Capítulo Vinte e Três

Mauro pinheiros:

Vi ele partindo, e Clarice estralou os dedos bem na frente do meu rosto, como se quisesse arrancar minha atenção daquele momento fugaz.

— Está gostando dele, não é? — perguntou Clarice, sua voz suave e carregada de curiosidade. Olhei para sua direção confuso, perplexo com sua astúcia.

— Estou agindo como um bobo e quase pedi para ele ficar um tempo em minha casa quando disse que não estava fazendo muita coisa. — Desabafei, golpeando meu próprio rosto com frustração. — Mas, sabe, já publiquei tantas fotos na internet, todas espalhadas. Parece que agora estou destinado a receber entregas todos os dias, graças às compras frenéticas da Diana.

Clarice, com um olhar perspicaz, apontou na direção de Castiel, que se aproximava lentamente de nós, seu corpo exalando um certo atordoamento. Ele havia me seguido, saído comigo, e agora estava de pé ao lado do carro. Assim que estacionei o carro diante do prédio oposto, ele o ajudou a sair e aguardou pacientemente que eu parasse de falar.

Foi nesse momento que a realidade finalmente se abateu sobre mim, e percebi o que havia feito. Fiquei chocado com o fato de Clarice não ter tentado me impedir.

O que Castiel pensava? Estaria ele vindo para minha casa para me ajudar? E, mais importante, o que diabos eu estava pensando? Como minha mãe costumava dizer: "Viva sua vida do seu jeito." Mas havia algo dentro de mim que me dizia que Castiel era uma boa pessoa, apesar de um nó de ansiedade se formar em meu peito.

Eu estava agindo normalmente, mas agora minha pele queimava em um tom de vermelho intenso. Espere um minuto, isso estava se desenrolando rápido demais. Será que Castiel, assim como eu, estava confuso com a situação?

Será que ele pensava que eu o estava convidando para morar comigo? Eu não me declarei para ele, isso seria rápido demais! Estaria eu arrastando-o para uma convivência precipitada? O ritmo parecia excessivamente acelerado!

Quando finalmente entramos no quarto de hóspedes da minha casa, percebi que ele parecia aliviado e um pouco mais à vontade. Era, afinal, apenas o quarto de hóspedes. No entanto, logo recuperou seu espírito, e eu também.

Eu não era o tipo de pessoa que convidava alguém para morar comigo à toa. Meu relacionamento mais duradouro com um colega de quarto havia durado seis anos e meio, desde antes da faculdade. Não era assim que as coisas funcionavam. No entanto, desde que ele cruzou a porta da minha casa, eu estava determinado a mostrar que era uma pessoa incrível e que Castiel não deveria temer o pior de mim. Quem sabe, talvez isso pudesse ser o começo de algo mais do que uma simples convivência.

Voltei a mim quando Castiel surgiu no meu campo de visão, e notei um traço de emoção complicada brilhando em seus olhos. Seria possível que ele também estivesse consciente de que seus sentimentos em relação a mim eram mais complexos do que podia aparentar.

— Voltei a trabalhar e já avisei aos vizinhos que podem te ver por aqui. — Comentei, estalando a língua em um gesto descontraído. — Meus vizinhos são bastante preocupados e um tanto fofoqueiros, como alguns dos meus ex-namorados podem atestar.

Uma expressão de surpresa passou pelo rosto de Castiel.

— Ah? Ah! Bem, muito obrigado por me ajudar com os afazeres. — Falei, sorrindo sinceramente. — Você é realmente uma boa pessoa.

Nesse momento, tive a sensação de que queria cuidar dele, e em seus olhos, detectei um lampejo de desejo. Será que ele havia dito isso de propósito? Meu coração começou a acelerar, e a tensão no ar era palpável.

— Tenha um ótimo restante de trabalho. — Ele respondeu com um sorriso delicado, e nos despedimos com um abraço que parecia transmitir mais do que palavras poderiam expressar.

O abraço pareceu durar uma eternidade, como se fosse um elo invisível entre nós dois. Pude sentir o calor do corpo de Castiel contra o meu, e o toque suave de sua pele enviou arrepios pela minha espinha. Uma sensação intensa de conexão se estabeleceu naquele momento, uma conexão que eu não podia ignorar.

Quando finalmente nos separamos, nossos olhares se encontraram novamente, e não havia mais espaço para negar o que estava acontecendo entre nós. Castiel parecia tão surpreso quanto eu, e ao mesmo tempo, seus olhos revelavam um desejo que era mútuo.

— Tenha cuidado, Castiel. — Murmurei, a voz embargada pela tensão. — E, bem, se precisar de algo... qualquer coisa, mesmo, é só me ligar.

Ele assentiu com um sorriso grato, mas havia algo mais naquele sorriso, algo que deixava claro que ele estava pensando nas possibilidades do que estava por vir.

