Capítulo 47 Tentativa de beijo roubado
Lívia Fontes
Eu estava na minha sala, concentrada na tela do computador, terminando de revisar um relatório chato que parecia não ter fim. Aquele tipo de tarefa que faz a gente questionar todas as escolhas de vida. Mas, eu estava decidida a terminar logo para poder almoçar em paz. De repente, ouvi uma batida na porta da minha sala.
— Entra! — disse, sem tirar os olhos da tela.
A porta se abriu lentamente e Kaio entrou. Ele estava com aquele sorriso típico dele. Eu sabia que ele tinha uma queda por mim, mas sempre tratei de deixar bem claro que eu não estava interessada.
— E aí, Lívia, tudo bem? — ele perguntou, se encostando no batente da porta.
— Oi, Kaio. Tudo bem, e você? — respondi, tentando ser o mais neutra possível.
Ele fechou a porta atrás de si e começou a caminhar em minha direção. Senti um leve desconforto, mas pensei que era só paranoia minha. Voltei a focar no relatório, mas não pude deixar de notar que ele continuava se aproximando.
— Precisa de alguma coisa? — perguntei, tirando finalmente os olhos da tela e encarando-o.
Ele se aproximou mais e parou ao lado da minha mesa, apoiando uma mão no tampo. Seus olhos estavam intensos, mais do que o normal, e senti um frio na espinha.
— Na verdade, sim. — ele disse, com a voz baixa. — Eu preciso te falar uma coisa.
Engoli em seco. Era claro como a luz do dia que ele estava prestes a fazer uma besteira. E eu, sinceramente, não estava com paciência para lidar com isso.
— Kaio, olha... Se for o que eu tô pensando, eu já te disse que não rola, tá? Eu tô com o Otávio, você sabe disso.
Ele deu uma risadinha nervosa e se inclinou mais perto.
— É que... Eu não consigo mais esconder, Lívia. Eu gosto de você. Desde o primeiro dia que te vi. Sei que você tem um namorado, mas eu posso te fazer mais feliz do que ele.
Eu não sabia se ria ou se ficava irritada com aquela declaração absurda. E, sinceramente, quem é que ainda fala assim?
— Kaio, pelo amor de Deus, para com isso. Eu já te falei que tô com o Otávio e tô feliz. Não tem nada que você possa dizer que vai mudar isso.
Ele então, num movimento rápido e inesperado, se inclinou ainda mais e tentou me beijar. Eu congelei por um segundo, surpresa pela ousadia dele. Mas, no momento seguinte, instintivamente, levantei a mão e dei um tapa bem-dado na cara dele.
O barulho ecoou pela sala. Kaio recuou, com a mão no rosto, visivelmente surpreso — e talvez até um pouco assustado.
— Você tá maluco?! — gritei, levantando da cadeira, furiosa. — Como você se atreve a fazer isso?
Ele piscou algumas vezes, ainda processando o que tinha acabado de acontecer.
— Lívia, eu... Eu só achei que...
— Achou o quê? Que eu ia trair o Otávio assim, do nada, porque você resolveu aparecer aqui com essa ideia idiota na cabeça? — interrompi, minha voz cheia de raiva. — Você não entende que eu amo ele? De verdade? E que nada, absolutamente nada, vai mudar isso?
Kaio parecia perdido. Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas não saiu som algum. Eu aproveitei para continuar, ainda fervendo de raiva.
— Eu sempre fui clara com você, Kaio. Sempre. Nunca dei motivo pra você pensar que eu queria algo a mais. Eu tô com o Otávio porque eu escolhi estar com ele. Porque ele é o homem que eu amo.
Finalmente, ele conseguiu falar alguma coisa.
— Eu... Eu não queria te ofender, Lívia. Me desculpa. Eu só pensei...
— Pensou errado! — cortei novamente. — E agora você precisa sair daqui. Agora.
Ele hesitou por um momento, mas depois assentiu, ainda segurando o rosto onde eu o tinha estapeado. Parecia ter finalmente entendido a gravidade da situação.
