Capítulo 10 Problemas com Lívia
Otávio Guimarães
A noite estava fria e eu mal havia conseguido dormir. Acordei várias vezes, perturbado pelos meus pensamentos sobre Lívia. Ela estava ali, sob o meu teto, mas parecia tão distante quanto uma estrela no céu. Decidi que precisava desabafar com alguém, e quem melhor que Victor? Ele sempre foi meu confidente, desde os tempos de faculdade. Não hesitei em pegar o telefone e combinar de encontrá-lo no nosso bar de sempre.
Quando cheguei, Victor já estava lá, com um copo de whisky na mão. Ele me cumprimentou com aquele sorriso meio sarcástico, já percebendo que eu não estava bem.
— Você parece um morto-vivo, Otávio. O que aconteceu?
Sentei-me no banco ao lado dele e suspirei, pedindo um whisky duplo para tentar aliviar a tensão.
— É a Lívia... Eu não sei mais o que fazer, Victor. Ela está na minha casa, mas parece que está em uma prisão. Cada dia que passa, ela se afasta mais.
Victor me olhou com curiosidade, enquanto dava um gole no seu drink.
— Mas o que você esperava, Otávio? A garota foi atropelada por você. Agora, está hospedada na sua casa novamente após ir embora e descobrir que perdeu tudo. É claro que ela vai se sentir desconfortável.
Balancei a cabeça, sentindo o peso de cada palavra que ele dizia.
— Eu sei disso, mas estou fazendo de tudo para que ela se sinta confortável. Reformei o quarto dela, comprei roupas novas, até mandei preparar as refeições que ela gosta. E mesmo assim, nada parece ser o suficiente.
Victor riu, como se estivesse se divertindo com a situação.
— Talvez o problema não seja o conforto, Otávio. Você já pensou que ela pode simplesmente não gostar de você?
Suas palavras me atingiram como um soco. A verdade era que eu já havia considerado essa possibilidade, mas ouvir isso em voz alta foi um golpe difícil de suportar.
— É possível... Mas eu não consigo entender. Estou fazendo tudo certo, Victor. Estou me esforçando para ser gentil, para mostrar que não sou apenas aquele empresário frio e calculista que todo mundo pensa que eu sou.
Victor apoiou o cotovelo no balcão e me olhou com um misto de pena e diversão.
— Otávio, às vezes, não é sobre o que você faz, mas sobre quem você é. E talvez ela esteja vendo algo em você que você mesmo não enxerga.
Aquilo me fez refletir. Sempre fui o tipo de homem que controla tudo ao redor, que resolve problemas com dinheiro e poder. Mas com Lívia, era diferente. Não podia comprar a confiança dela, nem forçar a aproximação.
— E o que eu faço então? — perguntei, quase desesperado.
Victor deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia.
— Talvez seja hora de parar de tentar agradá-la com coisas materiais e começar a entender o que ela realmente quer. Você já perguntou a ela?
Fiquei em silêncio por um momento, percebendo que talvez nunca tivesse, de fato, perguntado a Lívia o que ela queria. Sempre fui direto, assertivo, mas com ela, era tudo uma incógnita.
— Acho que não... — admiti, com certa relutância.
Victor riu, dando um tapinha nas minhas costas.
— Então, talvez essa seja a solução. Converse com ela, sem máscaras, sem tentar impressioná-la. Seja honesto, Otávio. É o mínimo que você pode fazer.
Enquanto bebia o whisky, fiquei pensando nas palavras de Victor. Ele tinha razão, mas a ideia de me abrir e mostrar minhas vulnerabilidades não me agradava. Nunca fui bom em lidar com sentimentos, preferia resolver tudo de maneira prática. Contudo, com Lívia, essa estratégia estava falhando miseravelmente.
— Vou tentar... — murmurei, mais para mim mesmo do que para Victor.
Ele deu um último gole na bebida e se levantou.
— Vai lá, campeão. E se der tudo errado, pelo menos você tentou.
Assenti, ainda absorvendo tudo o que conversamos. Quando Victor saiu, fiquei mais alguns minutos no bar, pensando no que diria a Lívia. Como abordar o assunto? Como quebrar essa barreira que existia entre nós?
No caminho de volta para casa, senti um peso no peito. Eu não era o tipo de homem que se abria facilmente, mas algo em Lívia me fazia querer tentar, mesmo sem saber ao certo como.
Ao chegar, encontrei a casa em silêncio. A luz do quarto dela estava acesa, uma pequena fresta na porta deixava escapar uma linha fina de luz. Bati de leve e esperei. Quando ela abriu a porta, parecia surpresa em me ver.
— O que foi, Otávio? Aconteceu alguma coisa?
Respirei fundo, buscando as palavras certas.
— Precisamos conversar, Lívia.
Ela hesitou por um momento, mas abriu a porta completamente, me convidando a entrar. Sentei-me na poltrona ao lado da cama, enquanto ela permanecia de pé, claramente desconfortável.
— Estou preocupado com você, Lívia. Quero que se sinta à vontade aqui, mas parece que estou falhando.
Ela desviou o olhar, mexendo nervosamente nas mãos.
— Não é sua culpa, Otávio. É só... difícil para mim.
— Eu sei. Mas quero entender melhor. Quero saber o que posso fazer para ajudar.
Ela suspirou, finalmente me encarando.
— Não é fácil estar aqui. Sinto-me um peso, um incômodo. Não gosto de depender de ninguém, ainda mais de alguém como você... que tem uma vida tão diferente da minha.
Suas palavras me atingiram, mas também trouxeram uma clareza que eu não esperava.
— Não quero que se sinta assim, Lívia. Estou aqui porque me importo. Quero que saiba que não estou fazendo isso por obrigação. Estou fazendo porque quero.
Ela me olhou com uma expressão que misturava surpresa e dúvida.
— Por que você se importa tanto, Otávio?
Era uma pergunta difícil, mas sabia que devia ser honesto.
— Porque, de alguma forma, você me fez enxergar as coisas de um jeito diferente. Quero que esteja bem, mas também quero que saiba que pode confiar em mim.
Lívia permaneceu em silêncio, processando minhas palavras. Eu não esperava uma resposta imediata, mas pelo menos, havia conseguido abrir um canal de comunicação que antes estava bloqueado.
— Vou tentar, Otávio. Mas não prometo nada. Ainda é tudo muito confuso para mim.
Assenti, entendendo sua posição.
— Não estou pedindo promessas, Lívia. Só quero que saiba que estou aqui. Para o que precisar.
Ela esboçou um pequeno sorriso, o primeiro em muito tempo. E, naquele momento, senti que, mesmo com todas as dificuldades, havia uma esperança. Uma pequena chama que poderia, quem sabe, iluminar o caminho para algo melhor.
Saí do quarto dela com uma sensação de alívio. Sabia que a jornada não seria fácil, mas pelo menos havia dado o primeiro passo. E, para alguém como eu, isso já era um grande avanço.
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