Quando Castiel se afastou e partiu para retomar seu trabalho, fiquei ali, encarando a porta por onde ele havia saído. Meu coração estava em um turbilhão, e as incertezas do que estava acontecendo entre nós pairavam no ar.

Uma coisa era certa: aquele encontro casual havia transformado nossas vidas de uma maneira que nenhum de nós poderia ter previsto. E agora, enquanto eu me via sozinho na minha casa, tinha a sensação de que o capítulo mais emocionante dessa história estava prestes a começar.

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O restante do meu dia transcorreu de maneira surpreendentemente tranquila. Fiquei satisfeito ao ver que todas as encomendas que haviam chegado foram recebidas por Castiel com a mesma rapidez que da última vez que eu havia feito compras online.

Após concluir todas as minhas tarefas, tranquei a sala e decidi encontrar Davion, embora não estivesse exatamente ansioso por isso. Sua presença sempre parecia trazer consigo uma dose de negatividade que me fazia perder o sorriso no rosto.

— Onde está a sua "amiguinha demoníaca"? Ela o abandonou desta vez? — Davion perguntou, seu tom carregado de irritação, como de costume.

Revirei os olhos, frustrado com sua atitude.

— Ela está ocupada e tem uma vida que não gira em torno de mim. — Respondi, passando por ele e seus comentários desagradáveis, decidido a não dar importância a pessoas que claramente não mereciam minhas palavras.

Quando cheguei em casa, encontrei Castiel na cozinha, ocupado preparando uma refeição.

— O que está cozinhando? — Perguntei, curioso com o aroma delicioso que se espalhava pelo ar.

Castiel sorriu orgulhosamente enquanto continuava a mexer na panela.

— Ah, sim. Para ajudar com as coisas, decidi limpar a casa e fazer um bom prato para você. Normalmente, cozinho sozinho, então, para ser honesto, minha culinária é mais do que boa. Deveria dizer que é excelente!

Dei risada, apreciando seu entusiasmo.

— Bem, eu sou o cozinheiro habitual por aqui, e não costuma cheirar tão bem assim. — Comentei, fazendo-o rir junto comigo.

— Ah, antes que me esqueça, levei as minhas coisas para o quarto de hóspedes. Coloquei as coisas que sua irmã pediu na sala, não sabia onde você gostaria de guardá-las. — Ele explicou, e agradeço por ele não ter mencionado que era para o quarto de hóspedes.

Antes de chegar em casa, Diana me mandou uma mensagem informando que havia comprado mais algumas coisas hoje, mas considerei que não era necessário mencionar isso e planejava discutir com Diana a possibilidade de fazer as entregas diretamente no endereço dela, ou seja, na casa do meu pai.

Após meu banho, encontrei Castiel na sala de estar, imerso na leitura de um livro. Ele estava posicionado ao lado da janela da varanda, e a luz da lua entrava, iluminando-o de uma forma que tornava impossível desviar os olhos de sua beleza.

— A comida está pronta. Vamos comer? — Ele sugeriu, fechando o livro e me tirando da minha contemplação.

Senti um nó na garganta e desviei o olhar, me sentindo um pouco inquieto. Quando duas pessoas se davam tão bem, era comum que a tensão existente na situação externa fosse desviada para uma direção mais positiva. Mesmo assim, eu não esperava que meu coração reagisse tão imediatamente.

Originalmente, planejava conversar com ele sobre a situação, mas agora parecia que o momento não era adequado. Seguimos para a sala de jantar, pegamos dois pratos e nos acomodamos.

— Preparei um prato da culinária chinesa. — Castiel anunciou, abrindo a tampa da panela. — Mapo doufu. Os ingredientes são grãos de pimenta Sichuan, alho, cebolinha verde e vinho de arroz, que não costumam variar muito.

Olhei para a comida, e meu estômago roncou, fazendo-o rir baixinho, o que me deixou envergonhado.

Depois de uma refeição deliciosa, Castiel olhou para mim com curiosidade.

— Mauro, o que você gostaria de comer no café da manhã? — Perguntou, seu rosto iluminado por um enorme sorriso e olhos cheios de expectativa.

Meu coração deu um salto, e tive a sensação de que o via de uma forma diferente, vestindo algo além do que estava agora, talvez até segurando minha mão.

— Três bolinhos com recheio de chocolate. — Respondi, deixando escapar as palavras que pareciam ter saído de algum sonho ou ilusão.

Ele sorriu ainda mais.

— Ótimo! Amanhã, antes mesmo de você acordar, começarei a prepará-los. — Disse, seus olhos brilhando de alegria. Era como se uma conexão especial estivesse se formando entre nós, algo que não podíamos mais ignorar.

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Gostaram?

Até a próxima 😘


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