Capítulo 38 Desentendimento

Lívia Fontes

Desde que consegui o trabalho na empresa, senti que era hora de começar a trilhar meu caminho com um pouco mais de independência. Otávio e eu estávamos vivendo juntos há alguns meses, e tudo parecia estar fluindo bem. No entanto, sentia que ainda precisava viver algumas coisas por conta própria. Era uma sensação que me incomodava, como se eu ainda estivesse me apoiando demais nele.

Respirei fundo antes de entrar na sala. Otávio estava no sofá, concentrado no jogo de futebol na TV. Meu coração batia acelerado, e eu sabia que aquele não seria um assunto fácil. Ainda assim, eu precisava ser honesta.

— Otávio, preciso conversar com você. — disse, tentando soar tranquila.

Ele desviou os olhos da TV e me olhou com uma expressão de curiosidade misturada com preocupação.

— O que foi, amor? Aconteceu alguma coisa?

— Nada de mais, na verdade. Só... estive pensando muito nos últimos dias. Agora que tenho um emprego estável, estou considerando a possibilidade de me mudar.

Por um momento, o silêncio tomou conta da sala. Otávio piscou algumas vezes, como se estivesse tentando processar minhas palavras.

— Se mudar? Como assim, se mudar? — Ele perguntou, franzindo a testa.

Eu sabia que precisava ser clara e cuidadosa com as palavras.

— É que... agora que posso me sustentar, acho que seria bom ter um espaço só meu, sabe? Acho que preciso dessa experiência.

A expressão no rosto dele mudou instantaneamente. Seus olhos se estreitaram, e ele cruzou os braços, se encostando no sofá.

— Ah, entendi. Você quer um espaço só seu, né? — A voz dele saiu carregada de sarcasmo. — Isso tem algo a ver com o Kaio, não tem?

Fiquei atordoada com a pergunta. 

— Como assim, Otávio? O que o Kaio tem a ver com isso?

— Não se faça de desentendida, Lívia! — Ele se levantou, claramente irritado. — Agora que você tem um trabalho, acha que pode simplesmente sair por aí, ter sua própria vida... ou quem sabe até começar a trazer o Kaio para casa, né?

Meu rosto queimou de indignação. Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo.

— Você tá falando sério? — Perguntei, a voz carregada de incredulidade. — Acha mesmo que eu quero me mudar para ficar recebendo visita do Kaio?

— E por que mais você iria querer se mudar? As coisas estavam indo tão bem entre a gente!

Respirei fundo, tentando não me deixar levar pela raiva. Precisava explicar de outra forma.

— Otávio, escuta, não tem nada a ver com o Kaio ou com qualquer outra pessoa. Eu só sinto que... não sei, talvez precise de um pouco de independência. Pra entender melhor quem eu sou sem depender de ninguém.

Ele me olhou, seus olhos ainda brilhando de mágoa e desconfiança.

— Então você quer terminar?

— Claro que não! Eu te amo, Otávio. Não quero terminar. Só quero ter certeza de que estou vivendo por mim, não apenas vivendo nossa vida juntos.

Otávio balançou a cabeça, sua expressão suavizando um pouco, mas ainda havia um certo receio ali.

— Eu só... — Ele suspirou. — Eu só não entendo por que isso tem que significar que você precisa ir embora.

— Não é questão de ir embora. É sobre crescer, entender minhas próprias vontades. Eu sei que parece complicado, mas é importante pra mim. Eu esperava que você pudesse entender isso.

Ele abaixou os ombros, o ar saindo de seus pulmões como se ele tivesse estado segurando a respiração o tempo todo.

— Eu não quero perder você, Lívia. — disse ele, sua voz mais suave agora.

Me aproximei e segurei sua mão, tentando transmitir todo o carinho e compreensão que sentia.

— Você não vai me perder, Otávio. Eu prometo. Só estou tentando entender o que preciso para ser uma pessoa completa, pra que a gente possa ser ainda mais fortes juntos.

