Capítulo 12 Jantar elegante

Otávio Guimarães 

Foi um pouco difícil convencer Lívia de jantarmos fora, no entanto, tinha conseguido. O ambiente estava perfeito. O restaurante era um dos melhores da cidade, conhecido por sua sofisticação e pratos requintados. 

O maître nos conduziu a uma mesa reservada, com uma vista incrível do mar ao longe. O ambiente era elegante, com luzes suaves, música ao fundo e uma decoração impecável. Eu escolhi esse lugar a dedo, pensando em impressionar ela, apesar da teimosia dela em se manter distante.

Assim que nos sentamos, observei-a tentando esconder o desconforto. Ela estava visivelmente fora de sua zona de conforto, mas mantinha a cabeça erguida. Notei que evitava contato visual, fingindo estar interessada no menu. Pedi o melhor vinho da casa, tentando criar uma atmosfera mais descontraída.

— Você vai adorar o vinho. É uma safra especial, e o chef preparou um menu degustação que é um espetáculo. — comentei, tentando aliviar a tensão que pairava entre nós.

Lívia apenas acenou com a cabeça, lançando um sorriso tímido, sem dizer uma palavra. O garçom chegou com o vinho, apresentando a garrafa com todo o ritual que um lugar como aquele exigia. Ele serviu as taças com precisão, e eu brindei à noite.

— Às novas experiências, Lívia.

Ela pegou a taça de vinho com um certo receio, talvez ainda pensando se pertencia àquele mundo ou não. Enquanto eu apreciava o sabor rico e encorpado do vinho, percebi que Lívia estava visivelmente tensa, olhando ao redor, como se esperasse que algo desse errado a qualquer momento.

— Você está bem? — perguntei, tentando ser cuidadoso nas palavras. — Se não quiser estar aqui, podemos ir embora.

— Não, está tudo bem. — ela respondeu, embora a falta de firmeza na voz a traísse.

O primeiro prato chegou, uma entrada refinada que mesclava sabores únicos. Ela deu uma garfada tímida, mas percebi que não estava totalmente à vontade. Enquanto eu observava, algo me dizia que ela estava muito preocupada com a impressão que estava causando.

Foi então que tudo desandou.

Lívia pegou a taça de vinho para mais um gole, mas, em um movimento desastrado, ela tropeçou no próprio pé. Eu só consegui perceber quando o vinho começou a cair em câmera lenta. A taça virou de lado, e o líquido vermelho-escuro voou direto para a minha camisa.

— Ah, meu Deus! — ela exclamou, claramente desesperada. — Desculpa, Otávio! Eu não queria...

Olhei para baixo, vendo minha camisa impecável agora manchada com o vinho. Um silêncio constrangedor se instaurou entre nós. O garçom se aproximou rapidamente com panos para tentar limpar, mas o dano estava feito.

— Não se preocupe, Lívia. — falei, tentando manter a calma, embora por dentro eu estivesse fervendo de irritação. — Acontece.

— Não, não... Eu sou um desastre! — ela disse, sua voz começando a tremer.

Levantei a mão para tentar acalmar a situação.

— Calma, está tudo bem. É só uma camisa.

Ela me olhou com os olhos arregalados, claramente mortificada. Não era apenas o vinho derramado. Era todo o peso de estar fora de sua zona de conforto, a pressão de estar em um lugar onde ela sentia que não pertencia, e a ideia de que havia estragado tudo.

— Eu não devia estar aqui. — ela murmurou, quase como se estivesse falando para si mesma.

Me levantei, tentando dar a volta na mesa, e me abaixei para ficar na altura dela.

— Lívia, olha para mim.

Ela relutou, mas finalmente levantou o olhar.

— Isso é apenas um jantar. A roupa não importa, o vinho não importa. Só quero que você se sinta bem.

Ela mordeu o lábio, ainda com os olhos brilhando, prestes a chorar.

— É que... Eu só...

— Eu sei que você não se sente à vontade aqui — interrompi, com a voz mais suave que pude. — Mas estou aqui com você. Isso é o que importa para mim.

O garçom, visivelmente desconfortável com a situação, trouxe mais panos e sugeriu trocar a camisa por uma nova no banheiro, mas eu recusei. Não queria prolongar o embaraço.

— Podemos ir embora, se você preferir. — ofereci, tentando não pressioná-la.

Lívia respirou fundo, como se estivesse lutando contra a vontade de se deixar dominar pelas emoções.

— Não... Eu quero ficar. Desculpa por isso, de verdade.

Voltei a me sentar, percebendo que ela ainda estava agitada, mexendo na comida sem realmente comer. Queria acalmá-la, mas não sabia ao certo como. Aquele ambiente era familiar para mim, mas para ela, era um campo minado.

— Já me aconteceu algo parecido. — menti, tentando aliviar o peso da situação. — Numa reunião importante. Um cliente derramou café em mim. Acontece.

Ela soltou uma risada nervosa, provavelmente imaginando a cena.

— Isso deve ter sido horrível.

— Foi, mas sobrevivemos, não é?

A tensão pareceu diminuir um pouco, mas ainda era palpável. O garçom voltou para perguntar se estávamos prontos para o próximo prato, e eu assenti.

— Vamos continuar, ok? — falei, tentando encorajar Lívia. — A noite ainda está só começando.

Ela respirou fundo e sorriu, um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

— Eu vou tentar não derrubar mais nada. — brincou, finalmente relaxando um pouco.

Assenti, aliviado por ver que o momento mais tenso havia passado. O segundo prato chegou, e comecei a falar sobre coisas triviais, tentando distrair Lívia e fazer com que ela se sentisse mais à vontade. Contei algumas histórias engraçadas, e ela começou a se soltar.

A camisa manchada já não importava mais. O que realmente tinha valor era vê-la relaxar, perceber que eu não estava bravo e que, no fundo, tudo isso não passava de um pequeno contratempo. Afinal, eram os momentos como esse que, de algum modo, nos aproximavam mais, apesar de todas as diferenças.

Ao final do jantar, quando saímos do restaurante, ainda sentia a umidade do vinho na camisa, mas aquilo já não fazia a menor diferença. Caminhamos até o carro, e eu notei que Lívia parecia mais tranquila, mais próxima de mim.

— Obrigada, Otávio... por não ter ficado bravo.

Sorri para ela.

— Foi só uma mancha. O que importa é que você está aqui.

Entramos no carro e, ao dar partida, percebi que aquela noite, mesmo com seu início desastroso, tinha sido um passo importante. Mais do que qualquer outra coisa, foi uma oportunidade de mostrar a Lívia que eu realmente me importava com ela, além das aparências.

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