Capítulo 26 Durante a caminhada
Lívia Fontes
O sol já estava começando a se despedir quando resolvi colocar meus fones de ouvido e sair para uma caminhada. Precisava de um tempo só pra mim, sem aquela confusão toda de sempre. A vida estava me cobrando mais do que eu achava que poderia pagar, e aquele era meu momento de fugir, nem que fosse por uma hora.
O caminho que escolhi era um daqueles trajetos tranquilos, com árvores alinhadas, flores que pareciam ter saído de um quadro e um silêncio quase meditativo. Era o tipo de lugar onde meus pensamentos podiam correr soltos, sem o barulho caótico do mundo real para interferir. Me concentrei nos meus passos, no ritmo da música, e comecei a me perguntar se estava fazendo as escolhas certas, se deveria ter seguido outro caminho na vida.
Foi aí que o vi, meio sem querer. Um cara alto, de cabelos curtos e desgrenhados, com uma expressão leve e um sorriso fácil. Ele estava correndo no sentido oposto, mas nossos olhares se cruzaram rapidamente. Eu desviei o meu, não estava a fim de socializar. Afinal, estava ali para me perder em mim mesma, e não para conversar com um desconhecido.
Continuei caminhando, achando que ele já teria sumido de vista, mas não demorou muito para ouvir passos se aproximando por trás. Fingi que não percebi e continuei focada na música, mas meu coração acelerou um pouco.
— Ei! — Uma voz masculina me chamou, e eu só não ignorei porque ele já estava ao meu lado.
Olhei de soslaio, e era o cara de antes. Estava com um sorriso simpático e aquela expressão de quem realmente queria puxar conversa. Droga, pensei, lá se vai minha paz.
— Oi. — Respondi sem muito entusiasmo, esperando que ele entendesse a dica e seguisse em frente.
— Gosta de caminhar por aqui? — Ele perguntou, parecendo ignorar completamente meu tom indiferente.
— Sim, é tranquilo. — Fui direta, mas educada, na esperança de que ele se cansasse rápido.
— Eu também gosto. É um dos poucos lugares em que dá pra pensar em paz, né?
Assenti, sem saber exatamente o que dizer. Ele parecia genuinamente interessado em conversar, e por um momento, me perguntei o que o motivava a insistir tanto. Será que ele não tinha percebido que eu não estava a fim de papo? Ou será que ele só queria um pretexto para falar com alguém?
— Meu nome é Kaio. E o seu? — Ele estendeu a mão, ainda com aquele sorriso inabalável.
Hesitei, mas acabei cedendo, mais por educação do que por qualquer outra coisa.
— Lívia. — Apertei sua mão rapidamente, esperando que isso encerrasse a formalidade.
— Prazer em conhecer, Lívia. Caminha por aqui sempre? — Ele perguntou com um tom curioso.
— De vez em quando. Quando quero pensar um pouco. — Respondi, tentando deixar claro que minha presença ali tinha um propósito mais introspectivo.
— Ah, eu entendo. Às vezes, a gente precisa mesmo de um tempo só pra gente. — Ele disse, com um olhar que parecia mais profundo do que o esperado.
Aquilo me fez franzir a testa por um segundo. Será que ele também estava fugindo de alguma coisa? Ou será que estava só querendo ser simpático? Decidi que não custava nada descobrir.
— E você? Caminha por aqui com frequência? — Perguntei, devolvendo a pergunta por educação, mas também um pouco intrigada.
— Sim, sempre que posso. Gosto de sentir o vento no rosto, sabe? Me ajuda a clarear as ideias. — Ele respondeu com um tom sincero, quase como se estivesse compartilhando um segredo.
— E o que te trouxe aqui hoje? — Soltei a pergunta antes de perceber que talvez estivesse me envolvendo demais na conversa.
Kaio deu de ombros e riu um pouco, como se não tivesse uma resposta imediata.
— Acho que as mesmas coisas que te trouxeram, talvez. — Ele disse, e dessa vez, havia uma certa melancolia em sua voz.
Aquilo me pegou de surpresa. Não esperava ouvir uma resposta tão honesta, e muito menos tão parecida com o que eu estava sentindo. O silêncio que se seguiu foi um daqueles momentos em que as palavras parecem desnecessárias. Continuamos caminhando lado a lado, sem falar nada, apenas ouvindo o som de nossos passos e o leve farfalhar das folhas nas árvores.
