Capítulo 15 Dança e risos
Lívia Fontes
Depois de uma semana evitando Otávio, comecei a perceber o quanto tinha sido dura com ele. Eu não queria admitir, mas a ausência dele estava me incomodando. Talvez fosse o jeito dele, sempre calado, mas, ao mesmo tempo, presente em tudo. Eu precisava fazer alguma coisa para quebrar aquele clima estranho.
A ideia surgiu do nada, enquanto eu estava sozinha na sala. Resolvi colocar uma música. Mexi nas minhas playlists, procurando algo que trouxesse um pouco de alegria para aquele ambiente pesado. Achei uma faixa de forró que sempre me fazia sorrir, e sem pensar muito, dei play.
O som alegre preencheu a sala, e eu comecei a mexer os pés no ritmo. Foi quando uma ideia meio maluca me passou pela cabeça. O que Otávio pensaria se eu o convidasse para dançar? Eu sabia que ele era do tipo sério, com certeza não sabia dançar forró, mas essa era a graça.
Eu me aproximei da porta do escritório dele, batendo de leve antes de entrar. Ele estava concentrado em seu laptop, como sempre.
— Otávio?
Ele ergueu o olhar, parecendo surpreso por me ver ali.
— O que foi?
— Vem aqui na sala, quero te mostrar uma coisa.
Ele franziu o cenho, mas se levantou e me seguiu. Quando chegamos à sala, ele parou, claramente confuso ao ouvir a música.
— Você dança forró?
Ele cruzou os braços, com aquela expressão de quem não estava entendendo nada.
— Não faço ideia de como se dança isso.
— Então hoje é o dia que você vai aprender! — sorri, tentando disfarçar o nervosismo. — Vamos lá, não é tão difícil.
Ele parecia relutante, mas, para minha surpresa, aceitou o desafio. Eu o puxei pelo braço para o centro da sala, tentando não rir da expressão dele.
— Primeiro, relaxa. — Segurei sua mão e coloquei a outra no meu quadril. — É só seguir o ritmo.
Ele tentou, mas logo no começo já tropeçou no próprio pé, e eu acabei pisando no dele. Não consegui segurar o riso.
— Ai! — Ele reclamou, mas estava rindo também. — Isso é mais difícil do que parece!
— Você está travado, Otávio. — Respondi, ainda rindo. — Precisa soltar o corpo, sentir a música.
Recomeçamos, e ele estava levando mais a sério, mas continuava desajeitado. A cada erro, a gente ria mais. A tensão que existia entre nos foi se dissipando, substituída por uma leveza que eu não sentia há tempos.
— Acho que você precisa me ensinar mais devagar. — Ele disse, depois de quase cair de novo.
— Ok, vamos por partes. — Fui guiando ele, passo a passo, explicando como os pés deviam se mover. — Primeiro para um lado, depois para o outro. Viu? Não é tão complicado.
— Complicado não é, mas fazer é outra história. — Ele resmungou, mas estava se esforçando, e isso me fez sentir um calor no peito. Vê-lo tentar algo fora da zona de conforto dele, só para me acompanhar, era inesperadamente encantador.
Depois de algumas tentativas desajeitadas, ele começou finalmente a pegar o jeito. Ainda não estava perfeito, mas pelo menos conseguíamos nos mover sem tropeçar tanto.
— Olha só, está melhorando! — Elogiei, sentindo uma onda de satisfação.
— Não sei se "melhorando" é a palavra certa. — Ele disse, mas estava sorrindo.
O sorriso dele... era raro vê-lo assim, tão despreocupado. Foi nesse momento que me dei conta do quanto eu tinha sentido falta da presença dele. Não só do Otávio sério e fechado, mas do homem que estava agora, rindo e tentando dançar comigo.
A música continuava, e a gente foi se soltando mais. A cada nova tentativa, eu o guiava, corrigindo a postura dele, e ele me ouvia atentamente, como se fosse a coisa mais importante do mundo naquele momento.
— Agora, me acompanha nesse giro. — Tentei rodopiar, mas ele estava tão concentrado que acabou me puxando para o lado errado. Acabei esbarrando no sofá, e a gente quase caiu junto.
— Desculpa! — Ele disse, parecendo genuinamente preocupado.
— Tá tudo bem, é só uma dança! — Eu ri, puxando ele de volta para o centro. — Vamos tentar de novo.
E a gente tentou, várias vezes. E a cada vez, as risadas aumentavam. Aquele som de forró, que antes era só música, virou uma trilha sonora para o que parecia ser um recomeço. O Otávio, que eu achava que conhecia, estava me mostrando um lado que eu nunca tinha visto.
Depois de um tempo, ele já estava se movendo com mais facilidade, e eu estava começando a me divertir de verdade. Os passos que antes eram desajeitados, começaram a fluir. Eu me aproximei mais, sentindo o calor do corpo dele, e percebi que não queria que aquilo terminasse tão cedo.
— Viu só? Não foi tão difícil. — Disse, um pouco sem fôlego.
— Acho que eu tenho uma boa professora. — Ele respondeu, com um brilho nos olhos que eu não via há muito tempo.
Ficamos em silêncio por um momento, apenas seguindo o ritmo da música. Eu podia sentir o olhar dele em mim, e isso me fez corar um pouco, mas eu não queria desviar o olhar. Era como se, através daquela dança desajeitada, a gente estivesse redescobrindo um ao outro.
A música foi diminuindo, e eu senti uma mistura de alívio e tristeza. Não queria que acabasse, mas, ao mesmo tempo, sabia que tínhamos dado um grande passo. Quando a última nota tocou, nos separamos, mas ainda estávamos próximos.
— Obrigado por isso. — Ele disse, com uma sinceridade que me desarmou.
— Eu que agradeço por ter aceitado. — Respondi, tentando esconder a emoção que começava a me tomar. — Acho que estava precisando disso.
— Eu também. — Ele admitiu, com um sorriso leve.
Nos olhamos por mais alguns segundos, e eu soube que, mesmo que não disséssemos nada, algo tinha mudado entre nós. A distância que eu tinha imposto na última semana estava se dissolvendo, e no lugar dela, havia uma nova conexão.
— Podemos fazer isso mais vezes, se você quiser. — Disse, antes de perder a coragem.
— Acho que vou precisar de mais umas aulas. — Ele respondeu, e eu percebi que estava aberto a essa ideia.
Abracei ele de forma espontânea, sentindo o calor do corpo dele contra o meu. Era um gesto simples, mas cheio de significado. Naquele abraço, senti que estávamos mais próximos do que nunca, e talvez, quem sabe, esse fosse o começo de uma amizade.
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