Capítulo 22 Dia difícil
Lívia Fontes
Foi um dia longo e desgastante. A cidade estava fria e cinzenta, refletindo perfeitamente o estado da minha alma. A cada passo que eu dava, parecia que o peso da incerteza se acumulava nos meus ombros. Quando finalmente terminei as entrevistas de emprego, o céu já estava escuro, e eu me sentia completamente esgotada. Minhas pernas moviam-se mecanicamente, levando-me até a casa de Otávio, mas minha mente estava perdida em um turbilhão de pensamentos negativos.
"Por que eu fiz isso comigo mesma?" pensei, enquanto a imagem das salas de entrevista rodava na minha cabeça. A cada pergunta que respondi, a cada sorriso forçado que dei, parecia que eu estava me afundando ainda mais no abismo da frustração.
As respostas dos entrevistadores, embora polidas, carregavam aquele tom de indiferença que eu conhecia tão bem. As mesmas palavras encobertas de gentileza, mas que, no fundo, significavam que eu não era o que eles procuravam.
Finalmente, cheguei à porta de Otávio. Fiquei ali parada por alguns segundos, tentando reunir forças para entrar. Respirei fundo, tentando me recompor, mas a sensação de fracasso era avassaladora.
A porta rangeu levemente quando a empurrei, revelando a sala acolhedora e iluminada pela luz amarelada de um abajur. Otávio estava sentado no sofá, com um livro nas mãos. Assim que me viu, levantou a cabeça, e um sorriso suave se formou em seu rosto.
— Ei, como foi o dia? — perguntou ele, com aquela calma que sempre me fazia sentir segura.
Eu queria sorrir, queria fingir que estava tudo bem, mas não consegui. Senti meus olhos marejarem, e as palavras saíram trêmulas.
— Foi horrível, Otávio. Eu... eu me sinto uma completa fracassada.
Ele largou o livro imediatamente e veio na minha direção. Puxou-me para um abraço, e senti o calor do seu corpo tentando afastar o frio que tomava conta de mim. Mas, por dentro, eu estava congelada.
— Não fala assim, Lívia. Você fez o seu melhor.
Afastei-me um pouco, o suficiente para olhar nos seus olhos, mas ainda sem coragem de encará-lo por muito tempo. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, e eu deixei que caíssem, sem tentar esconder.
— Fiz o meu melhor? E se o meu melhor não for o suficiente? E se ninguém me ligar? O que eu vou fazer?
Otávio segurou meu rosto com as mãos, limpando delicadamente minhas lágrimas com os polegares. Seus olhos estavam cheios de preocupação, mas também de uma firmeza que eu não conseguia entender.
— Lívia, escuta. Eu sei que é difícil acreditar agora, mas isso não define quem você é. Essas empresas, essas pessoas, elas não têm ideia do valor que você tem.
Balancei a cabeça, tentando processar suas palavras, mas minha mente estava tomada por um único pensamento: "Eu falhei". Era como um eco que não parava de reverberar, me levando para um lugar sombrio.
— Eu só queria que, por uma vez, as coisas dessem certo, sabe? Que alguém me desse uma chance... Mas parece que eu estou destinada a fracassar. — As palavras saíam entre soluços, a dor se manifestando em cada sílaba.
Otávio me puxou novamente para perto, abraçando-me com mais força. Seu cheiro familiar me trouxe um pouco de conforto, mas não o suficiente para dissipar a nuvem negra que pairava sobre mim.
— Não é verdade, Lívia. Você já passou por tantas coisas e sempre encontrou um jeito de seguir em frente. Isso aqui é só mais um obstáculo. Pode parecer insuperável agora, mas eu sei que você vai encontrar uma saída.
Fechei os olhos, tentando me agarrar a alguma coisa, qualquer coisa que me desse esperança. Mas tudo que eu via era uma série de portas se fechando na minha cara, de olhares condescendentes, de sorrisos que não chegavam aos olhos. Era como se o mundo estivesse me dizendo, repetidamente, que eu não era boa o bastante.
— Eu não sei, Otávio. Eu só... eu só queria que as coisas fossem diferentes.
Ele afagou meu cabelo, sua voz suave como uma brisa.
— E elas vão ser, Lívia. Pode não parecer agora, mas às vezes a vida nos coloca à prova antes de nos dar o que realmente merecemos. Você é forte, muito mais do que pensa. E eu estarei aqui, com você, o tempo todo.