Otávio suspirou novamente, desta vez com um pouco mais de aceitação.

— Eu entendo, eu acho. Só preciso de um tempo pra processar isso, sabe?

Assenti, sabendo que ele também precisava do seu espaço. Sentamos juntos no sofá, e ele me puxou para mais perto, abraçando-me apertado. Ficamos em silêncio por alguns minutos, ouvindo o som do jogo na TV ao fundo, mas com a mente a mil.

Depois de um tempo, ele finalmente falou, sua voz mais tranquila.

— Sabe, se é isso que você realmente precisa, eu vou te apoiar. Só me promete que não vai se afastar demais, tá?

Sorri, me sentindo mais aliviada.

— Nunca, Otávio. A última coisa que quero é me afastar de você.

Ele me puxou para um beijo suave, e senti uma onda de alívio tomar conta de mim. Ainda havia muito o que resolver, mas pelo menos estávamos no mesmo ponto novamente.

— Sabe de uma coisa? — Ele disse, sorrindo um pouco. — Eu vou sentir falta de ter você por perto o tempo todo.

— Eu também, mas... talvez não precise ser agora, né? Talvez eu possa esperar mais um pouco, só até a gente se ajustar a essa ideia.

Otávio riu e beijou minha testa.

— É, acho que posso conviver com isso.

O resto da noite passamos juntos, em silêncio confortável. Às vezes, não é necessário dizer tudo em palavras para entender o que o outro está sentindo. Eu sabia que a ideia de me mudar ainda o incomodava, mas também sabia que ele estava disposto a me apoiar.

Nos próximos dias, as coisas ficaram mais leves entre a gente. Otávio estava se esforçando para entender meus motivos e eu também estava mais tranquila com a decisão de esperar um pouco mais antes de tomar qualquer atitude drástica. Mesmo que a ideia de ter meu próprio espaço ainda estivesse ali, percebi que talvez não fosse o momento certo ainda. Eu não queria forçar nada.

Uma tarde, enquanto ele cozinhava o jantar, sentei na bancada da cozinha e observei ele mexer na panela.

— Sabe, eu estava pensando... — comecei, chamando sua atenção.

Ele olhou para mim com um sorriso no rosto.

— Pensando em quê?

— Acho que vou ficar mais um tempo. Não estou pronta pra sair ainda, sabe? E não quero que você pense que isso tem algo a ver com o Kaio ou qualquer outra pessoa.

Otávio parou de mexer a panela e se aproximou de mim, ainda segurando a colher de pau.

— Fico feliz em ouvir isso, Lívia. Quero que saiba que estou do seu lado, seja qual for a sua decisão.

Sorri e puxei ele para um beijo. Aquele momento me fez perceber o quanto ele significava para mim. Eu não queria que nenhuma dúvida ou insegurança atrapalhasse o que tínhamos.

— Obrigada por entender, Otávio. E desculpa se te assustei com essa história de mudança.

Ele deu de ombros, ainda sorrindo.

— Tudo bem. Acho que todo mundo precisa de um tempo pra si, às vezes. Só não esquece de mim, tá?

Ri e o abracei.

— Nunca, Otávio. Nunca.

Naquela noite, deitados juntos na cama, senti que havíamos dado um passo importante. Não era sobre eu me mudar ou não. Era sobre entender e respeitar os sentimentos um do outro, sobre crescer juntos sem deixar de ser quem somos individualmente.

Otávio me puxou para mais perto, e senti seu corpo quente contra o meu.

— Eu te amo, Lívia. — ele sussurrou.

Sorri, fechando os olhos e me aconchegando mais em seus braços.

— Também te amo, Otávio. Muito.

E, com isso, adormecemos, sabendo que o que quer que o futuro nos reservasse, enfrentaríamos juntos, sempre dispostos a entender e apoiar um ao outro.

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