Capítulo 13 Um péssimo encontro

Lívia Fontes

Eu não sabia o que esperar daquele passeio no shopping. Otávio parecia diferente, mais tranquilo do que o habitual, como se estivesse tentando me agradar de algum jeito que eu não conseguia decifrar. Talvez fosse porque, ultimamente, as coisas entre nos estavam um tanto quanto tensas, e ele queria amenizar a situação. 

Eu estava decidida a não criar mais nenhuma confusão, então só segui ao lado dele, tentando me concentrar nas vitrines e esquecer o fato de que estava ali, em pleno sábado, com um homem que me atropelou e que, estranhamente, me acolheu na casa dele.

— Quer parar ali? — Otávio apontou para uma loja de roupas, e eu dei de ombros, sem muita vontade.

— Não precisa, só estou dando uma olhada.

Ele não insistiu, mas percebi que ele estava com aquele olhar de quem queria dizer algo e não sabia como. Continuamos andando pelo corredor movimentado, e eu me distraí com uma criança que corria na frente de seus pais, rindo alto, o que me fez sorrir de leve. Até que uma voz feminina soou perto de nós, doce e, ao mesmo tempo, carregada de uma familiaridade desconcertante.

— Otávio?

O sangue gelou nas minhas veias antes mesmo de eu entender o que estava acontecendo. Quando me virei, lá estava ela. Alta, bonita, com aquele tipo de elegância natural que eu nunca tive, e que me fazia sentir pequena em comparação. Os cabelos castanhos ondulados caíam pelos ombros, e os olhos verdes estavam fixos em Otávio com uma expressão que misturava surpresa e satisfação.

— Luísa... — ele murmurou, parando abruptamente, como se tivesse sido pego de surpresa.

Eu sabia exatamente quem ela era antes mesmo dele precisar apresentar. Luísa, com certeza, era uma ex-namorada. Um aperto no peito se formou, desconfortável e irritante. Eu deveria estar aliviada por finalmente ver a mulher que Otávio havia mencionado uma ou duas vezes de maneira casual, mas tudo o que eu sentia era uma onda de ciúme irracional.

— Quanto tempo! — ela disse com um sorriso que parecia genuíno demais para ser real.

— Pois é. — Otávio respondeu, ainda sem saber muito bem como reagir. Ele olhou de mim para ela, como se estivesse procurando as palavras certas para aquela situação que ele obviamente não esperava. — Essa é a Lívia... uma amiga.

Amiga. Foi a única palavra que ele encontrou para me definir. Não que eu esperasse outra coisa, mas ouvir isso sair da boca dele me fez sentir um gosto amargo. Era mais fácil pensar nele como o homem que me atropelou e com quem eu estava temporariamente por pura falta de opção. Mas ali, na frente daquela mulher perfeita, eu me sentia deslocada e desconfortável.

— Amiga? — Luísa arqueou uma sobrancelha, claramente intrigada. O olhar dela deslizou por mim, da cabeça aos pés, como se estivesse me avaliando, e eu me senti como um livro aberto, fácil de ser lido.

— Sim. — murmurei, tentando parecer mais calma do que realmente estava. — Só amiga.

Ela deu um sorriso pequeno, que parecia mais triunfante do que simpático, e estendeu a mão para mim.

— Prazer, Lívia.

Apertei a mão dela com um pouco mais de força do que o necessário. Por mais que eu quisesse ignorar aquela sensação estranha que me dominava, era impossível. O jeito como ela olhava para Otávio, como se tivesse direito sobre ele, e como ele parecia desconfortável me irritavam profundamente. E o pior era que eu não tinha nenhum motivo racional para me sentir assim.

— E o que vocês estão fazendo aqui? — Luísa perguntou, ainda com aquele tom casual que escondia um ar de provocação.

— Só passeando. — respondi antes que Otávio pudesse dizer qualquer coisa.

Eu não sabia por que, mas sentia uma necessidade absurda de deixar claro que eu estava ali com ele, que, por algum motivo, ele tinha me levado para aquele passeio, e não ela. Mas logo percebi o quão ridículo aquilo era. 

Não éramos nada um do outro. Eu era só uma hóspede na casa dele, alguém que ele estava ajudando. E mesmo assim, eu me sentia atingida por cada palavra que ela dizia, como se tivesse que competir por algo que eu nem queria.

