Capítulo 7 Um irmão idiota
Otávio Guimarães
O vento uivava lá fora, a tempestade parecia piorar a cada minuto. Os trovões retumbavam, fazendo tremer as janelas da minha casa. Eu estava sentado no sofá da sala, lendo um relatório importante, tentando me concentrar apesar do barulho ensurdecedor.
Lívia estava no quarto de hóspedes. Desde que ela havia acordado naquele hospital, nossa convivência era cheia de atritos e poucos momentos de compreensão. Eu não conseguia entender como uma mulher que eu tinha atropelado conseguia ser tão teimosa e obstinada.
De repente, ouvi batidas fortes na porta. Quem seria àquela hora e com aquele tempo? Levantei-me e fui atender. Era Lucas, meu irmão mais novo, completamente encharcado. Seus cabelos estavam colados na testa e ele parecia mais aborrecido do que de costume.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, segurando a porta para que ele entrasse.
— Você não vai acreditar no temporal lá fora. Tive que parar aqui porque meu carro quebrou na estrada. Perdi a chave da sua casa, irmão, foi mal. — disse ele, entrando apressado e se sacudindo como um cachorro molhado.
Fechei a porta atrás dele e o conduzi até a sala. Dei-lhe uma toalha e ele começou a secar o cabelo. Lucas sempre fora um encrenqueiro, o oposto de mim em quase todos os aspectos. Enquanto eu era frio e calculista, ele era impulsivo e irreverente.
— Então, como vão as coisas por aqui? — ele perguntou, jogando a toalha de lado e me encarando com um sorriso maroto.
— Tudo tranquilo. — respondi, voltando ao meu relatório.
Lucas olhou em volta, como se estivesse procurando algo ou alguém. Quando ele avistou a porta do quarto de hóspedes entreaberta, um sorriso malicioso apareceu em seu rosto.
— Então é verdade. — disse ele, rindo. — Você está transando com a mulher que atropelou.
Senti meu sangue ferver com o comentário dele. Eu sabia que Lucas adorava me provocar, mas isso era demais. Antes que eu pudesse responder, Lívia apareceu na sala. Ela parecia furiosa, os olhos faiscando de raiva.
— Você é um idiota completo, sabia? — disse ela, com a voz cheia de desprezo. — Seu irmão não é nada além de um babaca arrogante. E, para sua informação, não está acontecendo nada entre nós dois.
Lucas levantou as mãos, fingindo inocência.
— Calma, calma! Só estava brincando. Não sabia que você estava tão sensível — disse ele, ainda com aquele sorriso provocador.
— Sensível? — retrucou Lívia, avançando em direção a ele. — Você não faz ideia do que eu passei. Esse acidente mudou minha vida e, em vez de me ajudar, você só sabe fazer piadinhas.
Eu me coloquei entre os dois, tentando evitar que a situação saísse do controle.
— Chega! — gritei, olhando para Lucas. — Você passou dos limites. E você, Lívia, por favor, volte para o seu quarto. Isso não vai ajudar em nada.
Lívia me olhou com uma mistura de raiva e frustração. Eu podia ver que ela estava à beira das lágrimas, mas se segurava firmemente. Sem dizer mais nada, ela se virou e voltou para o quarto, batendo a porta atrás de si.
Lucas deu de ombros e se jogou no sofá, como se nada tivesse acontecido.
— Você sempre soube escolher suas encrencas, hein, Otávio? — disse ele, rindo.
— Ela não é uma encrenca, Lucas. — respondi, sentando-me na poltrona oposta a ele. — É uma mulher que precisa de ajuda, e eu estou fazendo o que posso para consertar o que fiz.
Ele balançou a cabeça, descrente.
— Sempre tão sério e responsável. Não mudou nada.
Fiquei em silêncio por um momento, observando meu irmão. Ele sempre soube como mexer com meus nervos, mas dessa vez era diferente. A presença de Lívia na minha casa tinha mexido com minha rotina e, de certa forma, com meus sentimentos também. Eu não queria admitir, mas algo nela me fazia querer ser melhor, não apenas o empresário frio e calculista que todos conheciam.
— Vai ficar aqui por quanto tempo? — perguntei, tentando mudar de assunto.
— Até o tempo melhorar e meu carro ser consertado, acho. — respondeu ele, se espreguiçando no sofá. — A não ser que você queira me expulsar na tempestade.
Suspirei, resignado.
— Pode ficar. Mas, por favor, evite provocar a Lívia. Ela já passou por muita coisa.
Lucas assentiu, mas eu sabia que ele não prometia nada. Ele adorava uma boa confusão, e eu teria que ficar de olho nele. Voltei ao meu relatório, tentando me concentrar, mas os pensamentos sobre Lívia e sua situação não me deixavam em paz.
A tempestade continuava a rugir lá fora, mas dentro da casa, um silêncio tenso se instalou. Lucas, aparentemente exausto, logo adormeceu no sofá. Eu, no entanto, não conseguia tirar da cabeça as palavras dele e a reação de Lívia. Ela era uma mulher forte, mas claramente estava no limite. Precisava encontrar uma maneira de ajudá-la sem piorar as coisas.
Quando finalmente consegui me desligar do relatório, levantei-me e fui até a porta do quarto de hóspedes. Bati suavemente, esperando uma resposta. Depois de um momento, ouvi a voz de Lívia, abafada pela porta.
— O que você quer?
— Só quero conversar. — respondi. — Podemos?
A porta se abriu um pouco e eu vi o rosto dela, ainda marcado pela raiva e pelo cansaço.
— Desculpe pelo Lucas. Ele não tem filtro e não sabe quando parar. — disse, tentando ser sincero.
Lívia suspirou e abriu mais a porta, permitindo que eu entrasse. Sentei-me na cadeira ao lado da cama, enquanto ela se acomodava na beirada.
— Seu irmão é um idiota. — disse ela, finalmente relaxando um pouco.
— Concordo. — respondi, sorrindo. — Mas, por favor, não deixe que ele te abale. Eu realmente quero te ajudar, Lívia. E não só porque me sinto culpado pelo acidente.
Ela me olhou, surpresa.
— Então por quê?
Parei por um momento, escolhendo as palavras com cuidado.
— Porque você é uma pessoa forte e determinada. E, de alguma forma, me fez perceber que posso ser mais do que apenas um empresário frio. Quero fazer a coisa certa, não só por você, mas por mim também.
Ela ficou em silêncio, absorvendo minhas palavras. Depois de um momento, assentiu.
— Tudo bem. Vamos tentar deixar o passado para trás e focar no que podemos fazer agora.
Sorri, sentindo um peso ser aliviado dos meus ombros. A tempestade lá fora ainda rugia, mas dentro daquela pequena casa, uma trégua começava a se formar. E, pela primeira vez em muito tempo, senti que as coisas poderiam realmente melhorar.
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