Capítulo 5 Riso e irritação
Otávio Guimarães
A manhã começou cedo, como de costume. Vesti meu terno cinza-escuro e ajeitei a gravata com precisão. Antes de sair, lembrei-me de que precisava falar com Lívia. Caminhei até o quarto onde ela estava hospedada, hesitando por um momento antes de bater na porta.
— Lívia, sou eu, Otávio. Vou para a empresa agora. Se precisar de alguma coisa, pode pedir para a cozinheira.
Esperei um instante, e a porta se abriu lentamente. Lívia apareceu, ainda meio sonolenta. Seus cabelos estavam bagunçados de um jeito cômico, e, mesmo contra minha vontade, um sorriso escapou.
Ela franziu a testa, claramente irritada.
— Está rindo de mim? — perguntou, cruzando os braços.
Eu me recompus rapidamente, tentando adotar um tom sério.
— Não, claro que não. Só achei... engraçado. Mas não estava rindo de você, Lívia. Só foi uma reação inesperada.
Ela bufou, visivelmente contrariada.
— Pois pareceu que estava rindo de mim. Não preciso da sua pena, Otávio.
Suspirei, tentando manter a calma. Lívia era teimosa e orgulhosa, o que só a tornava mais intrigante.
— Não é pena, Lívia. Só quero que se sinta confortável enquanto estiver aqui. Não precisa me ver como seu inimigo.
Ela desviou o olhar, mexendo nos cabelos em um gesto nervoso.
— Eu só quero recuperar minha vida, sair daqui o mais rápido possível. Não estou acostumada a depender dos outros.
— Entendo. — respondi, tentando ser compreensivo. — Mas enquanto estiver aqui, quero que saiba que pode contar comigo. E se precisar de algo, a cozinheira está à disposição.
Ela não disse nada, apenas fechou a porta com um pouco mais de força do que o necessário. Fiquei parado por um momento, refletindo sobre a teimosia de Lívia. Era algo que eu não encontrava com frequência nas pessoas ao meu redor. Essa atitude desafiadora despertava uma curiosidade que eu não estava acostumado a sentir.
Me dirigi à cozinha, onde a cozinheira já estava preparando o café da manhã.
— Bom dia, Dona Maria. — cumprimentei.
— Bom dia, senhor Otávio. Deseja algo especial para o café hoje?
— Não, obrigado. Só queria avisar que a senhorita Lívia pode precisar de algo. Esteja atenta, por favor.
Dona Maria assentiu, e eu me dirigi à saída, pegando minhas chaves no caminho. O trajeto até a empresa foi tranquilo, mas minha mente continuava voltando à cena no quarto. Havia algo em Lívia que me intrigava, algo que não conseguia decifrar. Talvez fosse a maneira como ela resistia à minha ajuda, a sua independência feroz.
Ao chegar na empresa, fui direto para a minha sala. Minha assistente, Carolina, já estava lá, pronta com a agenda do dia.
— Bom dia, senhor Guimarães. Temos uma reunião com os investidores às dez e um almoço com o novo fornecedor ao meio-dia.
— Perfeito, Carolina. Prepare tudo para a reunião. Quero que estejam cientes de cada detalhe do nosso plano de expansão.
Enquanto Carolina saía, minha mente voltou novamente a Lívia. Tentei afastar esses pensamentos e me concentrar no trabalho. A reunião com os investidores foi intensa, mas produtiva. Senti que estávamos no caminho certo para o crescimento que eu havia planejado. Durante o almoço com o fornecedor, me peguei distraído, imaginando o que Lívia estaria fazendo. Será que ela havia pedido algo à cozinheira? Estaria confortável?
Ao retornar para a minha sala, encontrei Carolina com alguns documentos importantes para revisar. Tentei me concentrar, mas algo em mim estava inquieto. Era irritante, mas, ao mesmo tempo, havia uma estranha excitação em lidar com alguém tão diferente de mim. Ela era um mistério que eu queria resolver, uma peça do quebra-cabeça que faltava.
