Capítulo 23 O pedido de Lucas

Otávio Guimarães 

Lucas entrou na minha sala sem aviso, algo comum para ele. A porta bateu levemente contra a parede, e lá estava ele, com aquele sorriso largo que sempre carregava, como se nada no mundo fosse capaz de abalá-lo. Levantei os olhos do relatório que estava revisando e tentei adivinhar o motivo da visita. Talvez algum convite para um happy hour ou alguma piada sem graça. Nada de novo.

— E aí, Otávio, como estão as coisas? — ele perguntou, jogando-se na cadeira em frente à minha mesa, como se fosse dono do lugar.

— O de sempre, Lucas. Trabalho. E você? — respondi, tentando manter o tom cordial. Meu irmão era o tipo de pessoa que, com sua energia, poderia facilmente tirar qualquer um do sério, mas eu estava acostumado.

— Cara, eu tenho pensado em algo... — ele começou, e eu já me preparei para ouvir alguma história maluca.

— Pensado? Isso é novidade. — brinquei, sem tirar os olhos dos papéis.

— Sério, Otávio. Preciso falar contigo sobre uma coisa importante. — ele disse, e dessa vez havia algo no tom dele que chamou minha atenção.

Olhei para ele e percebi que o sorriso havia sumido. No lugar, havia uma expressão séria, quase ansiosa. Isso era novo.

— Tá, fala. — disse, tentando esconder o interesse. Era raro ver Lucas assim.

— Preciso de um emprego. — ele soltou, de uma vez só.

Parei. O quê? Emprego? Lucas? Aquilo era algum tipo de piada? Meu irmão sempre foi o espírito livre da família. Nunca se preocupou em seguir carreira ou construir algo estável. Enquanto eu estava aqui, enfurnado em relatórios e reuniões, ele estava sempre em alguma nova aventura ou esquema mirabolante para ganhar dinheiro rápido.

— Você tá zoando, né? — perguntei, tentando entender onde ele queria chegar.

— Não tô, Otávio. É sério. Preciso de um trabalho. E pensei... bom, que lugar melhor do que na empresa do meu próprio irmão? — Ele me olhou, aguardando minha reação.

Fiquei em silêncio por um momento, tentando processar o que ele acabara de dizer. Lucas, pedindo emprego? Aqui? Na minha empresa? Era quase absurdo demais para acreditar.

— Lucas, você nunca quis um emprego fixo. Sempre foi o cara das aventuras, das ideias malucas. O que aconteceu? — perguntei, mais curioso do que preocupado.

— Aconteceu que eu cansei, Otávio. Cansei de correr atrás de coisas que nunca dão certo. Cansei de arriscar e acabar sempre no mesmo lugar. Eu preciso de algo estável agora, preciso de segurança. E você tem isso aqui. Eu posso ajudar, aprender. — Ele parecia sincero, e isso me desconcertou.

— E por que você acha que pode trabalhar aqui? — perguntei, ainda cético. Não conseguia visualizar Lucas em uma rotina corporativa, seguindo regras, prazos, relatórios.

— Porque sou inteligente, Otávio. Aprendo rápido. Sei que sempre fui o cara das ideias malucas, mas isso também significa que eu penso fora da caixa. Posso trazer algo novo pra cá. Sei que posso. — Havia uma determinação nos olhos dele que eu não via há tempos.

Olhei para ele e senti um conflito interno. Parte de mim queria dizer não, mandá-lo embora, dizer que essa não era a praia dele. Outra parte, talvez a parte mais antiga e fraterna, queria ajudá-lo, queria acreditar que ele realmente podia se adaptar, que podia mudar.

— Você sabe que não é só querer, né? Trabalhar aqui significa compromisso, responsabilidade. Não é algo que você pode largar quando se cansar ou quando aparecer outra ideia brilhante na sua cabeça. — Tentei ser firme, mas minha voz vacilou um pouco. Ele percebeu.

— Eu sei, Otávio. E eu estou disposto a isso. Eu sei que nunca fui o irmão responsável, mas as coisas mudam. Eu mudei. Preciso disso, cara. — Ele parecia vulnerável, e isso mexeu comigo.

