu me esfaqueei, me arrependi profundamente. Eu pensei na Lisa, na Rosé, nos meus pais e nos meus fãs, só depois que a besteira já estava feita...
A minha sorte é que a Rosé tem a chave do meu apartamento, então imagino que ela tenha encontrado o meu corpo a tempo, antes que acontecesse o pior.
Lisa saiu de perto de mim para beber água, logo a garota sorriu, trazendo consigo um copo de água para mim também.
— Aqui, amor, beba devagar — aceitei o copo com gratidão, agradecendo por ter alguém tão atenciosa ao meu lado.
— Você sempre cuida de mim, Lisa. Não sei o que eu faria sem alguém pra me mimar — sorri enquanto bebia a água.
Ela se sentou na borda da cama e seus olhos lindo e perfeitos encontraram os meus.
— Sempre, Jennie. Quero que se sinta melhor o mais rápido possível. Não gosto de te ver assim, amor.
Observei seus dedos traçarem padrões reconfortantes na palma da minha mão, sentindo um arrepio percorrer pelo o meu corpo, trazendo consigo a sensação de conforto e nervosismo ao mesmo tempo por ter um toque tão macio de uma pessoa tão importante na minha vida.
— Você é tão paciente, mesmo quando eu não mereço — baixei o olhar, com medo de encarar a garota nos olhos.
Lisa riu suavemente.
— Não se trata de merecimento, é sobre amor. E eu te amo mais do que palavras podem expressar.
Senti meu coração se aquecer, e um sorriso involuntário se formou nos meus lábios, deixando bem amostra o quão feliz eu me senti com aquelas simples palavras. Levei meu olhar para o olhar da garota em minha frente.
— Às vezes, eu não entendo como mereço alguém tão incrível como você — seus olhos brilharam e seu sorriso murchou por míseros segundos, fazendo uma preocupação atingir em cheio o meu peito.
Lisa inclinou sua cabeça lentamente, encarando-me nos olhos sem desviar o seu olhar. Uma onda de calor me atingiu com precisão ao ter seus lábios roçando suavemente nos meus enquanto seu polegar massageava o meu queixo, deixando à mostra sua demonstração de amor e carinho.
— Você merece toda a felicidade que o mundo puder te proporcionar, Jennie. E eu vou estar aqui pra garantir isso. Pra garantir que você sinta nem que seja o mínimo de prazer em viver a sua vida.
Seus braços envolveram-me em um abraço caloroso, aconcheguei minha cabeça em seu peito, ouvindo as batidas tranquilizadoras do seu coração, trazendo consigo uma melodia satisfatória e bonita de se ouvir.
— Nunca pensei que encontraria alguém que me fizesse sentir assim.
Lisa acariciou meus cabelos com gentileza e leveza, tentando ao máximo não puxar nenhum fio despercebido.
— Eu também não, mas tô tão grata por ter você na minha vida. Fomos feitas uma para a outra.
E ali, naquele silêncio reconfortante do quarto de hospital, eu percebi que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, temos algo especial.
Um amor que transcende as adversidades e se manifesta nos pequenos gestos de cuidado e carinho. Estamos conectadas, e esse pensamento aqueceu o meu coração enquanto eu adormecia nos braços amorosos de Lisa.
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