— Tá, eu... Eu vou sair. Desculpa mesmo, Lívia.
Ele se virou e saiu rapidamente da minha sala, fechando a porta atrás dele. Respirei fundo, tentando me acalmar. Minha mão tremia de raiva e de adrenalina. Eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Como alguém podia ser tão imprudente e desrespeitoso?
Voltei a me sentar, tentando retomar o foco no relatório, mas minha cabeça ainda estava a mil. Eu sabia que precisava contar para o Otávio o que tinha acontecido. Não só porque ele merecia saber, mas porque eu queria que ele soubesse que eu nunca, jamais, deixaria alguém se meter entre nós.
Peguei o celular e digitei uma mensagem rápida para ele:
"Amor, preciso te contar uma coisa. Me liga quando puder."
Eu sabia que ele estava numa reunião, então provavelmente só veria a mensagem mais tarde. Mas só de saber que eu estava sendo honesta e transparente com ele já me fazia sentir um pouco melhor.
Enquanto esperava, tentei me concentrar novamente no trabalho, mas minha mente continuava voltando ao que tinha acabado de acontecer. Me perguntava se tinha feito algo errado para dar essa confiança toda para o Kaio. Mas, lá no fundo, eu sabia que não. A culpa não era minha. Era dele, por não respeitar meus sentimentos e meu relacionamento.
Uns vinte minutos depois, meu celular tocou. Olhei para a tela e vi o nome do Otávio.
— Oi, amor. — atendi, tentando manter a calma na voz.
— Oi, minha linda. Tá tudo bem? Vi sua mensagem agora. O que aconteceu?
Respirei fundo antes de responder.
— Então, aconteceu uma coisa meio chata aqui no trabalho. O Kaio... Ele tentou me beijar.
Silêncio do outro lado da linha por alguns segundos.
— O QUÊ?! — ele exclamou, claramente surpreso e irritado. — Como assim ele tentou te beijar?
Expliquei rapidamente o que tinha acontecido, incluindo o tapa que eu dei no Kaio. A cada palavra, sentia o Otávio ficando mais e mais tenso do outro lado da linha.
— Eu não acredito que esse idiota fez isso! — ele disse, com a voz cheia de raiva. — Você tá bem, amor? Ele fez alguma coisa com você?
— Tô bem, amor. Juro. Ele não fez nada além de tentar me beijar, e eu logo dei um jeito nele.
— Eu não vou deixar isso passar, Lívia. Ele não pode te tratar assim e achar que tá tudo bem.
— Calma, Otávio. Já falei com ele e deixei bem claro que ele passou dos limites. Não quero que você se estresse por causa disso, tá?
— Como você quer que eu não me estresse? — ele retrucou, ainda exaltado. — Ele tentou te beijar à força! Isso é inaceitável!
— Eu sei, amor. Mas o importante é que eu tô bem e que ele sabe que não pode fazer isso. E eu só queria te contar porque eu amo você e quero ser transparente sobre tudo.
Ele suspirou, tentando se acalmar.
— Eu também te amo, Lívia. E é por isso que eu fico tão puto quando alguém te desrespeita desse jeito.
— Eu sei, amor. E eu agradeço por você se importar tanto. Mas, por favor, tenta ficar calmo. Eu já resolvi a situação.
— Tá bom. Eu vou tentar.
Sorri, imaginando a expressão dele do outro lado da linha.
— Eu sei que vai, meu amor. E é por isso que eu te amo tanto.
Depois de mais alguns minutos de conversa, consegui acalmar o Otávio. Desliguei o telefone sentindo um peso saindo das minhas costas. Tinha sido um dia complicado, mas sabia que com o Otávio do meu lado, eu podia enfrentar qualquer coisa. E, principalmente, sabia que nunca permitiria que alguém interferisse no que temos.
Fechei o relatório com um suspiro e decidi que era hora de almoçar. Eu merecia uma pausa depois de tudo aquilo. Saí da minha sala, pronta para deixar aquele incidente para trás e focar no que realmente importava: meu amor por Otávio e a certeza de que nada, nem ninguém, iria nos separar.
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