Depois de um tempo, foi ele quem quebrou o silêncio.
— Às vezes, parece que o mundo todo está contra você, né? — A pergunta dele pairou no ar, como se estivesse esperando que eu a pegasse e respondesse.
Olhei para ele, e por um instante, vi algo em seus olhos que eu não esperava. Não era só um cara aleatório tentando puxar assunto. Havia uma profundidade ali, uma dor que ele escondia por trás daquele sorriso fácil.
— Sim, às vezes. — Respondi, sem conseguir evitar que um tom de compreensão escapasse na minha voz.
— Sabe, eu venho aqui porque esse é o único lugar onde posso ser eu mesmo. Onde posso deixar os pensamentos fluírem sem que ninguém me julgue. — Ele continuou, como se estivesse falando mais para si mesmo do que para mim.
Eu sabia exatamente do que ele estava falando. Havia algo naquele lugar, algo no silêncio, que nos permitia ser vulneráveis sem medo. Era como se, ali, o mundo fosse mais gentil, mais compreensivo.
— Acho que todos precisamos de um lugar assim. — Falei, surpreendendo a mim mesma por estar me abrindo tanto com alguém que eu mal conhecia.
— E o que te trouxe aqui hoje, Lívia? — Ele perguntou, dessa vez com uma curiosidade genuína, sem a intenção de invadir, mas de compreender.
Respirei fundo, sem saber exatamente o que responder. Será que eu estava pronta para compartilhar meus pensamentos com um estranho? Talvez fosse mais fácil do que eu imaginava, afinal, ele não parecia estar ali para julgar.
— Acho que... só precisava de um tempo para mim. — Respondi, vagamente, sem querer entrar em detalhes.
Kaio assentiu, como se entendesse perfeitamente o que eu estava dizendo.
— Às vezes, a gente só precisa se desconectar, né? — Ele disse, completando meu pensamento.
Sorri de leve, apreciando a simplicidade daquela conversa. Era raro encontrar alguém que entendesse tão bem o que eu estava sentindo, sem precisar de muitas palavras. Talvez fosse porque ele estava na mesma sintonia, ou talvez porque, naquele momento, nossas almas estavam alinhadas de alguma forma misteriosa.
Continuamos caminhando, lado a lado, sem pressa, apenas aproveitando o momento. Era estranho como alguém que eu acabara de conhecer conseguia me fazer sentir tão confortável. Como se, de alguma forma, eu soubesse que não precisava fingir, que podia ser eu mesma.
— E aí, já resolveu o que precisava resolver? — Kaio perguntou, com um sorriso de canto.
— Ainda não. Mas acho que estou no caminho certo. — Respondi, sentindo uma estranha paz ao dizer isso.
— Que bom. — Ele disse, parecendo genuinamente feliz por mim.
Chegamos a uma bifurcação no caminho, e eu soube que aquele era o momento de nos separarmos. Por algum motivo, senti uma pontada de tristeza. Por mais que a conversa tivesse sido inesperada, ela me trouxe um conforto que eu não esperava encontrar naquele dia.
— Acho que é por aqui que a gente se despede. — Falei, tentando manter um tom casual.
— Parece que sim. — Ele respondeu, mas havia um brilho nos olhos dele, como se estivesse considerando algo.
— Foi bom te conhecer, Kaio. — Disse, estendendo a mão mais uma vez, dessa vez com um pouco mais de vontade.
— O prazer foi meu, Lívia. — Ele disse, apertando minha mão com firmeza.
Nos despedimos, e eu segui meu caminho, sentindo uma leveza no coração que não estava ali antes. Às vezes, a vida nos surpreende de maneiras que a gente não espera. E naquele fim de tarde, enquanto o sol se escondia no horizonte, eu percebi que a caminhada que eu pensava ser solitária acabou me trazendo uma conexão inesperada.
Kaio foi embora, mas a sensação de tranquilidade ficou comigo. Talvez, naquele encontro breve, eu tenha encontrado a resposta que estava procurando. Ou talvez tenha apenas ganho uma nova perspectiva. De qualquer forma, voltei para casa do Otávio com um sorriso no rosto, sabendo que, por mais que a vida seja complicada, sempre há espaço para o inesperado, para o desconhecido, para as surpresas que fazem tudo valer a pena.
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