Capítulo 27 Ciúme bobo
Otávio Guimarães
Estava sentado no sofá, meio distraído, folheando uma revista qualquer. Sabe aquelas tardes que não têm muito rumo? Pois é, essa era uma delas. De repente, Lívia entrou pela porta, meio ofegante, mas com um sorriso nos lábios. Tinha saído para uma caminhada, coisa que faz de vez em quando para "limpar a mente", como ela costuma dizer.
— E aí, como foi a caminhada? — perguntei, com um interesse casual, enquanto dobrava a revista e a colocava de lado.
Ela jogou a bolsa na mesa e se espreguiçou, parecendo mais animada do que o normal. Um detalhe que não me escapou.
— Foi boa. Aliás, conheci alguém bem interessante hoje. O nome dele é Kaio. — respondeu, quase como se estivesse comentando sobre o tempo.
Senti um leve desconforto se instalar no meu peito. "Interessante", ela disse. A palavra martelou na minha cabeça com força. Tentei disfarçar, claro, mantendo a cara de paisagem.
— Ah, é? E como foi isso? — perguntei, fingindo um desinteresse que não sentia, enquanto meu coração começava a bater um pouco mais rápido.
Lívia, sem perceber minha mudança de humor, começou a contar como o tal Kaio apareceu no caminho dela. Eles se cruzaram em um parque que ela gosta de ir, aquele cheio de árvores e pássaros cantando. Ele estava correndo, e ela caminhando. Acabaram trocando algumas palavras, e a conversa fluiu como se fossem velhos amigos. Quanto mais ela falava, mais meu estômago dava voltas.
— Ele é super gente boa, sabe? Conversa fácil, meio despretensioso. A gente ficou andando juntos por um tempo. — ela dizia, animada, sem notar que eu já estava começando a apertar os dentes.
Ela continuou descrevendo o tal Kaio. "Engraçado", "gentil", "inteligente". Cada adjetivo parecia uma facada, mas mantive o sorriso no rosto, tentando não parecer afetado. É claro que eu não podia simplesmente explodir de ciúmes. Isso só iria estragar tudo e me faria parecer um idiota. No fundo, eu sabia que estava exagerando, que talvez esse cara fosse só mais um que ela encontrou por acaso. Mas, ao mesmo tempo, minha imaginação estava pintando um quadro bem mais sombrio.
— E... Vocês trocaram contatos, então? — perguntei, tentando soar casual, como se fosse uma pergunta qualquer.
Lívia, para minha surpresa, riu de leve.
— Sabe que não? Nem pensei nisso na hora. A conversa foi boa, mas a gente se despediu e pronto. Talvez eu o encontre de novo por aí, talvez não.
"Nem pediu o telefone", pensei, sentindo um alívio misturado com uma pitada de frustração. Por um lado, fiquei contente que não tinham trocado contatos. Por outro, fiquei irritado por ter me deixado afetar tanto por algo que, no final das contas, não significava nada.
— Interessante. — falei, mordendo a língua para não deixar escapar algum comentário sarcástico.
— Você acha? — ela perguntou, me encarando, como se esperasse uma resposta mais elaborada.
Eu podia sentir o olhar dela em mim, aquele olhar que sempre faz minhas defesas tremerem. Mas eu não estava disposto a ceder assim tão fácil. Não era como se eu fosse admitir que estava com ciúmes de um cara que ela conheceu numa caminhada aleatória.
— Acho que você é muito distraída, na verdade. Encontrar alguém legal e nem pedir o contato? Quem faz isso? — soltei, tentando soar brincalhão.
Ela deu de ombros, ainda sorrindo.
— É, talvez eu seja mesmo. Mas não era nada sério, só uma conversa entre estranhos. Ele parecia simpático, só isso.
A tranquilidade com que ela falou me fez sentir um pouco idiota por ter deixado o ciúme crescer tanto. Era óbvio que não tinha sido nada de mais para ela. Uma parte de mim queria acreditar nisso, enquanto outra parte ainda se remoía com a ideia de que ela poderia ter gostado de passar aquele tempo com ele.
— E você? O que fez enquanto eu estava fora? — ela perguntou, mudando de assunto, como se quisesse me tirar daquele desconforto.
