Capítulo 6 Queda embaraçosa

Lívia Fontes

Explorar a casa de Otávio era como entrar em um labirinto de luxo. Cada canto tinha algo novo para me surpreender, desde esculturas modernas até quadros que pareciam mais caros do que minha cidade inteira. Eu sabia que deveria estar descansando, mas a curiosidade venceu o bom senso. Quem poderia me culpar? Aquele lugar era um convite à aventura.

Estava caminhando pelos corredores, admirando cada detalhe, quando meus olhos captaram uma escada que parecia levar a um andar superior ainda mais misterioso. "Por que não?", pensei. Comecei a subir, tentando ser o mais silenciosa possível. Cada degrau rangia levemente, quase como se estivesse me avisando do perigo iminente.

Quando cheguei ao topo, um corredor se estendia à minha frente, com portas fechadas de ambos os lados. Escolhi a da direita, e ao empurrá-la, me deparei com uma biblioteca impressionante. As prateleiras alcançavam o teto e estavam abarrotadas de livros de todos os tipos. Meus dedos correram pelas lombadas dos livros, sentindo a textura dos anos de sabedoria ali acumulados. Peguei um livro ao acaso e comecei a folhear.

― Espero que você não se importe. ― sussurrei, como se Otávio pudesse me ouvir.

Foi aí que o desastre começou. Ao tentar colocar o livro de volta na prateleira, perdi o equilíbrio. A ponta do meu pé escorregou em um tapete estrategicamente colocado para me fazer tropeçar, e comecei a cair em câmera lenta, como se estivesse protagonizando uma cena de filme. Tentei me agarrar a algo, qualquer coisa, mas era tarde demais.

Com um baque surdo, caí no chão, derrubando uma pequena mesa e algumas cadeiras no processo. Um ruído alto ecoou pela casa, certamente chamando a atenção de Otávio. Tentei me levantar rapidamente, mas senti uma dor aguda no tornozelo. Quando olhei para baixo, percebi que estava torcido de um jeito estranho.

― Ah, que maravilha, Lívia. Agora você fez besteira de verdade. ― murmurei para mim mesma, tentando me levantar sem sucesso.

Foi nesse momento que ouvi passos apressados no corredor. Otávio apareceu na porta, com uma expressão que era uma mistura de preocupação e irritação.

― O que diabos você está fazendo? ― Ele exclamou, vindo em minha direção.

― Eu... estava só... explorando? ― respondi, tentando dar um sorriso inocente, apesar da dor.

Sem dizer mais nada, ele se ajoelhou ao meu lado e passou um braço por baixo dos meus joelhos e outro nas minhas costas, me levantando nos braços como se eu fosse uma pluma.

― Você deveria estar descansando, não explorando a casa como uma criança travessa. ― ele resmungou, mas havia uma leveza em seu tom que eu não esperava.

― E você deveria trancar a porta se não quer visitas inesperadas. ― retruquei, tentando ignorar o fato de que estar tão perto dele fazia meu coração disparar.

Ele me carregou até o andar de baixo com facilidade, me colocando suavemente no sofá da sala principal. Antes que eu pudesse protestar, ele se ajoelhou novamente para examinar meu tornozelo.

― Parece que você torceu feio. ― disse ele, franzindo a testa. ― Vai precisar de gelo e descanso.

― Ótimo mais descanso. Exatamente o que eu queria. ― suspirei, revirando os olhos.

Ele ignorou meu sarcasmo e foi buscar um saco de gelo na cozinha. Quando voltou, enrolou-o em um pano e o colocou gentilmente sobre meu tornozelo. Senti um alívio imediato com o frio.

― Obrigada. ― murmurei, tentando não parecer muito grata.

― Não tem de quê. Agora, por favor, pare de tentar transformar minha casa em um parque de diversões. ― ele disse, com um leve sorriso.

Olhei para ele, tentando entender aquele homem que parecia tão distante e arrogante, mas que agora estava cuidando de mim com tanta paciência.

― Você é um mistério, Otávio Guimarães. ― falei, sem conseguir me segurar.

Ele levantou uma sobrancelha, intrigado.

― E por que você acha isso?

― Porque você age como se eu fosse uma inconveniência, mas está aqui cuidando de mim mesmo assim. Você podia simplesmente me deixar sozinha e voltar ao seu trabalho importante.

Otávio deu um sorriso meio de lado, algo que eu ainda não tinha visto antes. Era quase... caloroso.

― Talvez eu seja um mistério até para mim mesmo. ― respondeu, levantando-se. ― Agora, fique quieta e descanse. Eu volto daqui a pouco para ver como você está.

Enquanto ele se afastava, não pude deixar de sorrir. Talvez, só talvez, Otávio não fosse tão insuportável quanto parecia. E quem sabe, com um pouco mais de exploração (cautelosa desta vez), eu pudesse descobrir mais sobre o homem por trás da fachada fria e calculista.

Com o tornozelo latejando e a cabeça cheia de pensamentos, me recostei no sofá e fechei os olhos. Talvez descansar não fosse tão ruim assim, afinal.