Quando o dia finalmente terminou, voltei para casa, esperando encontrar alguma normalidade. Ao entrar, fui direto ao quarto de hóspedes. Bati na porta, desta vez mais suavemente.
— Lívia, sou eu de novo. Posso entrar?
Houve um breve silêncio antes de ela responder.
— Pode.
Entrei e a encontrei sentada na cama, olhando para tela do celular. Seus cabelos estavam um pouco mais arrumados, mas ainda havia algo desordenado e natural nela que eu achava encantador.
— Como foi seu dia? — perguntei, tentando parecer casual.
Ela deu de ombros.
— Foi tranquilo. Sua cozinheira é muito gentil. Não precisava de sua preocupação.
Assenti, tentando não parecer frustrado pela sua resistência constante.
— Fico feliz que tenha sido assim. Só queria ter certeza de que está confortável aqui.
Ela olhou para mim, seus olhos brilhando com uma intensidade que me desconcertava.
— Eu vou ficar bem, Otávio. Só preciso de tempo.
— Entendo. — respondi, dando um passo para trás. — Qualquer coisa, estarei por aqui.
Saí do quarto, sentindo uma mistura de frustração e fascínio. Havia algo em Lívia que me puxava, algo que eu não conseguia ignorar. Talvez fosse a sua determinação, sua força silenciosa. De qualquer forma, eu estava determinado a descobrir mais sobre ela, mesmo que isso significasse enfrentar sua teimosia e resistência.
Passei o resto da noite refletindo sobre nossa breve interação. Percebi que Lívia não era apenas uma jovem teimosa; ela era alguém que havia enfrentado dificuldades e estava determinada a não ser derrotada por elas. Isso despertava em mim uma admiração silenciosa, algo que eu não estava acostumado a sentir.
Enquanto me preparava para dormir, prometi a mim mesmo que iria além das superficialidades. Queria entender Lívia, conhecer suas motivações e medos. E, de alguma forma, ajudar a curar as feridas que a vida havia lhe causado. Essa jornada não seria fácil, mas algo em mim estava disposto a enfrentá-la.
Assim, deitei-me, com a imagem de Lívia em minha mente e uma determinação renovada no coração. Eu iria descobrir o que a fazia ser tão resiliente, e talvez, no processo, encontrasse um novo propósito para mim mesmo.
Acordei no dia seguinte com uma determinação renovada. Depois de me arrumar, fui direto para a cozinha. Dona Maria estava preparando o café da manhã.
— Bom dia, Dona Maria. — cumprimentei.
— Bom dia, senhor Otávio. Dormiu bem?
— Sim, muito bem. Queria falar com você sobre Lívia. Ela precisa de algo especial hoje?
Dona Maria sorriu, compreensiva.
— Não, senhor. Ela está bem. Pediu apenas um café simples e torradas. Parece uma moça independente.
— É verdade. Vou ver como ela está.
Fui até o quarto de hóspedes e bati suavemente na porta.
— Lívia, posso entrar?
— Entre. — respondeu ela, a voz mais suave do que no dia anterior.
Abri a porta e a encontrei sentada à mesa, tomando seu café. Seus cabelos ainda estavam um pouco bagunçados, mas havia uma expressão de determinação em seu rosto.
— Bom dia. — disse, tentando parecer o mais amigável possível.
— Bom dia. — respondeu ela, com um sorriso tímido.
— Como está se sentindo hoje?
— Melhor, obrigada. E você? Já indo para a empresa?
Assenti.
— Sim, tenho algumas reuniões importantes. Mas queria ter certeza de que você está bem antes de sair.
Ela pareceu surpresa com minha preocupação, mas não comentou.
— Estou bem, obrigada.
Sorri, aliviado.
— Nos vemos mais tarde.
Saí do quarto sentindo que havia dado um passo à frente. No caminho para a empresa, pensei em como poderia continuar ajudando Lívia. Algo em mim queria ver essa jovem mulher se recuperar e voltar a ser a pessoa forte e independente que claramente era.
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