Tentei pensar em algo interessante para contar, mas nada vinha à mente. A verdade é que fiquei a maior parte do tempo pensando em como a tarde estava tediosa até ela aparecer com essa história do Kaio.
— Nada de especial. Só fiquei por aqui, relaxando um pouco. — respondi, tentando não deixar transparecer que minha mente ainda estava presa no assunto anterior.
Ela sorriu e se sentou ao meu lado, pegando a revista que eu tinha deixado de lado.
— Talvez eu devesse começar a levar o telefone nas caminhadas. Vai que eu encontre mais gente interessante por aí — disse, me lançando um olhar provocador.
Dei uma risada, mas a ideia de outros "Kaio" aparecendo pelo caminho não me deixava nada confortável. Mesmo assim, não quis demonstrar.
— Só não vá encontrar alguém tão interessante a ponto de esquecer de voltar pra casa. — respondi, tentando manter o tom leve.
Ela riu de novo e me deu um tapinha no ombro.
— Ah, não se preocupa, você é meu favorito. Ainda. — ela brincou, piscando para mim.
Eu sorri, mas por dentro estava um pouco perturbado. Tentei não deixar isso transparecer. Afinal, não era nada de mais, certo? Apenas uma conversa qualquer durante uma caminhada. No entanto, aquele "ainda" ecoou na minha mente. Como assim "ainda"? Era só uma piada, claro, mas a insegurança estava lá, mesmo que fosse mínima.
— Sabe, eu estava pensando... — comecei, hesitante. Queria mudar de assunto, mas também estava curioso para entender melhor o que ela pensava.
— Pensando no quê? — ela perguntou, me olhando com aqueles olhos curiosos.
— Você costuma conversar com outras pessoas assim quando está caminhando? — perguntei, tentando soar desinteressado.
Ela me olhou com uma expressão que eu não consegui decifrar de imediato. Havia um misto de surpresa e... algo mais que eu não consegui captar.
— Às vezes, mas não é comum. Normalmente, só estou focada em mim mesma, na caminhada. Por que a pergunta?
— Só curiosidade. — respondi, me recostando no sofá. — Você pareceu gostar muito da conversa com o Kaio, só isso.
Ela riu de novo, mas dessa vez havia um toque de ternura em seu riso.
— Você está com ciúmes, Otávio? — perguntou, me encarando com uma mistura de diversão e carinho.
Aquilo me pegou de surpresa. Eu podia negar, claro, mas ela já tinha captado algo. Era óbvio que minhas tentativas de disfarçar não tinham sido tão bem-sucedidas assim.
— Ciúmes? Eu? — falei, tentando soar incrédulo. — De um cara que você acabou de conhecer numa caminhada? Nem pensar.
Ela não parecia convencida, mas não insistiu. Apenas me deu um sorriso que fez meu coração relaxar um pouco.
— Bom, não tem por que ficar assim. Foi só uma conversa boba, nada mais. — ela disse, pegando minha mão e a apertando levemente. — Não vou fugir com o primeiro cara simpático que encontrar por aí.
Tentei relaxar e deixar o assunto morrer ali. Era o mais sensato a se fazer. Ela não estava me dando motivos reais para ciúmes, e eu sabia disso. Só que às vezes, a insegurança bate sem avisar. E a ideia de outro cara entrando em cena me incomodava, mesmo que eu não quisesse admitir.
— Eu sei. — respondi, tentando soar mais confiante do que realmente estava. — Só queria entender melhor a situação.
Ela assentiu e mudou de assunto, começando a falar sobre o que queria fazer no fim de semana. Eu tentei me concentrar na conversa, mas minha mente ainda vagava um pouco. Precisava parar com isso, ou ia acabar criando um problema onde não havia nenhum.
No final das contas, a tarde seguiu seu curso, e a história do Kaio acabou ficando no passado. Contudo, uma coisa era certa: na próxima caminhada da Lívia, eu provavelmente estaria mais atento. Não queria admitir isso, mas o ciúme, por menor que fosse, tinha plantado uma semente em mim.
Afinal, será que foi só uma caminhada?
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