— Faz tempo que a gente não se vê, Otávio. Quem diria que nos encontraríamos assim, por acaso. — Ela riu suavemente, um som que parecia quase ensaiado.

— Verdade... — Ele respondeu, coçando a nuca, o que só mostrava o quão desconfortável ele estava.

Luísa parecia gostar daquele momento. Ela cruzou os braços e inclinou a cabeça para o lado, me observando com mais atenção.

— Vocês dois parecem próximos. — A voz dela era carregada de uma malícia sutil, algo que me fez sentir o rosto esquentar.

— Não é o que parece. — apressei-me em responder, tentando ignorar a tensão crescente dentro de mim. — Ele só está me ajudando... tive uns problemas e...

— Ah, então você é do tipo que ajuda quem precisa. — Ela lançou um olhar sugestivo para Otávio, e eu senti a mandíbula se apertar. — Isso é tão... inesperado de você.

Aquilo foi a gota d'água. A maneira como ela falava, como se soubesse de algo que eu não sabia, estava me tirando do sério. Mas, por algum motivo, Otávio continuava calado, sem defender ou explicar nada. 

Será que ele ainda sentia algo por ela? Era isso que me incomodava, a dúvida que me corroía por dentro. E por mais que eu tentasse afastar esses pensamentos, eles continuavam me assombrando.

— Bom, nós estávamos de saída, né, Otávio? — Disse, tentando me livrar daquela situação o mais rápido possível.

Ele pareceu acordar de um transe e concordou com a cabeça, mas eu percebi que ele ainda olhava para Luísa com um misto de nostalgia e desconforto. Não queria pensar no que aquilo significava. Só queria sair dali, longe daquela mulher que me fazia sentir tão insegura.

— Foi bom te ver, Luísa. — Otávio finalmente disse, com um sorriso que me pareceu forçado.

— Igualmente. — respondeu ela, com um sorriso que, para mim, parecia genuíno demais. — Quem sabe a gente se vê de novo?

Esperava que não, pensei, enquanto começávamos a nos afastar. Mas mesmo enquanto nos afastávamos, eu ainda podia sentir o olhar dela em minhas costas, como se ela estivesse marcada na minha pele. E a cada passo que eu dava, a sensação de ciúme e frustração aumentava. 

Eu odiava sentir aquilo, principalmente porque não havia razão. Otávio não era meu, ele não tinha nenhuma obrigação de me defender ou me escolher em qualquer situação. 

Quando finalmente saímos do campo de visão dela, eu não consegui mais me segurar.

— Então... é assim que você age quando encontra sua ex? — perguntei, sem esconder o tom de irritação.

— O que quer dizer com isso? — Ele parou de andar, me encarando, agora surpreso com minha atitude.

— Não sei, Otávio, talvez o fato de que você parecia estar em outro mundo quando ela apareceu? Como se eu não estivesse ali!

Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo, visivelmente frustrado.

— Lívia, ela foi parte do meu passado. Não sei se deixei tão obvio assim que ela era minha ex, porém, você deduziu correto. Ela não significa nada hoje em dia.

— Certo... — murmurei, olhando para o chão, ainda incapaz de esconder a irritação.

— Por que isso te incomoda tanto? — Ele perguntou, dando um passo na minha direção, me fazendo levantar o olhar. — Pensei que você não se importasse com quem falo ou não.

Eu não sabia como responder. Porque a verdade era que eu não sabia por que me importava tanto. Não devia me importar. Não queria me importar. Mas me importava, e aquilo estava me consumindo. Suspirei, tentando ignorar o nó na garganta que estava se formando.

— Não sei, Otávio... — murmurei, desviando o olhar. — Eu só... não sei.

Ele ficou em silêncio por um momento, como se estivesse tentando entender o que se passava na minha cabeça. Finalmente, ele deu um suspiro longo, como se tivesse desistido de encontrar uma resposta.

— Vamos embora, então? — Ele sugeriu, sua voz mais suave agora.

Concordei, e nós começamos a caminhar em silêncio pelo shopping, cada um imerso em seus próprios pensamentos. Mas, mesmo enquanto caminhávamos, a presença de Luísa ainda pairava sobre mim, como uma sombra que eu não conseguia afastar. 

Eu não sabia o que o futuro reservava para nós dois, mas uma coisa era certa: aquele encontro inesperado havia despertado algo dentro de mim que eu não estava pronta para enfrentar.

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