Fiquei em silêncio novamente, ponderando. Lucas sempre foi o irmão mais novo, aquele que eu, de certa forma, sempre senti que precisava proteger. Mas também sempre foi o rebelde, o sonhador. Eu me perguntei se ele realmente sabia no que estava se metendo.

— Ok, mas se você quer trabalhar aqui, vai ter que começar de baixo, como todo mundo. Nada de privilégios só porque é meu irmão. Vai ter que mostrar que é capaz, que realmente quer isso. — Decidi dar-lhe uma chance, mas não seria fácil.

— Claro, sem problemas. Eu tô disposto a fazer o que for preciso. — Ele parecia aliviado, quase agradecido.

— Vou pensar em onde posso te colocar. Mas, Lucas, se você vacilar, não vai ter segunda chance. — Eu queria que ele entendesse que isso não era brincadeira.

— Eu não vou, Otávio. Prometo. — Ele disse isso com tanta convicção que, por um momento, eu acreditei.

O restante do dia foi uma montanha-russa de pensamentos e sentimentos. Será que fiz a coisa certa? Será que Lucas realmente estava pronto para isso? Deixar ele entrar na empresa não era apenas sobre dar uma chance ao meu irmão. Era sobre confiar que ele não faria bagunça, que não desapontaria.

Quando cheguei em casa, não consegui evitar o turbilhão de pensamentos que vinham à mente. E se ele falhasse? E se ele voltasse àquele comportamento irresponsável? 

Eu sabia que lidar com a família no trabalho era um campo minado, algo que podia explodir a qualquer momento. Mas, ao mesmo tempo, havia uma esperança que eu não conseguia ignorar. Uma parte de mim queria ver Lucas vencer, queria ver ele provar que podia ser mais do que aquele cara das ideias malucas e esquemas duvidosos.

Na manhã seguinte, cheguei à empresa mais cedo do que o habitual. Estava decidido a encontrar uma posição em que fosse adequada para Lucas, algo que o desafiasse, mas que também não colocasse em risco o trabalho árduo que construí ao longo dos anos. 

Depois de horas pensando, decidi colocá-lo no departamento de marketing. Ele sempre teve um bom olho para ideias criativas, talvez isso pudesse ser canalizado de forma produtiva.

Quando Lucas chegou, com o mesmo entusiasmo de sempre, levei-o até o chefe do departamento. Expliquei a situação, deixando claro que Lucas seria tratado como qualquer outro funcionário. O chefe parecia um pouco cético, mas aceitou o desafio.

— Você vai começar por aqui, Lucas. Quero ver do que é capaz. Não espere moleza só porque é meu irmão. — Disse, olhando diretamente nos olhos dele.

— Pode deixar, Otávio. Não vou te decepcionar. — Ele respondeu, firme.

Saí da sala, deixando Lucas para se ambientar. Senti uma mistura de alívio e apreensão. A partir desse momento, tudo dependia dele. Eu havia feito a minha parte.

Nas semanas seguintes, observei de perto seu progresso. Ele realmente se dedicava. Chegava cedo, saia tarde. Parecia determinado a mostrar que eu não havia cometido um erro ao contratá-lo. Os colegas começaram a respeitá-lo, ainda que com certa cautela. Aos poucos, ele foi conquistando espaço, trazendo ideias que surpreendiam até os mais céticos.

Não era fácil para mim, vê-lo ali, misturado no ambiente que eu havia construído com tanto esforço. Mas, dia após dia, Lucas foi provando que merecia estar ali. Eu começava a acreditar que ele havia realmente mudado.

Claro, houve momentos de tensão, discussões e divergências. Mas, no fim das contas, o sangue falou mais alto. A decisão de contratá-lo foi uma das mais difíceis que já tomei, mas, ao vê-lo crescer, não pude deixar de sentir um certo orgulho. Lucas estava finalmente se encontrando, e eu, como irmão mais velho, não podia estar mais satisfeito com isso.

No final das contas, a visita inesperada de Lucas mudou tudo. Eu nunca teria imaginado que aquela conversa despretensiosa levaria a essa reviravolta. Mas a vida tem dessas coisas. Às vezes, é preciso arriscar para ver o verdadeiro potencial de alguém, mesmo que esse alguém seja seu próprio irmão.

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