A dor no tornozelo estava amenizando graças ao gelo, mas minha mente estava a mil. Otávio não era apenas o empresário frio e calculista que eu imaginava. Havia algo mais, algo que me intrigava cada vez mais. Decidi que, enquanto estivesse presa naquela casa, iria descobrir quem era realmente Otávio Guimarães.

― Não deveria ser tão difícil, né? ― murmurei para mim mesma, ajustando o gelo no tornozelo.

Algum tempo depois, ouvi os passos dele se aproximando novamente. Ele entrou na sala com uma bandeja nas mãos, trazendo uma xícara de chá e alguns biscoitos.

― Achei que você poderia querer algo para comer. ― disse, colocando a bandeja na mesa de centro.

― Obrigada. Estou começando a achar que você é mais gentil do que aparenta. ― respondi, pegando a xícara e tomando um gole do chá.

Ele se sentou na poltrona ao lado do sofá, observando-me com um olhar curioso.

― E você é mais teimosa do que aparenta. ― rebateu ele, com um sorriso leve.

― Acho que somos uma dupla interessante então. ― respondi, rindo.

Passamos alguns minutos em um silêncio confortável. Eu estava começando a perceber que, quando ele não estava sendo irritantemente autoritário, Otávio podia ser uma companhia agradável.

― Então, o que você estava tentando encontrar na minha casa? ― perguntou ele, quebrando o silêncio.

― Nada específico. Só queria conhecer mais do lugar onde estou presa... quer dizer, hospedada. ― corrigi rapidamente, tentando disfarçar o constrangimento.

Ele riu, um som raro que parecia suavizar seus traços.

― Bem, agora que você mencionou, talvez eu devesse te dar um tour adequado quando seu tornozelo melhorar. ― disse ele, surpreendendo-me.

― Isso seria ótimo. ― concordei, sinceramente empolgada.

Enquanto conversávamos, fui percebendo que havia muito mais em Otávio do que eu imaginava. Ele começou a falar um pouco sobre a história da casa, das peças de arte e dos livros na biblioteca. Cada detalhe revelado apenas aumentava minha curiosidade sobre ele e sua vida.

― E você, Lívia? O que você fazia antes de eu... bem, antes de eu te atropelar? ― perguntou ele, com uma pontada de culpa na voz.

― Eu trabalhava em uma loja de roupas no interior. Não era nada glamoroso, mas era honesto. ― respondi, encolhendo os ombros. ― Decidi tentar a sorte na cidade grande, mas parece que não foi a melhor das ideias.

― Às vezes, a vida nos leva por caminhos inesperados. Talvez este seja um desses momentos para você. ― comentou ele, pensativo.

― Talvez. Ou talvez eu só tenha uma péssima sorte. ― respondi, rindo.

A conversa continuou, e quanto mais falávamos, mais eu percebia que estava gostando de estar ali, mesmo com todas as circunstâncias adversas. Otávio, aos poucos, estava se revelando uma pessoa interessante e complexa, muito diferente da primeira impressão que tive.

De repente, a campainha tocou, interrompendo nossa conversa. Otávio levantou-se rapidamente e foi atender. Aproveitei o momento para observar a sala ao meu redor, notando detalhes que antes haviam passado despercebidos.

― Parece que temos visitas. ― disse ele ao voltar, acompanhado de uma mulher elegante, que eu deduzi ser sua assistente ou algo assim.

― Lívia, esta é Carolina, minha assistente pessoal. Carolina, esta é Lívia, minha... hóspede. ― apresentou ele, com um leve tom de hesitação na voz.

― Prazer em conhecê-la, Lívia. ― disse Carolina, com um sorriso caloroso. ― Otávio falou bastante sobre você.

― Só espero que tenha sido coisa boa. ― respondi, tentando parecer confiante.

― Claro. ― disse Otávio, rapidamente. ― Carolina, pode me ajudar com alguns documentos no escritório?

Enquanto eles se afastavam para o escritório, fiquei refletindo sobre tudo que havia acontecido na minha vida. Era estranho como as coisas mudam tão rapidamente. De me sentir uma intrusa na casa de Otávio, agora eu me sentia quase parte daquele lugar.

Algum tempo depois, Otávio voltou sozinho, com um olhar mais sério.

― Preciso resolver algumas coisas no escritório, mas não vou demorar. Você vai ficar bem? ― perguntou ele, com uma leve preocupação na voz.

― Vou sim. Obrigada por tudo, Otávio. ― respondi sinceramente.

Ele assentiu e se afastou, deixando-me sozinha novamente. Peguei o livro que havia deixado cair e comecei a ler, tentando distrair minha mente do tumulto de pensamentos e sentimentos que Otávio estava causando.

Enquanto lia, pensei em como a vida pode ser imprevisível. Em um momento, eu estava apenas tentando sobreviver na cidade grande, e no outro, estava sendo cuidada por um homem que eu nunca imaginaria conhecer. Talvez, de alguma forma estranha e misteriosa, esse fosse o destino me mostrando que há mais na vida do que eu poderia imaginar.

E, talvez, apenas talvez, Otávio Guimarães fosse uma peça importante nesse quebra-cabeça.

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