A sinceridade em sua voz me tocou de uma forma que eu não esperava. Mesmo sentindo-me completamente derrotada, havia algo na maneira como Otávio falava, na firmeza de suas palavras, que me fez querer acreditar nele. Talvez, só talvez, eu pudesse encontrar um jeito de seguir em frente, de continuar lutando, mesmo que cada fibra do meu ser estivesse cansada.
— Eu não sei o que faria sem você. — murmurei, a voz ainda embargada pela emoção.
Otávio sorriu, aquele sorriso que sempre iluminava seus olhos.
— Você não está sozinha nessa, Lívia.
Por um momento, apenas fiquei ali, em seus braços, tentando absorver o calor e a segurança que ele me oferecia. O silêncio foi preenchido pelo som suave de sua respiração, e por um instante, consegui afastar as vozes na minha cabeça. A realidade ainda era dura, ainda estava diante de mim, mas talvez, com Otávio ao meu lado, eu pudesse encontrar forças para enfrentar mais um dia.
Soltei um suspiro longo e pesado, como se estivesse tentando expurgar toda a dor e frustração de dentro de mim. Olhei para Otávio, seus olhos me observando com ternura.
— Eu realmente espero que você esteja certo, Otávio. Porque, sinceramente, não sei quanto tempo mais consigo continuar assim.
Ele segurou minhas mãos, entrelaçando seus dedos nos meus.
— Você é mais forte do que imagina. E, independentemente do que acontecer, isso não vai definir quem você é. O valor que você tem não depende de um emprego ou de uma oferta. Você é incrível do jeito que é, e nada vai mudar isso.
As palavras dele eram como um bálsamo, uma tentativa de curar as feridas que eu havia acumulado ao longo do dia. Mesmo assim, a dúvida ainda pairava no ar, como uma sombra que não queria me abandonar.
— Talvez você tenha razão. — sussurrei, sem muita convicção, mas tentando acreditar em suas palavras.
Otávio apertou minhas mãos, como se quisesse passar toda a sua força para mim.
— Eu tenho certeza, Lívia. Agora, por que você não toma um banho quente e tenta relaxar? Amanhã é um novo dia, e quem sabe o que ele pode trazer?
Assenti, um pouco relutante, mas ciente de que ele tinha razão. Não havia mais nada que eu pudesse fazer naquele momento, além de tentar descansar e recuperar minhas forças. O amanhã era incerto, como sempre, mas talvez, só talvez, houvesse uma pequena luz no fim do túnel.
Afastei-me lentamente de Otávio e caminhei em direção ao banheiro. Cada passo parecia mais leve, como se, de alguma forma, o peso do mundo tivesse diminuído um pouco. A água quente do chuveiro escorreu pelo meu corpo, levando embora o cansaço e a tristeza do dia. Fiquei ali, de olhos fechados, permitindo que a água levasse meus pensamentos, nem que fosse por alguns minutos.
Quando saí do banheiro, vesti um pijama confortável e voltei para a sala. Otávio estava esperando, com uma xícara de chá quente nas mãos.
— Fiz para você. — disse ele, oferecendo-me a xícara com um sorriso acolhedor.
Aceitei o chá e sentei-me ao seu lado no sofá. O calor da bebida aqueceu minhas mãos e, aos poucos, senti meu corpo relaxar.
— Obrigada, Otávio. Por tudo.
Ele balançou a cabeça, como se quisesse dizer que não precisava agradecer, que era o mínimo que ele podia fazer. Mas para mim, naquele momento, o apoio dele significava o mundo.
Ficamos ali em silêncio por um tempo, apenas apreciando a companhia um do outro. As sombras do dia ainda estavam presentes, mas a presença de Otávio ao meu lado fez com que parecessem menos ameaçadoras.
Eu sabia que o amanhã traria novos desafios, novas incertezas, mas também sabia que, com ele ao meu lado, eu tinha uma chance. Uma pequena chama de esperança começou a se acender dentro de mim, e, pela primeira vez naquele dia, permiti-me acreditar que talvez, só talvez, as coisas pudessem melhorar.
E assim, naquela noite, mesmo que ainda insegura, fui dormir com a sensação de que, de alguma forma, conseguiria encontrar meu caminho. Porque, afinal, eu não estava sozinha. E isso, por si só, já era um começo.
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